Gestão

Mudanças sustentáveis

Gumae Carvalho, Vanderlei Abreu
13 de julho de 2012
Adriano Vizoni
Lara, do Grupo Votorantim: ter a noção de que não estamos isolados no mundo

“Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas, tudo degenera nas mãos do homem. Ele obriga uma terra a nutrir as produções de outra, uma árvore a dar frutos de outra; mistura e confunde os climas, as estações.” Assim escreveu, há 250 anos, o filósofo nascido em Genebra Jean-Jacques Rousseau no início de Emílio, ou Da Educação. Na obra, em que ele apresenta um processo pedagógico a partir dos instintos naturais de uma criança (numa tentativa de conservar a bondade natural do ser humano em sociedade), já parecia existir um traço do que viria a ser o centro de muitas discussões do século 21: a sustentabilidade do planeta. Não há como fugir do tema, dentro e fora das empresas. No mundo corporativo, o conceito vai se integrando mais e mais na estratégia de muitas companhias. Mas ainda há muito o que fazer e discutir. Na onda da economia verde, muitas mudanças prometem fazer com que líderes, gestores e colaboradores repensem a gestão e a carreira. Estamos diante, também, dos green jobs. Mas o que vem a ser tudo isso?

Socialmente inclusiva
No documento Green economy: synthesis for policy makers (Economia verde: síntese para formuladores de políticas, numa tradução livre), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), no ano passado, economia verde é a “que resulta na melhoria do bem-estar humano e na equidade social, enquanto reduz significativamente os riscos ambientais e as escassezes ecológicas”. Em outras palavras, é a que pode ser pensada como de baixo carbono, eficiente na utilização de recursos e socialmente inclusiva. Exemplo de parte dessa inclusão pode ser dimensionado no relatório Rumo ao desenvolvimento sustentável: oportunidades de trabalho decente e inclusão social em uma economia verde, divulgado no dia 31 de maio, na terra natal de Rousseau, pela Iniciativa Empregos Verdes, entidade ligada à Organização Internacional do Trabalho (OIT): entre 15 milhões e 60 milhões de novos empregos no mundo poderão ser criados nos próximos 20 anos, caso todos os países venham a adotar uma economia mais sustentável como modelo de desenvolvimento.

“A economia de baixo carbono está acelerando o ritmo das mudanças nos mercados e no trabalho”, disse Leyla Nascimento, presidente da ABRH-Nacional, na abertura da Cúpula Mundial Green Jobs, parte integrante da Rio+20 e Você, promovida pela associação e pelo Instituto Humanitare durante a Rio+20, nos dias 14 e 15 de junho. “Como RH, não posso deixar de entender que essas transformações vão demandar outras mudanças de paradigmas”, acrescenta. Nessa caminhada, o próprio papel da área de recursos humanos deverá se reposicionar. O RH terá de se esverdear e fazer com que as outras carreiras também.

Vale reforçar que esse conceito (green job) não se restringe apenas aos postos de trabalho na agricultura, por exemplo. Ele se estende, na classificação do Pnuma, também à manufatura, à pesquisa e ao desenvolvimento, à administração, e às atividades de serviço que contribuem substancialmente para preservar ou recuperar a qualidade ambiental. Numa visão sistêmica, esses novos empregos incluem os que ajudam (direta ou indiretamente) a proteger ecossistemas e biodiversidade; reduzir o consumo de energia, materiais e água por meio de estratégias de alta eficiência; descarbonizar a economia; e minimizar ou concomitantemente evitar a geração de todas as formas de lixo e poluição. No fundo, qualquer ocupação poderá se tornar um green job – vai depender da atitude do profissional. “Teremos novas profissões e outras com mudanças que exigem novas competências”, comenta Laís Abramo, diretora da OIT no Brasil, também presente na cúpula. Algumas delas são: estratégias de liderança; adaptabilidade; conscientização ambiental; habilidade de coordenação e de análise; e habilidade de comunicação e negociação.

Laís lembra que as estimativas dão conta de que aproximadamente1,5 bilhão de habitantes serão afetados pela transição a uma economia verde. “Tanto esse conceito quanto os green jobs estão ligados ao conceito de trabalho decente, pois não se trata apenas de garantir o acesso e a inclusão no mercado de trabalho ou em empregos que lidem com meio ambiente, como reciclagem.” Ele vai além, até porque uma criança trabalhando em um lixão não é um green job, é uma vergonha. E, no entanto, ainda vemos muitas cenas como essa e muitos outros problemas que comprometem as futuras gerações.

Racional, mas não razoável
Se a necessidade de cuidarmos do planeta é tão evidente, por que ainda esbarramos em obstáculos, muitas vezes criados por nós mesmos? Talvez, como lembrou no evento Eugênio Mussak, presidente da Sapiens Sapiens Consultoria em Desenvolvimento de Lideranças, a questão é que, como disse o filósofo Sêneca, “o homem é um animal racional, mas não é, necessariamente, um animal razoável”. Por essa razão, ele defende que temos de aumentar nossa consciência por meio da educação. “O conhecimento não é o fim da educação, é o meio. O fim é a consciência. Temos de aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser”, diz.

Nesse processo de aprendizado, entender a importância do outro é um bom exemplo do que seja conviver e ser sustentável. Saber compartilhar os resultados e somar nas soluções é um caminho que pode ser trilhado pelo líder, como exemplo para os demais. E todos saem ganhando. Sérgio Chaia, presidente da Nextel, conta que, certa vez, teve a certeza de que não deveria contratar um candidato durante a entrevista de seleção. “Ele só falava das realizações e dos resultados na primeira pessoa – ´eu fiz´, ´eu consegui´, ´eu criei´. E os outros? Sustentabilidade pressupõe colaboração, inteligência coletiva para buscar alternativas e soluções para problemas que afetam a todos”, relembra.

Como em todo processo de mudança, o papel do líder é fundamental numa empresa. E fora dela também – ainda mais quando se trata de transformações que lidam com o nosso futuro. Por essa razão, Luiz Carlos Cabrera, um dos mais importantes headhunters em atuação no Brasil e sócio-fundador da Panelli Motta Cabrera, explica que o líder sustentável é (ou deveria ser) cada pessoa no seu dia a dia, em todas as ações e comportamentos. “É comum, quando se fala em liderança, que os ouvintes esperem tratarmos apenas do ambiente corporativo. Não olham para o papel de liderança de cada um em casa, na comunidade”, diz.

Para Cabrera, o líder sustentável se preocupa em fazer com que os resultados econômicos da empresa sejam justos e admiráveis e ajuda as pessoas a sua volta a crescer. “Fazer isso é simples: ajuda a crescer quem sabe escutar, elogiar, ensinar e perdoar”, ensina. O líder, ainda, tem uma conduta orientada por valores. “E o que é valor? É como você lida com a vida e como você faz seu julgamento. É também ser ético, quando o que combinamos vale para nós e para os outros. E ser ambientalmente correto.”

Gustavo Morita
VIcky, da Vicky Bloch Associados: liderança é uma escolha de cidadania

Encurtar distâncias
Isso reforça a tese de que toda liderança pressupõe uma escolha consciente de cidadania, como afirma Vicky Bloch, sócia da Vicky Bloch Associados. “O líder, numa empresa, tem de saber que servir ao outro não significa apenas lidar com os funcionários. Existem outros stakeholders, como clientes e fornecedores, que fazem parte dessa relação”, diz. “Ele tem de ter a crença exercida de que as pessoas possuem um valor intrínseco. Outra crença é o foco em acolher o ser humano em todas as suas dimensões – isso aumenta a sinergia.”  Para ela, o responsável pela mediocridade de tantas instituições é o pensamento difuso de que não é preciso ter esse espírito de nobreza no papel do líder. “Poucas pessoas estão dispostas a investir no autoconhecimento, no compromisso com o outro. Isso causa a distância entre o que é falado e o que é feito.”

E como o RH pode ajudar a encurtar essa distância? Ele pode usar suas competências para dar suporte a esse processo de transformação (no que se refere à cultura e formação e capacitação de mão de obra para os desafios da economia verde), bem como atuando naquilo que é sua atribuição. Por exemplo: pode propor uma remuneração que tenha parte atrelada a indicadores ambientais ou sociais, ou pode contribuir para eliminar a distância entre os salários dos homens e das mulheres que ocupem o mesmo cargo na empresa. Em termos de benefícios, oferecer um pacote que garanta ao trabalhador uma série de coberturas, capaz de deixá-lo tranquilo em relação à saúde dele e de seus familiares, é um caminho, bem como zelar por um trabalho decente. Em recrutamento e seleção, ver se há nesse processo o alinhamento de propósitos entre empresa e pessoas, bem como se pautar pela diversidade quando possível. Em capacitação, pode ajudar na formação dos funcionários, oferecendo a possibilidade de completar os anos de estudo, ou dando condições de se adaptarem às novas transformações advindas da economia verde.

Na formação das equipes, o RH pode ajudar a fazer com que as pessoas entendam que estão integradas em algo bem maior, que vai além da atividade que realizam nas dependências de um escritório, de uma linha de produção de uma fábrica, atrás de um balcão de loja, visitando um cliente ou guiando uma colhedeira em uma grande plantação. Alguns exemplos nesse sentido foram dados pelo CEO do Great Place to Work (GPTW), Ruy Shiozawa, durante a Cúpula na Rio+20. Segundo ele, ser um bom lugar para trabalhar pode significar, também, ser um bom lugar para aprender a cuidar do planeta. É uma questão ética. 

Localizada em Dois Córregos (SP), a Zanzini Móveis mobilizou seus cerca de 400 funcionários numa campanha de reciclagem de lixo. A iniciativa cresceu e, hoje, aproximadamente 25% do lixo produzido na cidade é reciclado. Outro caso foi o da financeira Losango, que realizou um censo demográfico com seus colaboradores e percebeu que muitos residiam em zonas de risco de desmoronamento de terra. Foi feito, então, um trabalho para orientar esses colaboradores sobre os riscos e as oportunidades e formas de sair daqueles locais. Por fim, foi a vez de o CEO do GPTW comentar a ação do grupo Accor, de hotelaria, que procura sensibilizar colaboradores e hóspedes em ações de preservação, como a redução do consumo de água – no caso da lavagem de toalhas. Aliás, o grupo, recentemente, lançou um novo programa de desenvolvimento sustentável, o Planet 21. Nele, são assumidos 21 compromissos e objetivos que deverão ser atingidos em 2015. Entre os objetivos estão: a formação dos colaboradores na prevenção de doenças em 95% dos hotéis; a promoção de uma alimentação equilibrada em 80% dos hotéis; a utilização de produtos ecológicos em 85% dos hotéis; e a redução do consumo de água e energia em 15% e 10% respectivamente, nos hotéis. Espera-se, novamente, contar com o envolvimento dos clientes para conseguir avançar mais rapidamente e multiplicar esses resultados. Eles vão encontrar, no momento da reserva, durante a sua estada ou até durante as refeições nos hotéis, uma série de mensagens para sensibilizá-los e conscientizá-los sobre essas questões.

Outros exemplos
Com a intenção de alcançar até 2020 a liderança mundial da química sustentável, a Braskem, uma das maiores produtoras de resinas termoplásticas das Américas, centra esforços de modo que todas as funções e programas individuais considerem a ampliação da sua contribuição para o desenvolvimento sustentável, tanto nos aspectos ambientais como sociais. “Consideramos que todas as carreiras da empresa devem ser envolvidas, tornando-se ´mais verdes´”, conceitua Jorge Soto, diretor de desenvolvimento sustentável da companhia. O Grupo Votorantim também é outro exemplo. Gilberto Lara, diretor de desenvolvimento humano e organizacional, conta que o conceito de sustentabilidade é tratado na empresa praticamente desde sua fundação, há quase 100 anos, mas, a partir de 2002, com a criação do Instituto Votorantim, essas ações sociais e ambientais passaram a ser tratadas de forma mais organizada. “A linha que temos adotado é fazer com que a sustentabilidade faça parte do DNA e do dia a dia da empresa e dos colaboradores e não tratada como assunto pontual”, afirma.

Ele ressalta que pelo fato de o grupo estar presente em 350 municípios, é necessário estabelecer uma relação de proximidade com as comunidades. “Não é possível operar em uma cidade por muito tempo se a comunidade não for encarada como parceira”, aponta. “É ter a noção de que não estamos isolados no mundo e devemos trabalhar em comum acordo com as pessoas, num processo de ganha-ganha, por exemplo, privilegiando um fornecedor local de modo a gerar progresso à localidade em que a empresa atua”, continua. Para dar suporte às práticas sustentáveis, a organização criou um conjunto de crenças de gestão que deve ser seguido por todas as lideranças da empresa: cultivo de talentos, meritocracia, excelência, pragmatismo, diálogo aberto, aliança e senso de dono. Lara ainda ressalta que o grupo tem uma preocupação especial em conscientizar e dar atenção à base da empresa. “O pessoal da operação é muito esperto e reconhece a coerência entre o que a companhia fala e o que ela faz. Não adianta pregar o discurso de conservar o maquinário, produzir com qualidade e oferecer instalações de trabalho em más condições”, reconhece.

RH na prática
Na Braskem, a área de pessoas e organização fez uma revisão total dos programas de capacitação, das trilhas de formação e dos critérios de competências para cada uma das carreiras. “Hoje, cada um dos programas de formação de liderança entra nos assuntos associados à sustentabilidade. Temos um MBA em andamento com a Fundação Instituto de Administração [FIA] que está dando ferramentas profundas para 31 líderes, associadas ao desenvolvimento sustentável”, esclarece Soto. No Grupo Votorantim, a universidade corporativa também reformulou seus treinamentos para incorporar o conceito de sustentabilidade. A seleção de novos empregados também contempla a sustentabilidade, tanto na Braskem quanto na Votorantim. Na indústria química integrante do Grupo Odebrecht, buscam-se candidatos alinhados aos valores empresariais que englobam os princípios da sustentabilidade. “Depois, cada pessoa é integrada à nossa cultura, recebe informações e é formada para que amplie suas contribuições ao desenvolvimento sustentável”, salienta Soto.

Na Votorantim, todo o processo de seleção tem foco de igual peso tanto para a questão comportamental quanto para a técnica. “Nós não contratamos simplesmente pela competência que a pessoa demonstra, mas também por seu comportamento, que deve ser alinhado à nossa identidade”, afirma Lara. Para Claudio Andrade, consultor em sustentabilidade e blogueiro da MELHOR, o processo de contratação é parte integrante de um sistema geral de gestão e deve existir em função do desempenho organizacional. Portanto, na adoção do conceito de sustentabilidade organizacional inserido no de carreiras verdes, a empresa tem de avaliar seu contexto estratégico, determinar grupos de interesse, reexaminar seus objetivos e visão para atingir uma excelência ambiental.

Reprodução
Chaia, da Nextel: valorizar a capacidade de compartilhar soluções

Mensuração
Andrade acrescenta que a empresa deve se mobilizar e produzir internamente um diagnóstico de sustentabilidade. Dessa forma, conhecendo suas oportunidades de melhorias, criando políticas que sejam adequadas às demandas de operacionalização alinhadas às exigências de mercado, torna-se mais eficiente. Por outro lado, ele não acredita que a responsabilidade pela formação desses novos profissionais seja das empresas, embora elas não devam se afastar desse compromisso. “Como professor de pós-graduação, é recorrente a reclamação dos alunos sobre a realidade diferente das organizações em relação aos aspectos abordados em sala de aula. Para mim, é muito preocupante, pois faltam políticas públicas nesse sentido para estimular a relação entre empresa e escola”, reconhece Andrade. Além de preparar as pessoas para incorporar o conceito de sustentabilidade em suas carreiras, as empresas precisam se valer de instrumentos para medir o grau de aplicabilidade no dia a dia dos colaboradores.

Jorge Soto afirma que a política de cargos e salários da Braskem não considera nada específico para carreiras verdes, uma vez que todas as carreiras estão sendo “esverdeadas”. “Por outro lado, nossa remuneração variável é atrelada às contribuições concretas e todos, de alguma forma, têm resultados associados ao desenvolvimento social e ambiental nos seus programas de ação individual”, detalha. A Votorantim se vale da pesquisa de clima para estabelecer as metas relacionadas à sustentabilidade para os líderes. Outra meta adotada principalmente nas unidades fabris é relacionada à segurança do trabalho. “Ela é medida por meio de indicadores como taxa de frequência e planos de ação que impactem em melhoria dos resultados de segurança”, explica Gilberto Lara.

O relacionamento com a comunidade também é um indicador utilizado para medir as práticas sustentáveis na Votorantim. “Em localidades novas em que a companhia passa a atuar, especialmente as pequenas, as metas são relacionadas à forma como a unidade se relaciona com a comunidade, seja na busca de fornecedores locais ou de trabalhos em comum acordo com a comunidade que tragam mais conforto para aquela população”, comenta. Exemplos como esses mostram que a criação de um novo contrato social, lembrando outra obra de ­Jean- -Jacques Rousseau, deve ser feito. Um contrato no qual a vida em sociedade seja pautada pela vontade geral, em consenso por um futuro melhor – e onde o homem não atue como o lobo do homem.

 

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