Lacuna a ser preenchida

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Martin Hall / Crédito: Divulgação
Martin Hall, reitor e líder estratégico da Britânica Universidade de Salford / Crédito: Divulgação 

O mercado de pós-graduação brasileiro continuará crescendo não obstante a desaceleração da economia do país e as incertezas do mercado em nível mundial. A avaliação é de Martin Hall, reitor e líder estratégico da britânica Universidade de Salford. Pelo programa Ciência Sem Fronteiras, que contempla estudos na área de ciência e tecnologia, desde 2012, 80 alunos brasileiros já frequentaram a universidade e havia a previsão de, em setembro, outros 70 alunos do mesmo programa serem recebidos pela instituição. Em uma visita ao Brasil no fim de julho, o arqueólogo graduado e pós-graduado em Cambridge contou à MELHOR que ainda há uma grande lacuna a ser preenchida entre a realidade do mercado e o que se ensina nas universidades, não somente na Inglaterra e no Brasil, mas no mundo todo. “Enquanto que o conteúdo clássico e teórico de cursos de pós-graduação é e será sempre importante, existe uma necessidade premente de alinhamento e atualização, entre negócios e indústria, com o conteúdo programático desses cursos. É necessário estabelecer novos desafios para que o aluno esteja ciente sobre a realidade do mercado em que vai atuar”, diz.

Como o senhor avalia o mercado de pós-graduação no Brasil? Comparado com o inglês, quais as mudanças que o senhor percebe?
O Brasil é um país muito jovem. A porcentagem de brasileiros com menos de 30 anos é bem mais alta se comparada com a dos britânicos nessa mesma faixa etária. Isso, combinado com um intenso crescimento econômico dos últimos dez anos (mesmo que esse crescimento, agora, esteja mais lento) e com o tamanho da população brasileira, está colaborando para uma rápida expansão do ensino superior em geral, principalmente nos cursos de pós-graduação. Além disso, o Brasil tem vivenciado uma expansão de universidades privadas bem maior que o Reino Unido. O fato de as universidades públicas no Brasil terem uma altíssima reputação faz com que os graduados em universidades particulares busquem cursos de pós-graduação altamente qualificados para poderem competir no mercado, em pé de igualdade com profissionais formados nas instituições públicas. Desse modo, eu acredito que o mercado de pós-gradução brasileiro continuará crescendo não obstante a desaceleração da economia do país e as incertezas do mercado em nível mundial.

Em sua opinião, há um descolamento entre o conteúdo desses cursos e o que o mercado necessita?
Sim, acredito que há uma grande lacuna a ser preenchida entre a realidade do mercado e o que se ensina nas universidades, não somente na Inglaterra e no Brasil, mas no mundo todo. Enquanto que o conteúdo clássico e teórico de cursos de pós-graduação é e será sempre importante, existe uma necessidade premente de alinhamento e atualização, entre negócios e indústria, com o conteúdo programático desses cursos. É necessário estabelecer novos desafios para que o aluno esteja ciente sobre a realidade do mercado em que vai atuar. Por exemplo, profissionais da área da saúde  mais e mais necessitam de qualificações administrativas e, no que se refere às mudanças climáticas, é necessário o ensino de políticas públicas também, além do clássico de ciências biológicas; quando se fala de epidemiologia não se pode ignorar a necessidade de alinhamento desse assunto com administração de informação digital. Além disso, a crescente sofisticação e disponibilidade para aprender on-line exige  maior qualidade e eficiência dos conteúdos programáticos de pós-graduação, assim como modelos de ensino que possibilitem ao estudante aprender mesmo a distância, com menos aulas presenciais. Na Universidade de Salford, nós somos especialistas em oferecer esses modelos de estudo de pós-graduação mais flexíveis. Recentemente, lançamos um escritório na cidade de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, para servir melhor nossos parceiros. Minha visita ao Brasil nesse momento tem o mesmo objetivo de levantar necessidades do mercado local para oferecer cursos em áreas em que temos grande experiência.
 
Em sua opinião, há um certo modismo ou obrigação em fazer uma pós?
Eu não vejo um diploma de pós-graduação como um modismo, contudo há aqueles que o veem assim. Na Universidade de Salford nós temos uma visão mais realista sobre esse assunto, isto é, vemos a educação como um meio de potencializar as habilidades do aluno e/ou profissional e permitir que o mundo dos negócios, a indústria e o setor público possam contratar os melhores profissionais, que saibam lidar com as crescentes complexidades do mundo do trabalho. O Brasil tem uma economia forte, considerada uma das maiores potências globais do século 21. Como um país que ocupa uma posição do gênero, vocês não podem se dar ao luxo de não ter um grande número de profissionais altamente qualificados.

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Como medir a contribuição de um curso como esse na carreira de um profissional?
De duas maneiras. Em primeiro lugar, há diversos dados que comprovam que profissionais mais qualificados ganham mais ao longo da vida e, assim, possuem um padrão de vida mais elevado, melhor acesso à saúde e alto nível de satisfação. A outra forma de medir essa contribuição é avaliar as portas que se abriram. Em muitas áreas esse tipo de curso é essencial. Em outras, a pós-graduação não é obrigatória, mas tal investimento compensa, mesmo no início da carreira, porque oferece uma vantagem competitiva que é a chave para novas oportunidades de trabalho.

E no caso de uma empresa, como esses cursos podem ajudar em termos de negócios? Qual seria a fórmula desse ROI?
Hoje em dia, muitas empresas possuem uma “estratégia de pessoal” que reconhece a vital importância de atrair e manter colaboradores talentosos. No Brasil, onde a economia é dominada pelo setor industrial e de serviços, os quais dependem da alta qualificação, inovação e pensamento crítico, investir em profissionais pós-graduados compensa imediatamente em nível de rotina diária de trabalho. Mas compensará, ainda mais, no longo prazo, em termos de vantagem competitiva e aumento de market share.

Pensando em termos de país, como esses cursos contribuem para o fortalecimento de uma economia? E no caso do Brasil, o que falta para os cursos oferecidos por aqui, ou dos quais os brasileiros participam, darem essa contribuição?
Bem, eu estou aqui para aprender e não para ensinar. O Brasil é um país enorme, complexo e fascinante e nós estamos interessados em construir parcerias de longo prazo por meio de informação, inteligência e confiança. Uma vez que entendermos melhor as dinâmicas locais, poderemos definir como será o nosso trabalho com parceiros locais  visando oferecer a melhor contribuição nas áreas de nossa expertise.

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