Gestão

Jovens demais para se aposentar

Fabíola Tarapanoff
22 de junho de 2009
Maria Gisella, da Pizza Hut: contratada em 2002, recentemente foi promovida de atendente a supevisora. (Fotos: Gustavo Morita)

Com o passar dos anos, meus filhos se casaram e começaram a seguir o seu próprio caminho. Minha vida tornou-se vazia, tranquila demais.” Aposentada desde os 40 anos, a pedagoga Maria Gisella Puglisi não via perspectivas para o seu futuro. “Minha filha, ao saber da minha vontade de trabalhar, viu um anúncio das vagas que a Pizza Hut São Paulo tinha aberto para a melhor idade e enviou um currículo meu”, conta. Ela foi chamada para o processo seletivo e contratada como atendente em 2002. Hoje, aos 70 anos, foi promovida a supervisora e verifica o atendimento, recepciona clientes e delega funções. “Esse trabalho é muito importante, pois me sinto viva e integrada. Fico sabendo o que anda ocorrendo no mundo, principalmente entre os jovens”, conta animada.

Maria faz parte de um grupo que não para de crescer: o de pessoas da terceira idade que continuam a trabalhar ou que voltam ao mercado de trabalho após a aposentadoria. Isso também é um reflexo do envelhecimento da população mundial. De acordo com relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial aumentará em 2,5 bilhões de habitantes nos próximos 42 anos, passando dos atuais 6,7 bilhões para 9,2 bilhões em 2050. Até 2050, os idosos representarão 21% dessa população, excedendo pela primeira vez o número de jovens na história da humanidade.

Segundo a coordenadora de pesquisa da área de populações e cidadania do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ana Amélia Camarano, ainda é difícil prever quais mudanças sócioeconômicas ocorrerão com esse aumento do pessoal da terceira idade em todo o mundo. “O que se sabe é que as pessoas estão vivendo mais e com melhores condições de saúde, devido aos avanços da medicina”, diz. Por outro lado, ela explica que a população jovem está diminuindo, pois estão nascendo menos pessoas. Como haverá mais idosos e o número de jovens é cada vez menor, Ana alerta que será necessária uma reforma abrangente da previdência social.

A coordenadora acredita que devido a esse motivo muitas empresas estão contratando pessoas mais idosas. “O office-idoso está ocupando o lugar do office-boy. Como ele possui benefícios como vale-transporte gratuito do governo e atendimento especial em bancos, a empresa possui um funcionário que não tem a agilidade do jovem, mas representa menos gastos”, completa.

Mayra Fragiacomo, consultora de carreira da Thomas Case & Associados, divisão de assessoria personalizada para recolocação profissional da Catho Consultoria em Recursos Humanos, acredita também que o envelhecimento da população terá um forte impacto no sistema previdenciário.”Se não forem feitas mudanças nesse sistema, haverá um colapso. Isso é um problema mundial e não apenas brasileiro, por isso a solução é manter as pessoas trabalhando por mais tempo”, explica.

Inclusive na Europa não se fala mais em terceira idade, mas sim em quarta idade. “Os idosos têm alcançado idades superiores e foi criada uma nova nomenclatura etária, já que a terceira idade está englobando pessoas com 50 a 90 anos e os centenários, ficando abrangente demais”, analisa. Por isso, ela acredita que mudará a visão que as pessoas possuem sobre os idosos, pois continuarão economicamente ativos, já que as companhias serão obrigadas a criar programas para profissionais mais experientes, incentivando os mesmos a continuarem nas organizações.

Além disso, ela acredita que haverá modificações no sistema de saúde, no aumento do consumo e de novos negócios desenvolvidos para esse público e mudanças políticas, pois essa faixa etária representará um grande contingente eleitoral e fará diferença nas urnas.

Também a composição da renda familiar será mais garantida pelas pessoas de terceira idade e haverá uma maior preparação para o processo de envelhecimento.

Na opinião de Mayra, os profissionais com mais de 60 anos possuem como características positivas: experiência; excelente nível cultural; são bons ouvintes; têm habilidade para resolver problemas; e apresentam menor possibilidade de trocar de emprego. “Por essas características, acredito que as áreas que abrigam tarefas que esses profissionais exercem com maior facilidade são comercial, RH, projetos e finanças – preferencialmente em cargos gerenciais”, analisa. Mayra diz que a própria Thomas Case & Associados aposta no potencial dos profissionais maduros, oferecendo um serviço específico de assessoria, com o intuito de desenvolvimento de negócio próprio e pós-carreira. “É um produto que está sendo sofisticado para atingir as necessidades desses profissionais com mais foco e assertividade”, completa.

Aposta na experiência
Justamente devido a esses fatores, muitas empresas estão contratando cada vez mais pessoas com mais de 60 anos. Pioneiro, o Pão de Açúcar criou o primeiro projeto voltado à contratação de pessoas de terceira idade no Brasil em 1997. Segundo a gestora de RH da empresa, Vandreia Oliveira, tudo começou quando um gerente da loja viu um senhor que ia todos os dias ao local ajudar os clientes a fazer compras, acompanhando-os até o táxi. “Esse gerente fez um contato com o RH e iniciamos um piloto com a contratação de alguns profissionais para a função de empacotador. Esse senhor foi contratado pela companhia e trabalhou conosco por 10 anos, solicitando desligamento depois por motivos pessoais”, relata.

Vandreia explica que o processo de seleção dos funcionários de terceira idade é igual ao dos demais candidatos, sendo realizada uma dinâmica de grupo e uma entrevista individual com o gestor da loja que irá recebê-lo. Os benefícios são iguais aos dos colaboradores de outras faixas etárias e a maioria é contratada para funções como de empacotador. Hoje, cerca de mil profissionais dessa faixa etária fazem parte desse programa em toda a rede.

A executiva diz que o trabalho desenvolvido por esses profissionais é realizado com muita qualidade, comprometimento e responsabilidade. “A maior parte deles se mostra satisfeita por ter retornado à vida profissional. Eles dizem que a empresa abriu portas num momento em que já estavam aposentados e tinham filhos e netos criados. Explicavam que precisavam de dinheiro para complementar a sua pequena aposentadoria e queriam voltar a se sentir úteis”, comenta.

Maria, do Santander: há clientes que referem o atendimento de uma pessoa mais madura, pois sentem mais confiança e respeito

Ela ressalta que, de um modo geral, os funcionários mais idosos são muito bem-recebidos em suas equipes de trabalho. Na opinião da gestora, a diversidade numa organização gera equipes mais completas e capazes de lidar com o novo. “O mercado está mais aberto, mas ainda há resistência devido a uma questão cultural, pois por muito tempo em nosso país a pessoa trabalhava uma vida inteira esperando o momento de se aposentar e aproveitá-lo com a família. Hoje, as companhias vão ter de rever esse posicionamento e será mais comum contratar pessoas dessa faixa etária, assim como talvez ocorra uma permanência de pessoas que trabalham na empresa por mais tempo”, avalia.

O Banco Real, integrante do Grupo Santander Brasil, também investe no talento das pessoas mais experientes. Prova disso é o Projeto Sênior, voltado para pessoas com idade acima de 45 anos. De acordo com Maria Cristina Carvalho, superintendente-executiva de RH do Grupo Santander Brasil, trata-se de um programa presente apenas no Banco Real e com ênfase nos profissionais com dificuldades de recolocação no mercado de trabalho.

A superintendente ressalta que todos os contratados passaram por cursos de capacitação e os gestores foram preparados por meio de workshops específicos para a contratação e gestão desse público. O processo seletivo é feito com base no perfil profissional, considerando também a capacidade de oferecer um bom atendimento, o alinhamento com os valores da organização e a disposição para aprender. Maria diz que as pessoas da terceira idade são contratadas principalmente para a função de atendente, sendo responsáveis pelas orientações básicas sobre produtos e serviços. Atualmente, 99 profissionais integram esse projeto. São oferecidos aos funcionários assistência médica e odontológica, seguro de vida opcional, plano previdenciário, vale-refeição, vale-transporte, auxílio creche-babá. Além disso, os contratados participam do programa Agência Escola, no qual tomam contato com as atividades básicas de uma agência. “O pesal sênior demonstra boa adaptabilidade. Há, inclusive, clientes que preferem o atendimento de uma pessoa mais madura, justificando que sentem mais confiança e respeito”, comenta.

Maria ressalta que a integração com os outros funcionários tem sido positiva e que desde que o grupo sênior foi criado, formado por funcionários com mais de 45 anos e que se reúnem mensalmente na empresa, um dos temas mais discutidos foi a aproximação com os grupos mais jovens. “Surgiu, então, o projeto Eterno Aprendiz, no qual os funcionários mais velhos disponibilizam parte de seu tempo para capacitar os mais jovens. Assim, ocorre uma aproximação natural desses dois grupos. A experiência tem se mostrado enriquecedora para todos, garantindo um ambiente mais inclusivo e equipes mais fortes”, comemora.

Para a superintendente-executiva, o preconceito diminuiu, mas ainda existe. “É da cultura ocidental achar que a idade é sinônimo de conhecimento ultrapassado. Em muitos países, começa a aparecer um movimento contrário ao apregoado pela revolução da informática, quando as companhias passaram a valorizar os jovens. Hoje, muitas organizações perceberam que os aspectos garantidos pela maturidade são também importantes e aumentou a procura por profissionais mais experientes”, analisa.

Começar de novo
Outra empresa que se destaca na contratação de pessoas de terceira idade é a Pizza Hut São Paulo, que criou o projeto Melhor Idade em 2003, com o objetivo de proporcionar às pessoas com mais de 60 anos a possibilidade de continuarem ativas profissional e socialmente. A filosofia da empresa é que um dos fatores mais importantes para a manutenção da qualidade de vida é a saúde mental. Mas, para que isso ocorra, é preciso que o ser humano se mantenha ativo, sentindo-se útil e produtivo. Hoje, a Pizza Hut São Paulo investe 300 mil reais em projetos sociais e toda a equipe passa por um treinamento teórico, prático e de adaptação.

A seleção dos candidatos de terceira idade é igual à de qualquer outro colaborador: entrevista e dinâmica com o RH, avaliação dos gerentes dos restaurantes e análise de perfil. Geralmente, os idosos são contratados para exercer funções próximas aos clientes, como atendimento e host, devido ao seu carisma, desenvoltura e senso de responsabilidade. Um programa que utiliza muito funcionários de terceira idade é o Hospitalidade em Atividade, focado no atendimento mais sênior no salão do restaurante, buscando acompanhar o cliente e medir o seu nível de satisfação.

A tática deu certo: o grau de receptividade dos clientes tem sido impressionante. Entre os benefícios oferecidos aos profissionais da rede de restaurantes estão: cesta básica, assistência médica, vale-transporte e refeição no restaurante. O salário é compatível com o do mercado e a carga horária é de no máximo 6 horas por dia.

Exemplo de profissional feliz por ter retornado ao mercado de trabalho é Maria Gisella Puglisi. Aos 40 anos ela se aposentou, pois tinha de cuidar dos três filhos, da mãe e do marido. Contratada em 2002, recentemente foi promovida de atendente a supervisora. “Eles sempre dizem que eu ajudo bastante e que minha participação é essencial. Pretendo continuar na Pizza Hut São Paulo até quando eu aguentar trabalhar”, completa rindo.

Na opinião dela, o mais interessante em seu trabalho é a integração com os funcionários mais jovens. “Eles possuem mais facilidade no uso de novas tecnologias, mas não têm a experiência dos mais velhos. Por isso, essa troca de experiências é importante, pois um contribui com o outro”, conclui.

Talento não tem idade

Com as pernas tremendo, a cantora Henriette Maria Fraissat (foto acima) subiu ao palco do Chevrolet Hall, em Recife (PE), para receber o seu prêmio. Emocionada, em vez de ler um discurso, apenas cantou o trecho de uma música que ela mesma compôs: “Nessas voltas da vida é importante que haja vida nas voltas que esse mundo dá”. Henriette não é uma novata, mas uma mulher com 61 anos, ganhadora na categoria Música Vocal da 10º edição do Concurso Banco Real Talentos da Maturidade, organizado em 2008 pelo Banco Real, integrante do Grupo Santander Brasil.

Segundo José Domingos Velletri Filho, gerente- executivo da área de eventos do Grupo Santander Brasil, o prêmio foi criado em 1999 para estimular a reflexão sobre o envelhecimento, incentivar o protagonismo de pessoas da terceira idade e apoiar o desenvolvimento de projetos que busquem melhorar a qualidade de vida e a integração do idoso na sociedade. Para participar do prêmio, é preciso ter 60 anos ou mais – clientes e não clientes – e não precisa ser profissional. Podem participar, ainda, instituições de idosos ou que possuem trabalho em prol da terceira idade como prefeituras e centros culturais. A média de idade é de 65 anos.

Em 2009, a premiação está dividida em quatro categorias: Artes Plásticas; Literatura; Música Vocal; e Programas Exemplares. O executivo explica que o perfil dos participantes é bem variado. “Há muitas pessoas que sempre tiveram vontade de desenvolver o seu lado artístico, mas nunca tiveram tempo e, agora, vivenciam a fase de aposentadoria como uma oportunidade para perseguir os sonhos”.

Até hoje, a comissão organizadora já premiou 238 pessoas, uma média de 20 ganhadores por ano. Na edição de 2009, serão 15 premiados nas categorias artísticas e mais os ganhadores na categoria Programas Exemplares, que são escolhidos segundo os projetos enviados. Os critérios de seleção variam de acordo com cada categoria, levando em conta a criatividade e a originalidade.

Para a consultora do concurso, Laura Machado, o idoso vem sendo tratado há décadas de forma preconceituosa e só ações como o prêmio do Banco Real e a criação do Estatuto do Idoso em 2003 têm contribuído para a construção de uma sociedade mais inclusiva. “Essas ações ajudam a construir uma sociedade que respeita e valoriza os idosos. Organizações internacionais vinculadas às Nações Unidas vêm produzindo recomendações desde a II Assembleia Mundial da ONU sobre o Envelhecimento em Madri em 2002, quando o relatório final reforçou a visão de que o idoso não é um peso para a sociedade e sim que tem seu papel de contribuição para o desenvolvimento”, analisa.

Prova de que o prêmio pode mudar a vida de uma pessoa é o caso de Henriette. Desde que ganhou o concurso, ela faz um show atrás do outro, para prefeituras de cidades como Moji das Cruzes, onde reside, São José dos Campos e São Paulo. “Canto desde menina, mas parei durante quase 40 anos. Desde 1999 voltei a cantar como hobby. Mas há quatro anos venho ganhando um dinheirinho aqui, outro ali, e agora trabalho direto: participo de eventos, em restaurantes e clubes. Tem sido um ritmo cansativo, até alucinante”, comemora.

Mais informações sobre o Concurso Banco Real Talentos da Maturidade: www.bancoreal.com.br/talentos

Compartilhe nas redes sociais!

Enviar por e-mail