Motores novos na economia

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    Linha de montagem da Volvo, que conta com 2,8 mil funcionários em suas diversas unidades em Curitiba

    O Paraná sempre foi conhecido nacionalmente por sua característica agrícola. Sai de suas lavouras boa parte dos alimentos que saciam a fome dos brasileiros de Norte
    a Sul do país e também das populações de algumas nações do mundo. Dados da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) indicam que a agroindústria representa 35% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. Números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam o estado como o maior produtor de grãos do país, com base no oitavo levantamento do ciclo 2009/2010, que revelou uma estimativa de 146,87 milhões de toneladas de grãos, ou seja, 11,5 milhões a mais que os 135,13 milhões de toneladas da última safra. No Paraná, a safra estimada é de 31,32 milhões de toneladas. Para o secretário de Agricultura e do Abastecimento, Erikson Chandoha, os resultados demonstram que o Paraná ainda mantém a tradição de celeiro do país, embora outros setores da economia também estejam se destacando. “As safras recordes demonstram essa tendência”, justifica.

    O diretor do Departamento de Economia Rural (Deral), Francisco Carlos Simioni, observa que os dados divulgados pela Conab não chegam a surpreender, justamente por causa da tradição paranaense nesse segmento. “A tradição existe, o clima ajudou e os incentivos governamentais ao homem do campo contribuíram para esse resultado”, acredita. Hoje, o Paraná possui quase 400 mil propriedades agrícolas, a maioria de pequeno porte, com menos de 50 hectares. O estado representa uma extensão de 3% do território nacional, mas sua agricultura, segundo a Conab, produz 25% de todos os grãos do país. No entanto, essa realidade tem mudado nos últimos anos. Números do Ministério da Agricultura, de 2009, mostram que as exportações do agronegócio brasileiro – para as quais os paranaenses contribuíram com boa parte – registraram queda de 9,8% em comparação com o ano de 2008. Caiu de 71,8 bilhões de dólares para 64,7 bilhões de dólares.

    Um dos fatores seria a queda nos preços, agravada pela crise vivida mundialmente entre 2008 e 2009, pois o volume exportado ficou estável, com uma pequena redução de 0,4%. Mas como a crise passou, as perspectivas para o futuro são boas. O presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep-PR), Rodrigo Costa da Rocha Loures, diz que o setor alimentício também tem impulsionado a economia do estado, além de outros, com o de serviços, de base florestal (setor madeireiro), de informática etc. “Temos uma economia diversificada e temos crescido de forma equilibrada”, avalia. Segundo ele, o crescimento tem se dado mais no aspecto qualitativo do que quantitativo. Ou seja, o ambiente difícil das exportações, prejudicadas pelo aspecto cambial desfavorável, por desestímulos aos novos investimentos – brecados por causa dos juros altos -, tem levado os empresários a inovar e a buscar outras saídas para compensar a queda nas exportações. “Some-se aos problemas a tributação excessiva, a burocracia e a falta de infraestrutura adequada”, complementa.

    Indústria automobilística: desenvolvimento acelerado
    Sem deixar a tradição agrícola de lado, o Paraná tem registrado bons momentos em sua economia puxados por segmentos como as indústrias têxtil e automobilística, dentre outras. A região metropolitana de Curitiba, que concentra 25 municípios, tem sido o local preferido pelas indústrias automobilísticas para instalar suas fábricas. O processo de chegada dessas montadoras teve início no final da década de 1990. Na região da capital, Curitiba, se instalaram a Renault e a Audi-Volkswagen, em São José dos Pinhais, e a Daimler Chrysler, em Campo Largo, dentre outras, somadas às já existentes Volvo, com sua fábrica de caminhões e ônibus, e a New Holland, no segmento de máquinas agrícolas. Estava, então, iniciado um dos mais importantes segmentos industriais do estado.

    Para o professor da PUC-PR Ricardo Kureski, autor do artigo Indústria automobilística no Paraná, impactos na produção local e no restante do Brasil , escrito em parceria com outros autores, desde meados da década de 70, quando ocorreram mudanças no processo de industrialização e o setor metal-mecânica na região de Curitiba ganhou impulso, o segmento tem se destacado. “O governo do estado também contribuiu com incentivos de toda ordem para essa área, o que colaborou para um maior desenvolvimento a partir do final dos anos 1990”, escreveu. Inaugurada em junho de 1998, a Chrysler iniciou a produção de picapes. Investiu, junto com a BMW, em uma fábrica de motores, a Tritec. A capacidade era de produzir 400 mil motores por ano. Depois de três anos, no entanto, a Chrysler fechou suas portas, por falta de mercado consumidor.

    Uma nova composição, no entanto, transformou a unidade na TMT Motoco, fabricante de motores de compressão, que chegou a ter 680 funcionários. A fábrica, porém, também fechou as portas em 2007, por razões financeiras. Mas a partir do terceiro trimestre de 2011, a Caterpillar, maior indústria de máquinas e tratores do mundo, começará a produzir no local. Estima-se que essa iniciativa vá gerar 900 empregos diretos. Luis Carlos Calil, presidente da Caterpillar no Brasil, diz que a escolha se deu porque a fábrica “já está 80% pronta”, por ter sido utilizada por outras montadoras. Para instalar a unidade em Campo Largo, que fica a 30 km da capital, a indústria irá investir 90 milhões de dólares.

    Dentre os produtos a serem fabricados estão a retroescavadeira 416E e as carregadeiras 924H e 928 H, hoje produzidas em Piracicaba, fábrica que emprega 5 mil pessoas e produz diversos outros equipamentos no interior de São Paulo. A empresa é a maior exportadora do setor e há quatro anos está entre as cinco melhores para trabalhar, segundo o Great Place to Work Institute (GPTW). Este ano, foi eleita como a terceira melhor empresa para trabalhar na América Latina. O município de São José dos Pinhais recebeu a fábrica da Renault no final de 1998. O objetivo era a construção do automóvel Mégane Scénic, e a unidade seria a primeira a fabricar o veículo fora da França. A capacidade de produção atingiu a marca de 120 mil veículos por ano. A Audi/Volkswagen também aportou na mesma cidade. A intenção era produzir 160 mil unidades, principalmente dos veículos Golf e Audi A3. A instalação de todas essas plantas trouxe incremento significativo para o parque industrial do Paraná, gerando milhares de empregos. O mercado de trabalho também cresceu com a vinda dos fornecedores de autopeças, que se instalaram próximos às unidades fabris, o que gerou milhares de empregos diretos e indiretos e diminuição do custo de produção para as montadoras.

    Indústria têxtil: futuro bem desenhado

    Os campos de trigo do Paraná são uma mostra de que o estado ainda mantém a tradição de celeiro do país

    Há cerca de 10 anos, o Sistema Fiep-PR e o Sebrae-PR produziram um diagnóstico setorial da indústria do vestuário no Paraná. O trabalho, feito por amostragem, abrangeu cerca de 500 empresas, o equivalente a 15% do total de indústrias no setor no estado na época. Foram ouvidos empresários de regiões-polo, como Curitiba, Londrina, Cascavel, Maringá e Pato Branco. A finalidade era elaborar um estudo que mostrasse a situação das empresas e que norteasse futuros investimentos. Na época, o levantamento apontou que o estado tinha 50,5% de indústria de microporte, com até 9 funcionários, e apenas 0,6% de grande porte, com mais de 890 funcionários. O restante ficava entre pequenas e médias empresas.

    Um relatório setorial da indústria confeccionista do Brasil mostra que o país está em 5º lugar dentre as nações membros do International Textile Manufacturers Federation (ITFM) no que se refere à produção têxtil, atrás da China, Índia, EUA e Taiwan, conforme dados da Organização Mundial do Comércio. Nós, brasileiros, somos um dos 50 maiores exportadores e importadores de confecções do mundo, com 536 milhões de dólares. O primeiro colocado, a China, exporta o equivalente a 36,65 bilhões de dólares. Apesar de representar pouco na fatia global, a indústria têxtil brasileira tem avançado. E na região Sul também. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul só perdem para a região Sudeste no número de indústrias por região. As empresas paranaenses produzem aproximadamente 150 milhões de peças de vestuário por ano. É um segmento industrial que vem apresentando crescimento vertiginoso nos últimos tempos.

    No estado, os polos de concentração estão localizados em cidades do interior, o que tem contribuído para que milhares de paranaenses não deixem suas cidades de origem em busca de emprego em outras localidades. O presidente da Fiep-PR, Rocha Loures, acredita que o estado está seguindo uma tendência e pode se destacar ainda mais. “Temos todos os elementos, o humano e o tecnológico, para nos tornarmos o grande polo de confecções do Brasil”, acredita. Segundo ele, o desafio é tornar o Paraná um centro de desenvolvimento de classe mundial. “Em breve, Curitiba pode se tornar uma nova Milão”, diz. Darci Piana, presidente da Federação do Comércio do Paraná, diz que os lojistas dão continuidade à cadeia produtiva da indústria e ressaltam a força dessa indústria. Para ele, o comércio vende o que a indústria produz “e quando há qualidade, isso agrega valor ao produto, colocando-o em situação de destaque no cenário nacional”.

    As expectativas no segmento são tão promissoras que um grupo de empresários quer criar na capital paranaense um polo têxtil. A ideia é concentrar em uma única região as unidades fabris, para dar maior competitividade aos empresários da capital em relação aos grandes polos instalados no interior. O sonho de transformar a cidade na Milão brasileira pode, de fato, não estar longe de acontecer. De acordo com dados do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Curitiba (Sindivest), a região metropolitana de Curitiba responde por apenas 15% de toda a produção de confecções têxteis do Estado. O presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap), e também presidente do Sindivest, Ardisson Naim Akel, enfatiza a importância de ampliar as potencialidades do setor com a criação do polo. “A indústria têxtil sofre com a competição desleal dos produtos importados. Investindo em inovação, vamos abrir novas possibilidades para o segmento.”

    Akel lamenta que a produção esteja concentrada nas regiões noroeste e norte do Estado. “A produção da região de Curitiba pode crescer de 15% para 20%, pois, com a instalação do polo, podemos ter um crescimento continuado”, assegura. Hoje, o setor emprega cerca de 3 mil pessoas diretamente. “Mas para cada vaga preenchida são gerados dois outros empregos indiretos”, diz Akel.

    Mão de obra qualificada: problema comum
    O setor têxtil, no entanto, esbarra em um problema que já se tornou crônico: a falta de mão de obra qualificada. Dentre os setores da economia que se destacam no estado, talvez ele seja um dos mais afetados. “Hoje, o jovem prefere trabalhar em lojas de shoppings a ser costureiro, que é um trabalho digno como qualquer outro”, acentua João Barrreto Lopes, diretor regional do Senai no Paraná. Para ele, outros segmentos e indústrias também enfrentam esse problema, como o alimentício e o da construção civil. “Muitos pensam que para ser pedreiro não precisa muito conhecimento, mas é um engano. O profissional tem de ser bem preparado, pois trabalhará em grandes obras e sem conhecimento não há como atuar”, explica Lopes. O diretor ressalta que o Senai tem colaborado para essa preparação no Paraná. “A indústria paranaense tem cerca de 700 mil trabalhadores. Desses, 170 mil deverão passar pelo Senai este ano”, conta.  E esse número vem crescendo, já que em 2008 foram treinados 80 mil trabalhadores e em 2009 o total chegou a 100 mil.

    Além do aprendizado inicial, para aquele que procura uma colocação no mercado de trabalho e sabe que só a qualificação lhe abrirá portas, o Senai tem capacitado milhares de outras pessoas que já estão empregadas. São cursos de reciclagem, que especializam e aperfeiçoam trabalhadores. “Isso é importante porque conhecimentos adquiridos há 10 anos, por exemplo, já se tornaram obsoletos e precisam de atualização”, ressalta. Para Lopes, em determinadas áreas, os conhecimentos obtidos na faculdade, na época da graduação, praticamente não servem mais. E isso ocorre por causa da velocidade tecnológica, que cria sistemas mais modernos de produção e deixam outros obsoletos. E o funcionário precisa acompanhar isso para continuar no mercado de trabalho. O índice de emprego dos alunos que passam pela preparação inicial nas escolas profissionalizantes do Senai chega a ser de 90% no Paraná. A média, no Brasil, é de 75%, já que a instituição está espalhada por todo o país. No Paraná, o Sesi/Senai está em aproximadamente 80 pontos.

    Mas não são apenas as áreas industriais que enfrentam problemas para a contratação de profissionais capacitados. A própria área de recursos humanos vem encontrando dificuldades. Isso porque o entendimento sobre o papel desse profissional vem mudando, impulsionado por novas atribuições criadas por grandes corporações e multinacionais. Há algum tempo, as empresas tinham um setor denominado Departamento de Pessoal, que cuidava de toda a rotina burocrática trabalhista, administrativa dos funcionários, como folha de pagamento, concessão de benefícios diretos e indiretos etc. Hoje, muitas empresas veem o profissional de RH com outros olhos. A ele é atribuída a função de planejar, traçar estratégias e estar mais próximo das decisões do corpo diretivo. Saber quando a empresa vai precisar contratar temporários, se precisarão de treinamento ou não, qual o impacto disso para a corporação etc. Tudo bem diferente do profissional mais ligado às questões administrativas, que continua sendo imprescindível na empresa, mas que tem outras atribuições.

    Para a presidente da seccional paranaense da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-PR), Sonia Maria do Amaral Gurgel Pereira, “as empresas estão enlouquecidas” em razão desse novo desenho profissional que o gestor de RH incorporou nos últimos tempos. Ela conta que as empresas “achavam” que tinham um setor e um profissional com essas novas atribuições, mas não. Tanto que o perfil é diferente. O profissional ligado a questões burocráticas, administrativas, precisa gostar de legislação, de ficar mais internalizado no setor, enquanto o de RH precisa gostar de gente, de fazer planejamento, de traçar estratégias e estar diretamente vinculado à direção.

    Falta de talentos
    As empresas, de acordo com a presidente da ABRH-PR, estão percebendo isso e procurando se adequar. Mas justamente por isso recorrem ao mercado de trabalho e têm dificuldades de encontrar alguém disponível com o perfil adequado. E quem procura (e identifica) esses poucos profissionais prontos acaba encontrando salários inflacionados. A famosa lei da oferta e da procura é infalível e também tem funcionado nesses casos. Para Sonia, muitas instituições foram surpreendidas pela demanda e estão tendo pouca capacidade de reação. Dentre as soluções possíveis, muitas estão recorrendo ao desenvolvimento de programas de qualificação, a instituições de ensino e a órgãos de classe para poderem ter em seus quadros pessoas capacitadas para a função. “Elas estão tendo de olhar além dos muros”, ressalta. E quem não lança esse olhar além pode ter problemas futuros. Para a presidente da seccional da ABRH no Paraná, o empresário que não quer capacitar seus funcionários por medo de que depois a concorrência o pegue está agindo errado. “Isso é ter uma visão míope”, avalia. E a própria ABRH-PR tem procurado dar a sua parcela de colaboração.

    A presidente informa que a entidade tem procurado desenvolver programas de capacitação, por meio da palestras, cursos e workshops. “Damos oportunidade ao profissional de RH de ter vários olhares sobre determinada situação. Fazemos provocações que possam gerar reflexões e contribuir para o seu desenvolvimento profissional e pessoal”, explica. O presidente da Fiep-PR, Rocha Loures, ressalta que o trabalho do profissional de recursos humanos está intimamente ligado à produtividade de uma empresa ou indústria. “É ele quem traça novos conceitos organizacionais, define treinamentos; é observador e precisa estar ligado às novas tendências. Ao agir assim, ele cria um clima organizacional em que todos colaboram. E a melhoria do ambiente organizacional tem ligação com um melhor rendimento do funcionário, que trabalha mais entusiasmado, mais feliz e faz toda a diferença”, acredita. Para ele, um funcionário satisfeito com o local de trabalho fica mais interessado, aberto a receber novos ensinamentos e a cooperar. “Acompanhar as novas tendências e as novas tecnologias e também possuir um capital humano engajado são pontos importantes para o sucesso de qualquer corporação”, observa Loures.

    Transparência nas relações
    Um exemplo é a Volvo, que pela quarta vez consecutiva foi escolhida como uma das 10 melhores empresas para trabalhar no Brasil, segundo pesquisa realizada pelas revistas Você S/A-Exame , da Editora Abril. No ranking deste ano, ela ficou em segundo lugar. Para o gerente de recursos humanos e da linha de produção da Volvo do Brasil, Carlos Ogliari, a premiação é resultado do trabalho desenvolvido na empresa, que possui 2,8 mil funcionários em suas diversas unidades de negócios de Curitiba, incluindo fábrica de caminhões, ônibus e as operações da Volvo Penta e Volvo Financial Services Latin America.

    Na avaliação de Ogliari, a transparência nas ações desenvolvidas e muita informação para o colaborador são dois fatores que contribuem para um maior engajamento. “As pessoas precisam se sentir parte do processo, assim se envolvem e o retorno aparece na produtividade. O respeito às pessoas é muito importante”, diz. E não apenas para as empresas paranaenses, mas para todas as brasileiras e as multinacionais que aqui estão instaladas.

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