Lição de casa

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    O jogo de acusações sobre quem são os verdadeiros culpados pelo maior desastre financeiro mundial ocorrido em décadas colocou, recentemente, o dedo em riste nos programas das badaladas escolas de negócios.

    Gestores e professores de escolas do mundo inteiro passaram a enfrentar um debate público sobre a parcela de responsabilidade que possuem na formação de inescrupulosos diplomados em MBAs que contribuíram para o colapso da economia.

    No país que deu forma aos cursos de Masters of Business Administration, o assunto ganhou prioridade na agenda da educação executiva e destaque em publicações importantes da imprensa americana, como o New York Times e o Business Week.

    As próprias escolas de negócio repercutem a polêmica. A página da escola de Harvard, por exemplo, criou um fórum de discussão em sua publicação online. Até meados de abril, o site exibia 30 artigos de especialistas do setor. Para cada um, havia uma média de 20 comentários.

    Entre os modelos de graduados em MBAs que agiram de maneira antiética e que são exibidos pelos veículos, aparecem o caso dos agraciados pelos bônus da AIG e nomes de executivos como o de Rick Wagoner, presidente da General Motors (GM), que deixou a montadora criticado por sua gestão; Stanley O´Neal, afastado da presidência do conselho administrativo da Merril Lynch em função dos prejuízos causados para o banco; John Train, presidente do Bank of America, demitido também por má atuação e depois de notícias de que teria gastado mais de um milhão de dólares para decorar seu escritório; Henry Paulson, secretário do Tesouro do governo Bush, e desfavorável à regulação de Wall Street.

    Chamadas para explicar sua responsabilidade na educação dos executivos, as escolas não negam sua parcela de culpa, mas recusam ser incriminadas pela totalidade da tragédia. “Os críticos querem empurrar a causa da situação econômica atual para uma só fonte. Mas o desastre do mercado financeiro mundial é um reflexo de políticas e ações de múltiplas indústrias. Dessa forma, com a integração de nossa economia global, fica difícil atribuir todos os problemas a um só motivo”, afirma John J. Fernandes, presidente da Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB), uma organização internacional que atua como uma das principais certificadoras de qualidade das escolas de negócio.

    Rick Wagoner, ex-GM: críticas à gestão dele na empresa (Foto: Tannen Maury/epa/Corbis)

    O consenso da discussão é que a crise econômica deve provocar uma onda de mudanças nos programas das escolas e MBAs. Para o executivo-chefe da AACSB, a mentalidade da pressão por ganhos empresariais no curto prazo – que leva a “falhas na tomada de decisão” – será substituída pela concepção de que o “futuro do negócio estará nas mãos de dirigentes preocupados com o crescimento sustentável, baseado em princípios éticos”. Mas, essa não é uma missão apenas da educação executiva. “As empresas devem reforçar a ética ensinada na academia, bem como fornecer uma estrutura de apoio que incentive e facilite a tomada de decisões éticas”, diz Fernandes.

    “As escolas de negócios já estão mudando, questionando seu papel na sociedade e revisando sua abordagem na educação executiva”, afirma Ángel Cabrera, Ph.D. e presidente da escola de gestão global Thunderbird, com sede no estado do Arizona, eleita pela Financial Times e pela U.S News & World Report, a instituição de ensino número 1 em negócios internacionais.

    Em 2007, Cabrera presidiu uma força-tarefa internacional, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), para escrever os Príncipios para a Educação Empresarial Responsável. O documento provocou um movimento mundial, com importantes parcerias, entre elas a AACSB, para encorajar as escolas de negócios a assumir os princípios. “Até hoje, mais de 200 escolas assinaram o documento. E isso me dá uma grande esperança”, diz o presidente da Thunderbird.

    Segundo Cabrera, as escolas não podem ser totalmente culpadas pela tragédia financeira. Mas o que é claro, na opinião dele, é que as instituições não ajudaram a evitar a desagregação mundial dos sistemas financeiros. “Quando se olha para as teorias e valores de muitos dos presidentes dos bancos falidos, e seus principais executivos, com MBAs, percebe-se que alguns líderes empresariais estão dispostos a justificar tudo por meio da pretensão de satisfazer os interesses dos acionistas, mesmo que isso signifique assumir riscos de consequências sociais devastadoras”.

    Para a professora da escola de negócios de Columbia, com sede em Nova York, Rita Gunther McGrath, as mudanças no cenário econômico geradas a partir dos anos 80 – entre elas, a maior influência das instituições financeiras na economia, a troca de comando das grandes companhias para as empresas de capital aberto, a pouca regulação do mercado -, contribuíram para um perfil executivo mais propenso a priorizar seus próprios ganhos pessoais.

    Na opinião de Rita, as escolas de negócios foram beneficiárias desse modelo. Os famosos rankings, como o da Business Week, segundo ela, passaram a adotar critérios que privilegiavam as instituições com maior número de ex-alunos em postos lucrativos.”Então, a mensagem para os alunos passou a ser: obtenha seu MBA para trilhar o caminho de Wall Street e fazer sua fortuna”, afirma. “E, por isso, o aumento dos diplomas de MBAs deveu-se ao resultado de forças que, agora, nós sabemos, levariam à crise econômica. Mas não é a única causa da crise”, disse.

    A professora Jeanne Liedtka, de Darden Graduate School of Business, da Universidade de Virgínia, defendeu, em recente artigo, que as escolas de negócios pecaram pela omissão. Para ela, a obsessão dos acionistas, gerada pelo novo ambiente de negócios e de manipulação de números e valores, anulou a capacidade inovadora dos executivos, chave para o sucesso empresarial. “De algum modo, muitos de nós, nas escolas de negócios, falhamos no registro desse estado lastimável. Ou, talvez, decidimos ignorá-lo, uma vez que não havia nada que pudesse ser feito para corrigir o sistema”, afirmou.

    De acordo com Jeanne, as instituições de educação executiva devem atentar para o fato de que essa maneira de fazer negócios “tomou o caminho errado e perdeu de vista a razão fundamental que faz com que as empresas prosperem, a longo prazo: a criação de valor real para pessoas reais”. Segundo o executivo-chefe da AACSB , existem hoje aproximadamente 11.800 escolas de educação executiva no mundo. A associação avalia 567 instituições em 33 países. Ele afirma que algumas escolas possuem em seu currículo cursos separados de ética, enquanto outras integram a educação ética em toda a grade curricular.

    “É difícil provar empiricamente quais abordagens são mais eficazes, mas há um consenso de que a ética não deve ser um assunto pontual que é esquecido ao longo do curso, mas deve permear toda a experiência do aluno na escola”, afirma Fernandes.

    O presidente da Thunderbird defende a necessidade de as instituições incentivarem a criação de uma? estrutura diferente. “Uma nova narrativa que enxergue a gestão de negócios como uma profissão honrada e digna, que atua a serviço do bem maior.” Para ele, as corporações existem porque é a melhor maneira que a modernidade inventou de prover às pessoas produtos e serviços de valor. “Os executivos possuem a única responsabilidade de garantir que esses valores sejam criados para todas as partes envolvidas, e não para alguns em detrimento de outros, e que obedeçam à sustentabilidade e ao compromisso com os direitos das gerações futuras a uma vida próspera”, diz Cabrera.

    A professora da escola de Columbia também acredita em mudanças. “Os incentivos que moldaram os programas de MBA estão em vias de serem radicalmente alterados.” Segundo McGrath, muitos estudantes estão, agora, buscando empregos em ONGs e no governo, posições que não atraíam muitos gestores antes da explosão da crise financeira. “Se as escolas acharem que devem convencer os estudantes de que seus programas vão conduzi-los ao cobiçado emprego no governo ou à liderança em negócios relacionados à ´energia verde´, por exemplo, nós vamos começar a ver que esses temas ganharão prioridade no currículo das instituições de educação executiva”, afirma.

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