Metas sustentáveis, prática responsável

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    Wells, do IMD: justiça constrói confiança e lealdade, a chave dos bons negócios

    Foi a irresponsabilidade de certos líderes empresariais que provocou um colapso em cadeia e gerou a crise mundial. A partir daí, a liderança responsável deixou de ser uma escolha para se tornar uma obrigação das organizações. Essa é uma das colocações de John Wells, presidente do IMD, escola de negócios sediada na Suíça, que vem primeira vez ao Brasil para participar de dois eventos promovidos pela ABRH-Nacional: o 9º Fórum dos Presidentes e o CONARH 2009, no qual fará a abertura do congresso ao lado de Fábio Barbosa, presidente do Grupo Santander Brasil. O tema de sua apresentação não poderia ser diferente: a liderança responsável na superação
    da crise. Confira na entrevista a seguir.

    O que difere um líder responsável e qual é a vantagem competitiva que ele agrega à empresa?
    Líderes responsáveis pensam a longo prazo, não a curto prazo. Isso é o que os difere dos líderes irresponsáveis. Todos sofrem em consequência de uma liderança irresponsável. Um exemplo: em bons anos, alguns CFOs sub-relatam os resultados e, em anos ruins, rapam o balancete para obter lucros e aumentar a rentabilidade relatada, que nem existe. Quando se faz isso ano após ano, chega uma hora em que não sobra nada, a empresa entra em colapso. Foi essa irresponsabilidade que gerou a falta de confiança entre os stakeholders e nos colocou num caos financeiro.

    Como o senhor conceitua liderança responsável?
    É entregar os resultados certos da forma correta. O que quero dizer com resultados certos? Nos negócios, é a entrega de desempenho superior sustentável: lucros a longo prazo – não a jato. É usar os recursos de uma forma mais eficiente e eficaz, gerando crescimento e sustentabilidade, e criar mais valor, satisfazendo os clientes que querem compartilhá-lo. E obter esses resultados da forma correta significa tratar pessoas e instituições de forma justa. Justiça constrói confiança e lealdade, a chave dos bons negócios. Significa ser honesto: não roubar os recursos de longo prazo da empresa para criar a impressão de lucros a curto prazo. Significa ter uma visão mais ampla do impacto das escolhas da empresa na comunidade local, na sociedade e no meio ambiente. Também é buscar oportunidades de investimento para ajudar a resolver assuntos críticos, como a pobreza.

    Os princípios de liderança responsável podem criar conflito de interesses entre os stakeholders?
    A crise que estamos passando foi causada essencialmente por comportamento irresponsável e haverá conflito de interesses se a liderança responsável não for sustentada. É difícil encontrar um grupo de stakeholders que não tenha sido afetado pela atual crise. Se pudermos ter uma visão de longo prazo e pensar além dos nossos interesses, tanto individuais quanto corporativos, então estaremos em condições melhores.

    O senhor acha que os conselhos de administração estão preparados para agir de acordo com o conceito de liderança responsável?
    Não posso falar em nome dos conselhos de administração. Entretanto, acredito que hoje não há outra opção a não ser adotar a liderança responsável, que, praticada nos níveis individual, corporativo e global, mostra-se a única maneira de emergirmos do estado atual. Essa forma de liderança não é mais uma escolha, mas, sim, uma obrigação.

    Como se faz para conciliar redução de custos com investimentos em capital humano?
    A liderança responsável deve permear todos os aspectos dos negócios, o que inclui a maneira como desenvolvemos nosso pessoal. Muitas vezes, os executivos dirigem times de gestores levando-os à beira de uma crise de nervos, o que certamente não é um comportamento responsável. Não é uma má ideia pressionar as pessoas desde que elas estejam aprendendo e se desenvolvendo durante o processo.

    Mas muitas empresas demitiram funcionários na crise.
    Demitir funcionários é uma tarefa penosa e também muito custosa para a empresa. Mas é ainda mais penosa e custosa para as famílias e a comunidade local, porque muitas outras empresas sofrem também. Numa demissão, as empresas repartem o sofrimento com muitos outros círculos. Elas devem pensar nisso e tentar amenizar o sofrimento que é criado.

    O que as escolas de administração devem aprender com a crise?
    Não posso falar em nome de todas as escolas. Aqui, no IMD, sempre temos nos empenhado em desenvolver líderes responsáveis e agora é hora de redobrar os esforços. Encontros regionais como esse que haverá no Brasil nos permitirão ouvir stakeholders de diferentes partes do mundo. Essa iniciativa também possibilitará que o IMD ofereça conselhos e informações aos participantes no que se refere aos pontos críticos de liderança responsável. Outra maneira de melhorar o nosso approach da liderança responsável é o Fórum de Administração de Sustentabilidade Corporativa (CSM), um dos centros de pesquisa do IMD que lida com os desafios que as empresas enfrentam em relação à sustentabilidade e lhes dá suporte. Hoje, a sustentabilidade é mais importante do que nunca. As empresas devem apresentar uma performance sustentável superior, equilibrando considerações sociais, ambientais e econômicas que contribuam com a sua prosperidade de longo prazo.

    Têm que reduzir a ineficiência e minimizar lucros perdidos e se certificar de que estão fazendo sua parte como cidadãs globais. Isso cria uma situação de ganho para todos. Nesse processo, nós, como escola de administração, devemos fazer
    o papel de facilitadores.

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