Lições brasileiras na bagagem

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Martin /JTP / Opção Brasil Imagens
Programas internacionais de MBA colocam o Brasil como destino, atraindo jovens executivos. Mas será que eles querem voltar para o país de origem?

 O jovem Ryodai Kato ficou horas dentro de um avião, atravessou oceanos. Ele saiu de Nagoya, no Japão, com um destino certo: a capital paulista. O motivo da mudança foi a possibilidade de aprender mais sobre o comportamento do mercado brasileiro e o papel das empresas nesse contexto. Kato fez as malas já com uma vaga de trabalho garantida – ele está no país há um ano e atua como estagiário na Horiba, multinacional japonesa especializada em equipamentos de medição e análise. “Quero entender as estratégias usadas para ser um empreendedor de sucesso e acredito que, no Brasil, há bons exemplos disso”, comenta. Segundo ele, as diferenças entre a gestão de pessoas no Japão e no Brasil são muito grandes. “As pessoas conseguem unir trabalho diário com relações interpessoais. As brincadeiras e o ambiente descontraído são bem interessantes por aqui”, afirma.

Assim como ele, diversos estudantes de pós-graduação ou MBA saem de seus países de origem para dar continuidade aos estudos, trabalhar ou apenas fazer visitas técnicas a empresas brasileiras. A economia nacional é um dos principais atrativos, já que não foi afetada de maneira intensa pela crise mundial que vem consumindo os EUA e países da Europa.

Grupos mistos
Essa prática costuma fazer parte de programas de intercâmbio criados por universidades nacionais e internacionais, que muitas vezes firmam parcerias com companhias de diferentes setores. O Iese Business School, escola internacional com campus na capital paulista, é um exemplo. A instituição organiza grupos de estudantes de diferentes nacionalidades e incentiva visitas, encontros e reuniões com líderes das maiores empresas no Brasil. “Esse tipo de atividade é cada vez mais frequente. Os alunos são atraídos pela possibilidade de desenvolver uma rede de contatos local e adquirir conhecimentos mais profundos sobre o mercado”, afirma Diogo Zanata, professor do departamento de gestão de pessoas do ISE Business School, escola de negócios parceira do Iese no Brasil.  Trocar conhecimentos e mostrar o funcionamento da empresa foram os principais objetivos da Suzano Papel e Celulose ao receber, em setembro deste ano, 42 alunos de intercâmbio do curso de mestrado em gestão internacional, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Estudantes de diferentes nacionalidades visitaram as instalações da companhia e acompanharam de perto o processo de reciclagem de embalagens longa vida. De acordo com a área de RH da empresa, o projeto atraiu a atenção da instituição de ensino por seu caráter inovador, sustentável e social.

Troca de conhecimentos
Visitas técnicas como essa geralmente estão inseridas nas programações dos cursos e são ferramentas importantes no processo de aprendizagem. Segundo Zanata, essa atividade deve ser programada com critério e de acordo com as necessidades dos alunos. “Procuramos conhecer os candidatos previamente, analisando a ficha de interesse e suas expectativas de formação. Nesse sentido, facilitamos o acesso a mais informações que sejam relevantes para cada um”, comenta. Durante o período de experiência no mercado brasileiro, os estudantes detectam diferenças e particularidades do que se pratica em termos de gestão de pessoas por aqui. “O diferencial é o fato de o Brasil ser um país em desenvolvimento. Mostramos as dimensões do nosso mercado em expansão, juntamente com as diferenças regionais tão importantes na atuação empresarial”, afirma. Os resultados, para o professor, não poderiam ser melhores. “Eles demonstram total integração com os participantes locais e, nesse sentido, o perfil do brasileiro facilita que se sintam à vontade e acolhidos”, explica Zanata.

Formar líderes com habilidades de gestão é o principal objetivo de instituições que apostam em programas de intercâmbio e na troca de conhecimentos entre diferentes nações. Para a diretora, programas dessa natureza são benéficos para o Brasil, pois mostram a outras nações que o país forma grandes executivos. “Esse mérito é fruto do trabalho feito por eficientes equipes de gestão de pessoas, que atuam para treinar profissionais flexíveis e com alta capacidade de adaptação, características respeitadas e admiradas em todo o mundo”, comenta. Tais quesitos chamaram a atenção da estudante Eva Girod, de 23 anos, que veio da França para realizar o mestrado em gestão internacional pelo programa de intercâmbio da FGV. Atualmente, ela trabalha em uma consultoria financeira e ficou surpresa com o ambiente encontrado na empresa. “O clima é muito agradável. A preocupação com a qualidade de vida do funcionário é grande, bem como o cuidado em me receber bem”, conta. No entanto, ela também acredita que há características que devem ser melhoradas. “É preciso incentivar mais os estudos dentro das companhias. Percebo que o brasileiro costuma arcar com todas as despesas dos cursos, o que não acontece em meu país”, ressalta.

Fernando Nakazato deixou a Argentina e decidiu vir para o Brasil para trabalhar e estudar. Atualmente, ele integra o quadro de funcionários de uma companhia brasileira de capitais argentinos e está matriculado em um dos cursos voltados a empresários que buscam aprofundar e atualizar seus conhecimentos em gestão e liderança do Iese. “As políticas de estado, os programas de crescimento e a iniciativa privada do Brasil contribuíram amplamente para a minha escolha”, diz. A estrutura oferecida pelas empresas também chamou a atenção de Nakazato. “As empresas têm mantido cada vez mais o foco em oferecer políticas atraentes de gestão de pessoas, além de criarem ambientes de trabalho competitivos e saudáveis, como elemento necessário para atrair e reter talentos”, aponta. Segundo ele, ao terminar esse ciclo, levará na bagagem mais experiência e conhecimentos de mercado.

Brasil em foco
A boa fase da economia brasileira foi o que chamou a atenção do executivo chileno Cristian Guillermo Palma Weinstein, no país há apenas três meses. “A nação tem conquistado cada vez mais importância no contexto mundial”, afirma. Seus objetivos durante os 20 meses do curso de MBA que está fazendo são dominar o português, compreender as dinâmicas dos negócios locais e formar uma rede de contatos. “A experiência tem sido muito gratificante, pois os alunos do grupo têm idades e nacionalidades diferentes, além de exercerem atividades profissionais bastante enriquecedoras”, conta. De acordo com ele, o modelo de negócios no Brasil se destaca pelas boas relações humanas. “Os empresários conseguem obter êxito em dar andamento às atividades graças à boa comunicação que existe entre todas as partes”, comenta. O italiano Vincenzo Prudentino, que estuda e trabalha no Brasil desde agosto de 2011, concorda com o chileno. A principal diferença encontrada por ele durante esse período é a capacidade que o brasileiro tem em relação à resolução de problemas. “Eles não se desesperam, agem com calma e sabedoria”, afirma. O italiano estagia seis horas diárias em uma multinacional e está prestes a finalizar seu curso de mestrado pelo programa de intercâmbio oferecido pela FGV, que irá lhe garantir diplomação dupla. “Na Itália, concluímos os estudos e vamos direto fazer algum curso de pós. Não trabalhamos nesse meio tempo. Aqui, é difícil competir com jovens da mesma idade, pois eles têm muito mais experiências profissionais do que eu”, observa.

Melhor - Gestão de pessoas


Programa de RH
Aprender com equilíbrio entre conteúdo, reflexão e experimentação. Essa é uma das preocupações do programa de desenvolvimento de líderes de RH lançado pela ABRH-Nacional em parceria com o Great Place to Work e a Ânima Educação. De acordo com Luiz Edmundo Rosa, diretor de educação da associação, o curso vai se voltar para as questões estratégicas e decisivas para o sucesso do trabalho de RH, sempre estimulando inovar, criar valor e gerar resultados sustentáveis.

Destinado aos profissionais de recursos humanos em posição de liderança ou que estejam se preparando para ocupá-la, o  programa tem como diferencial o pragmatismo. “Em vez de contar só com professores profissionais, terá uma equipe de destacados profissionais que vão atuar como facilitadores. Além disso, vai se inspirar nas melhores práticas de gestão de pessoas do Brasil e no mundo”, diz. “Precisamos saber lidar com as novas gerações, com as inovações, tecnologias e competências. Os consumidores estão mais exigentes e este ambiente só nos convida para mudar e criar um Novo RH”, afirma Edmundo Rosa.


Vai ou fica?
A francesa Eva Girod está no Brasil há quatro meses e não pensa em voltar para o seu país de origem. “Só tive impressões positivas. Gostaria de ficar aqui, pois o mercado brasileiro é repleto de oportunidades. Profissionais com boa formação conseguem chances interessantes, basta querer”, diz. Essas oportunidades e a possibilidade de consolidação no mercado nacional fizeram com o italiano Vincenzo tomar a mesma decisão: ficar no país. “As pessoas se relacionam de forma transparente e enxergam a vida com muito otimismo, o que é importante e torna o trabalho mais simples e produtivo”, afirma.

Ryodai Kato também aprovou sua experiência de estágio e, quando encerrar esse ciclo, pensa em voltar. “O Brasil é revigorante, sem dúvida um importante país para fazer negócios e exercitar essa experiência multicultural adquirida”, comenta o jovem de Nagoya.  Foi exatamente essa característica que chamou a atenção do chileno Cristian, que pensa em atuar no Brasil depois de encerrar o curso de MBA. “Seria uma experiência muito rica. A complexidade profissional dos temas e a possibilidade de estar em um mercado de escala mundial tornam tudo mais atraente”, ressalta.

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