Linha tênue

14 de setembro de 2009
Mônica Aiub: a principal causa desses vícios é a inadequação entre discurso e atitude

A complexidade do mundo corporativo vai além dos desafios e transformações que os gestores têm de enfrentar no dia a dia. Por meio de uma leitura mais aguçada, é possível perceber que uma mesma atitude ou ação de um profissional pode levá-lo ao “céu” ou “inferno”, a depender do contexto em que ele está inserido. Essa é a análise de Mônica Aiub, filósofa e sócia fundadora da Associação Paulista de Filosofia Clínica. A partir dos sete pecados capitais, Mônica explica que os mesmos elementos que levam a uma atitude virtuosa, em seu outro extremo, podem levar aos vícios. Para ilustrar, ela cita a soberba. “Altamente indicada para o destaque profissional e oposta à humildade, ela é valorizada e criticada ao mesmo tempo. Seu excesso, assim como sua falta, são indícios de um desequilíbrio, gerado pelo excesso de competição, ambição, comparação com o outro”, diz a filósofa. Nesse sentido ela ressalta que, para melhor compreender essa linha tênue entre vício e virtude e não deixar os colaboradores caírem na tentação dos pecados corporativos, é preciso fazer uma boa leitura do contexto da organização no momento de avaliar essas atitudes. “Uma boa forma de enfrentar [esses pecados] é conhecer a gênese e a necessidade de nossas posturas a partir da leitura da realidade na qual nos inserimos. É a reflexão sobre as práticas cotidianas. E o RH pode contribuir provocando essa reflexão e pesquisando tais características e possibilidades de modo a adequar as posturas às necessidades – tanto do indivíduo quanto das equipes e do todo da organização”, afirma.

Quais são os sete pecados capitais no mundo organizacional?
Para cada virtude há um vício equivalente. Assim, pensar nos pecados capitais do mundo organizacional significa pensar nas relações entre as virtudes e vícios que permeiam as organizações e orientam seus membros. Os mesmos elementos que levam a uma atitude virtuosa, em seu outro extremo, levam aos vícios. Por isso, não se trata de estabelecer previamente as posições virtuosas ou viciosas em si mesmas. A questão é saber ler os contextos e suas necessidades, adequar o discurso e a ação e, com isso, encontrar as condutas adequadas a cada caso. São pecados capitais, inicialmente na história da humanidade, aqueles merecedores de condenação, de acordo com a perspectiva cristã: soberba, gula, avareza, ira, luxúria, preguiça e inveja. Contudo, hoje, alguns desses pecados são valorizados, defendidos e vividos. Em outros casos, suas equivalentes virtudes é que são consideradas “pecados”.

Como assim?  
A soberba, por exemplo, indicada para o destaque profissional e oposta à humildade, é valorizada e criticada ao mesmo tempo. Seu excesso, assim como sua falta, são indícios de um desequilíbrio, gerado pelo excesso de competição e ambição. De modo descontextualizado, nem soberba nem humildade são atitudes boas. Podemos considerá-las somente a partir de seus contextos. Mesmo assim, podem nos trazer resultados positivos, mas também grandes problemas.

Como enfrentá-los? Qual o papel de RH nesse processo?
Uma boa forma de enfrentamento é o conhecimento da gênese e da necessidade de nossas posturas a partir da leitura da realidade na qual nos inserimos. É a reflexão sobre as práticas cotidianas, buscando formas de posicionamento mais adequadas aos nossos objetivos, às nossas características e, principalmente, às possibilidades existentes. O RH pode contribuir provocando essa reflexão, pesquisando tais características e possibilidades de modo a adequar as posturas às necessidades – tanto do indivíduo quanto das equipes e do todo da organização. Isso pode provocar movimentos interessantes, gerando pesquisas e suas respectivas implantações.
 
Em sua opinião, qual a principal causa desses pecados?
Penso que eles são derivados de uma inadequação entre discurso e atitude. A ausência de reflexão sobre nossas reais necessidades e a consideração de conceitos equivocados, pautados em modelos distantes das nossas possibilidades, promovem mecanismos de automatização, nos tornando apenas reprodutores de modelos, muitas vezes inadequados a necessidades e princípios da sociedade contemporânea. A falta de um olhar em perspectiva, que permita considerar a legitimidade de outras possibilidades, é também um de nossos grandes “pecados”, embora o dogmatismo não esteja listado entre os pecados capitais.

Mônica Aiub irá falar mais sobre esse tema na palestra Os sete pecados capitais no mundo organizacional, que será realizada na quarta edição do CONGREGARH, evento promovido pela ABRH-RS. Com o tema Organizações e pessoas: responsabilidades compartilhadas para o crescimento, o congresso será realizado entre os dias 28 e 30 de outubro. Mais informações no site www.abrhrs.com.br/congregarh

Lista maior

Eram oito os pecados capitais. Incluindo a melancolia

No ínicio eram oito os pecados capitais. Diz-se que o teólogo e monge grego Evário do Ponto (345 – 399) teria identificado esses “crimes” ou “paixões” em ordem de gravidade. Assim, a lista começava com a gula, seguida por avareza, luxúria, ira, melancolia, acídia (ou preguiça espiritual), vaidade e orgulho. O monge acreditava que esses vícios tornavam-se piores à medida que transformassem o homem num ser mais e mais egocêntrico. Daí o orgulho ser o maior dos crimes.

Já no final do século 6, a relação ficou com sete pecados por obra do Ppapa Gregório, que promoveu uma espécie de reordenação, juntando alguns e acrescentando outros. Assim, a lista ficou desta maneira: orgulho, inveja, ira, melancolia, avareza, gula e luxúria.

Outros teólogos, como São Tomás de Aquino, reavaliaram a gravidade de tais pecados e chegaram a mais uma lista. No século 17, a igreja trocou “melancolia”, termo um tanto vago, por “preguiça”. Vale lembrar que para cada um dos pecados capitais corresponde uma virtude. São elas: castidade, generosidade, temperança, diligência, paciência, caridade e humildade.

Compartilhe nas redes sociais!

Enviar por e-mail