Mudanças no mundo do trabalho

22 de outubro de 2010

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) tem abrangência de todo o território nacional, diferentemente das outras pesquisas de emprego e renda que só se referem às regiões metropolitanas e ao Caded que, embora nacional, faz apenas o registro das admissões e demissões no mercado formal. E é por meio dos seus dados que começaremos a documentar as mudanças no mundo do trabalho.

A recém-divulgada reafirma avanços constatados anteriormente: o aumento do registro dos trabalhadores, a diminuição do trabalho infantil e a melhora na distribuição de renda. A surpresa foi o aumento de 1,3 milhão no número de desempregados, que ainda refletiu os efeitos da crise mundial. O país tinha 8,3 milhões de desempregados, estatística muito diferente da que é divulgada mensalmente, que só aponta os que procuram emprego em algumas áreas metropolitanas.

Mas é positiva a constatação da mudança na configuração educacional da população ocupada. Avançou o percentual dos que tinham pelos menos o ensino médio completo: 33,6%, em 2004; 41,2%, em 2008 e 43,1%, em 2009. Trabalhadores com o nível superior completo eram 8,1% em 2004, passando para 11,1% em 2009. As mensagens repetidas desde a década de 90 de que o mercado de trabalho exigia uma população mais qualificada encontraram eco nas famílias e nos governos e alguns frutos começam a aparecer. Esse esforço fica claro no número de pessoas com 11 anos de estudo: era 38,7 milhões, em 2004; e passou para 53,8 milhões, em 2009.

Uma informação importante para o planejamento é a mudança na pirâmide etária: a participação na população brasileira das pessoas com 25 anos ou mais aumentou de 53,7%, em 2004, para 58,4%, em 2009. Já o inverso ocorre com quem tem até 24 anos – cai de 46,3% para 41,3%.

A recuperação do rendimento médio mensal do trabalho também continuou: cresceu 2,2%, na última pesquisa. Ainda somos um país de baixos rendimentos. Em 2008, a média era R$ 1.082, passando para R$ 1.111, inferior aos rendimentos de 1996 que eram de R$ 1.144, para ficarmos somente na era do real. O salário que mais cresceu recentemente foi o salário mínimo, fato que explica a maior parte desse aumento de renda. Os demais salários, negociados anualmente, entre sindicatos e empresas mantiveram seu valor real ou sofreram pequenos aumentos.

Os dados favoráveis tanto no que se refere ao emprego quanto ao salário sugerem maior poder de barganha dos trabalhadores. Ele já pode ser notado por meio de dois fenômenos:

1. A iniciativa do empregado de mudar para um emprego que seja considerado melhor. Já estão aparecendo os primeiros indícios de aumento de pedidos de dispensa por parte dos empregados;

2. O crescimento dos pedidos de aumentos reais nas campanhas salariais, como pode ser notado nas disputas entre montadoras de veículos e seus sindicatos, devendo extravasar para os demais setores.

A Pnad permite constatar mudanças já ocorridas, enquanto novas demandas levam a compreender melhor o futuro. Esse é o dinamismo do cotidiano do mundo do trabalho. Walter Barelli é economista, professor da Unicamp e conselheiro da ABRH-SP

*Walter Barelli é economista, professor da Unicamp e conselheiro da ABRH-SP

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