Iluminar caminhos

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    O crescimento da economia do Brasil registrado nos últimos anos tem aquecido diversos setores da indústria de produção. Se por um lado isso significa saldo positivo, por outro tem provocado problemas em algumas áreas, que têm enfrentado dificuldades para crescer. O motivo é um velho conhecido: a falta de mão de obra qualificada. Muitas dessas empresas são obrigadas a buscar alternativas para amenizar o problema e encontrar pessoal capacitado. Para se ter uma ideia da escassez, pesquisa divulgada recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 1.616 empresas mostra que 69% delas enfrentam dificuldades com a falta de trabalhadores qualificados. De acordo com o estudo, todas as categorias e setores profissionais são atingidos, o que amplia, e muito, a dimensão do problema. Entre os setores mais afetados em relação à ausência de profissionais qualificados no Paraná, por exemplo, estão indústrias de fiação e tecelagem; construção civil; bebidas; e Tecnologia da Informação.

    Fóruns setoriais
    E esse apagão de profissionais tem tirado o sono de representantes da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). Na tentativa de amenizar as dificuldades enfrentadas por estes setores, o órgão realiza desde 2009 fóruns setoriais, direcionados a todas as áreas industriais do estado com o intuito de identificar os principais problemas que afetam o desempenho das indústrias ali instaladas. A partir das discussões e dos levantamentos de informações, uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) permite um trabalho de qualificação profissional. Agora, em 2011, uma nova edição dos fóruns está sendo realizada e já foi possível verificar que alguns setores obtiveram melhoria em relação à qualificação da mão de obra, mas ainda não superaram as deficiências. Segundo a pesquisa da CNI, 78% das empresas que sofrem com a falta de qualificação profissional recorrem a cursos de capacitação para suprir a demanda. Por outro lado, a baixa qualidade na educação básica é uma das principais dificuldades que 52% das empresas de base industrial enfrentam para qualificar o trabalhador.

    No Senai Paraná existe, desde 1942, um trabalho voltado à capacitação profissional com foco nas indústrias, como explica o diretor da entidade, João Barreto Lopes. “Trabalhamos com 22 grandes setores industriais. Nos reunimos com representantes desses setores e planificamos todo o trabalho de formação do Senai, por meio dessa interatividade”, conta. Lopes ressalta que em 2011 a expectativa é de 252 mil novos formandos, maior que o resultado de 2010, quando o número de profissionais que concluíram o curso foi 30% maior em relação à demanda. Para o diretor, um dos fatores que contribui para a não qualificação é o fato de as pequenas indústrias – a partir de sua metodologia de trabalho – contratarem profissionais sem experiência. Quanto aos que seguem na área, ele conta que 90% dos que concluem os cursos de capacitação do Senai seguem na área após um período de até dois anos, tempo de acompanhamento da pesquisa. No entanto, um agravante pode contribuir para a disseminação do problema. “Podemos estar formando trabalhadores em Curitiba, mas a oferta estar concentrada em outra região do estado”, indica Lopes.

    Foco nas parcerias
    De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Paraná (Sinditêxtil), Marcelo Surek, uma das áreas mais afetadas, em especial na região norte do Paraná, mesmo com o crescimento de profissionais nos últimos anos, é a indústria têxtil. “É fato que há no mercado muitas pessoas desqualificadas. Por isso, é essencial buscar novas soluções”, enfatiza. Ele cita a parceria com o Senai como forma de minimizar esse problema. “A aliança começou em 2009. O Senai oferece a sala e a instrução e o sindicato entra com o material”, explica. Além disso, o Sinditêxtil procura promover cursos para encarregados, ajudantes e alimentadores de processo. Segundo Surek, conforme indica a CNI e a Fiep, todas as áreas têm déficit de recursos humanos.

    “Procuramos a qualificação profissional. Estamos com um curso de costureiro no Senai, por exemplo, mas ainda enfrentamos problemas com a falta de interessados”, diz. Dentro desse contexto, ele chama a atenção para o baixo nível de aproveitamento de qualquer curso profissionalizante. “O curso começa com 80 pessoas, mas termina com 30, 35, no máximo. Não conseguimos aproveitar todos. Muitos entram na área e acabam não se adaptando”, afirma.  Na tentativa de promover um aumento de profissionais no setor, o sindicato entra em contato com as empresas a partir do momento em que se formam novos profissionais, para que eles sejam remanejados.

    Alternativas possíveis
    O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Paraná (Sinduscon-PR) da região oeste, Gerson Lorenzi, aponta que para suprir a falta de trabalhadores no setor a entidade busca algumas alternativas, como a realização de um curso para mulheres azulejistas. “Tentamos incentivar pessoas que não são da área. Fazemos parcerias com o Senai e o Sesi para cursos, e também com o Exército, para contratar soldados que estejam saindo e queiram ingressar em novo emprego.” Por enquanto, diz ele, as alternativas têm dado bons resultados.

    Segundo ele, ainda é possível manter o planejamento do setor, com a entrega das obras nos prazos especificados, e as construtoras estão cada vez mais em busca de tecnologia para diminuir a ausência de profissionais, por meio do investimento em equipamentos. Por outro lado, pelo fato de o setor estar em constante evolução, há a preocupação com o futuro da área. Por conta disso, o sindicato prepara para o período entre 21 e 23 de setembro, em Foz do Iguaçu, o Encontro Nacional para Inovação na Construção Civil (Eninc). O evento é destinado para um público-alvo formado por arquitetos, engenheiros e profissionais de áreas afins, além de pessoas ligadas às aproximadamente cinco mil empresas da construção civil que atuam no Paraná.

    Inclusão social
    Na região norte do estado, a preocupação em relação à qualidade dos profissionais também persiste. O presidente do Sinduscon Norte, Gerson Guariente Junior, afirma que as primeiras ações realizadas nesse sentido são, a exemplo de outros sindicatos, as parcerias. Neste caso,  com o Senai, a Guarda Mirim de Londrina e as empresas associadas, onde são realizados treinamentos de novos trabalhadores.

    O Sinduscon Norte também trabalha em sociedade com o Sistema Nacional de Emprego (Sine), com a realização de programas de inclusão social, que mantêm entre 250 e 300 pessoas em treinamento constante. Os cursos têm em média de seis meses a um ano de duração. Junior explica que o sindicato realiza com o apoio do Senai a capacitação de pessoas de outras áreas, por meio de cursos de MBA, pós-graduação, para engenheiros, arquitetos, além de habilitação para mestres de obras e operadores. “Por enquanto, estamos conseguindo vencer os desafios de superar essas questões e entregar as obras no prazo. Tem muita gente vinda do Nordeste, de outras regiões do estado, que passam por uma capacitação interna para trabalharem no setor”, completa.  Mas, segundo ele, é preciso ficar atento, pois a falta de pessoal de uma forma bastante acentuada está à espreita e pode causar grandes problemas.

    Na visão da coordenadora de desenvolvimento da Fiep, Claudia Lacerda Martins, todas as áreas passam por esses problemas. “O fato de pessoas virem de outras regiões do país para trabalhar na construção civil causa impactos na qualidade de vida dos municípios, pela ausência de estrutura para suportar a migração, e também pela cultura diferenciada.”
     
    Fóruns de discussão
    Dados da Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social do Paraná indicam que muitas das vagas de emprego oferecidas pelo Sine não são preenchidas por um nível de exigência grande, como carga horária elevada e turnos aos sábados, domingos e feriados, além da baixa remuneração. Os principais problemas estão na indústria, em áreas como a construção civil e produção. Recentemente, a Fiep realizou um Fórum Setorial com representantes das indústrias de bebidas, e a falta de trabalhadores especializados foi apontada como entrave para a evolução do setor.

    O Paraná tem 116 indústrias na área, que empregam cerca de 5,5 mil trabalhadores, número insuficiente para acompanhar o constante crescimento do setor. Uma das soluções discutidas no encontro seria a inclusão social com a contratação de portadores de deficiência, o que poderia resolver simultaneamente dois problemas sociais.

    O presidente do Sindicato das Indústrias de Bebidas do Estado do Paraná (Sindibebidas-PR), Nilo Cini Junior, ressalta a importância da realização dos fóruns setoriais da Fiep para discutir assuntos como a mão de obra. “Quando questões setoriais são discutidas numa entidade que abriga micro, pequenas, médias e, também, grandes empresas, identificamos que as questões são diversas. Com isso, podemos priorizar ações, não só pelo peso de participação da empresa no mercado, mas pela demanda de necessidades do setor”, afirma. Ele ressalta, ainda, a possibilidade de parcerias para realização de cursos. “Para o setor, não desenvolvemos nenhum tipo de treinamento específico, o que até pode ser organizado se tiver demanda de empresas do setor. Geralmente utilizamos cursos que o Senai tem disponível no seu planejamento de trabalho”, diz.

    Investimento em treinamento
    Nilo afirma que as áreas do setor de bebidas que mais necessitam de qualificação são logística, tecnologia da informação, qualidade e manutenção industrial. Ele explica que não é apenas a carência de mão de obra que prejudica o desenvolvimento dessa indústria. “Não só a falta de profissionais, mas também os altos índices de turnover vêm afetando o desempenho, pois para se atingir níveis de performance adequados é necessário ter bons profissionais dentro e fora da empresa, e o investimento em treinamento e formação de mão de obra é muito grande. Perde-se muito tempo treinando um profissional que por um motivo ou outro acaba indo para o mercado novamente.” O Sindibebidas planeja ações para o futuro para poder equilibrar a demanda de vagas com profissionais qualificados. “O que o sindicato pode fazer é promover um estudo no setor, de demandas de necessidades de qualificação e em conjunto das empresas e entidades de ensino, promover e facilitar a criação de treinamentos mais direcionados para atender à demanda. Um problema que o setor enfrenta é a sazonalidade, que no Sul do país é maior, dificultando a contratação de profissionais nas épocas de maior demanda”, complementa.

    A área de TI também sofre…
    O setor de Tecnologia da Informação, a exemplo dos já citados, também se desenvolve com mais rapidez do que a formação de profissionais. Segundo o Índice Brasscom de Convergência Digital (IBCD), apresentado pela Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), apenas 85 mil estudantes terminam os cursos superiores de educação tecnológica. O número representa em torno de 18% das mais de 460 mil vagas disponíveis na área. Com a evasão, que chega a 82%, 2011 terá um déficit de quase 92 mil profissionais, de acordo com projeções do Observatório Softex. Esse setor revela-se como um dos mais promissores para a população jovem que está ingressando no mercado. Até 2020, existe a expectativa de aumentar em 50% o peso referente ao setor de Tecnologia da Informação no Produto Interno Bruto (PIB).

    Segundo a secretária de informática e assuntos profissionais do Sindicato dos Trabalhadores de Informática e Tecnologia da Informação do Paraná (SINDPD-PR)
    Valquíria Lizete da Silva, para promover a qualificação de profissionais, como reflexo da grande evasão, o sindicato passou a promover aulas de capacitação diretamente com as empresas. “A grande dificuldade é a falta de mão de obra qualificada. Existem muitas empresas terceirizadas que pagam um salário muito baixo para profissionais de TI. Os problemas ocorrem porque a profissão não é reconhecida, ainda não foi regulamentada pelo Ministério do Trabalho”, esclarece. Ela acredita que o grande problema está com as empresas particulares, que realizam pregões com empresas terceirizadas e optam por mão de obra barata.

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