No clima certo

    0
    210





    O Brasil tem sido considerado, em todas as análises internacionais, como uma das grandes oportunidades globais no momento. A crise nos EUA e nas principais potências europeias tem colocado os países do BRIC, em particular o Brasil, como prioridade de investimentos e deslocamento de negócios. Jovens de muitos países, por mais inacreditável que pudesse parecer uma década atrás, estão fazendo cursos de português para tentar oportunidades de trabalho por aqui. Profissionais têm se oferecido para vir trabalhar, mesmo que sem remuneração, apenas para ter a oportunidade de incluir a experiência no Brasil em seus currículos. Mesmo as notícias mais recentes sobre expectativas mais baixas do PIB brasileiro não têm, ainda, alterado esse quadro. O modelo econômico atual e tudo o que está Í  sua volta – tais como a cobertura da mídia, as decisões pessoais, o consumismo irresponsável, o descuido com o meio ambiente – estimulam uma visão de curto prazo. Por isso, o cenário global e as perspectivas brasileiras precisam ser analisados com uma lupa mais apurada, considerando-se a capacidade de sustentação no médio e longo prazo. Caso contrário, estaremos estimulando ainda mais a visão imediatista e a repetição dos erros que levaram Í  quebra de confiança no mercado, ponto de partida da atual crise global.

    Quando falamos em competividade, uma excelente análise pode ser encontrada no Relatório Global de Competitividade, que o Fórum Econômico Mundial divulga anualmente desde 1979. O trabalho, coordenado pelo renomado consultor Michael Porter, entende competitividade como a capacidade que um país tem de competir no médio e longo prazos. Na versão mais recente, foram analisados 142 países. O Brasil, agora 6ª maior economia do mundo, 5º maior em população e extensão territorial e celeiro de 15% da biodiversidade do planeta, ocupa – pasmem! – apenas a 53ª posição. A tradução desse número é muito simples: uma empresa instalada aqui precisa fazer muito mais para alcançar o mesmo nível de competitividade que empresas instaladas em outros 52 países.


    Mudar o cenário
    Olhando pelo lado positivo, temos uma chance de ouro para tentar resolver algumas de nossas agruras crônicas e mudar radicalmente esse cenário. Começando pelas boas notícias, alguns dos 12 pilares analisados na pesquisa ajudam a puxar nossa média para cima. Por exemplo, a capacidade de inovação das empresas instaladas no Brasil. Esse resultado é consistente com as análises feitas pelo Great Place to Work (GPTW): há um enorme e crescente interesse no Brasil pela transformação dos ambientes de trabalho. Dentre 49 países onde a pesquisa é realizada, o Brasil é que conta com a maior participação em número de empresas e funcionários impactados. Essas pesquisas revelam, por meio de indicadores objetivos, que os melhores ambientes de trabalhar estimulam o melhor aproveitamento do potencial das pessoas, gerando empresas mais criativas e inovadoras. Empresas como Chemtech, GVT, IBM e Laboratório Sabin, que estão entre as melhores do GPTW 2011, aparecem também nos rankings das empresas mais inovadoras. Isso significa melhores resultados para essas empresas e maior competitividade para o país. Mas há muitas más notícias também. Outros pilares de competitividade funcionam como pesadas âncoras puxando o barco brasileiro da competitividade para o fundo. Mais do que reconhecidos são os enormes desafios na educação básica e nas condições de saúde, gerando profissionais com baixa qualificação e saúde precária. Não havendo outra saída no curto prazo, as próprias empresas se encarregam de tentar suprir essas lacunas, o que, obviamente, aumenta seus custos e impacta a competitividade. Mas, uma vez mais, as melhores para trabalhar mostram caminhos para minimizar esses impactos.


    Relação de confiança
    Recentemente, durante os debates organizados pela ABRH-Nacional na Rio+20, o GPTW levou alguns fantásticos exemplos de como as melhores empresas, independentemente de seu porte ou localização geográfica, estão fazendo a sua parte. O somatório dessas iniciativas representa um impacto muito grande para a massa de funcionários envolvidos, suas famílias, as comunidades em torno das instalações das empresas e para a sociedade como um todo. Essas companhias, ao estimularem fortes relações de confiança entre seus colaboradores, constroem organizações sustentáveis e responsáveis socialmente, o que, em última análise, significa competitividade. Há outros pilares assustadores derrubando nossa capacidade de competir. A deficiente infraestrutura que impacta a produção e distribuição de produtos e serviços serve também como gatilho de gigantescos esquemas de corrupção. Em algumas das variáveis analisadas na pesquisa de competitividade, tais como “confiança nos políticos” e “desperdício de dinheiro público”, ocupamos as últimas posições do ranking, Í  frente apenas de pouquíssimos países, tais como Venezuela, Iêmen e Haiti.


    #Q#


    Recorrendo novamente Í s melhores para trabalhar, podemos vislumbrar não apenas uma luz no fim do túnel, mas sim enormes holofotes iluminando o caminho e dando o exemplo. Nelas, a construção da confiança entre os colaboradores, especialmente com os líderes da organização, passa por comunicação aberta e, obviamente, transparente, o cumprimento de promessas, o compromisso social autêntico, a prática de um código de ética. Não custa relembrar que a corrupção tem sempre dois lados. De um lado, está o corrupto, que aceita dinheiro para conceder favores ou viabilizar contratos. No outro, está o corruptor. Uma característica comum entre as empresas GPTW é que elas são rigorosas em seus padrões éticos, pois têm sua cultura baseada em valores e contratam pessoas cujos valores pessoais são compatíveis. Nas questões éticas não há tons de cinza possíveis. A conclusão é muito simples: uma economia apoiada em uma quantidade cada vez maior de empresas com excelentes ambientes de trabalho será cada vez mais competitiva. Para aquelas empresas que quiserem começar esse trabalho, ainda hoje há um caminho simples. Realizando estudos e projetos desde a década de 1980, descobrimos que um roteiro efetivo, com quatro passos, pode transformar seu ambiente de trabalho.


    > Passo 1
    Medir o clima organizacional
    O ponto de partida é aplicar a pesquisa que avalia a percepção dos funcionários. O mais importante em uma pesquisa desse tipo é a credibilidade e, por isso, ela deve ser aplicada de forma absolutamente confidencial. Descobrimos que as cinco dimensões de um ambiente de trabalho são credibilidade, respeito, imparcialidade, orgulho e camaradagem. Uma segunda parte da medição deve ser o levantamento das práticas da empresa para a gestão de pessoas: inspirar, falar, escutar, agradecer, desenvolver, cuidar, contratar, compartilhar, celebrar.


    > Passo 2
    Entender os resultados da pesquisa
    Nessa etapa, é necessário aprofundar a análise dos dados. Além da média geral da empresa, é importante compreender os resultados por dimensão, por área, por cargo, por faixa etária, por região. Outra análise importante é entender quais práticas estão gerando uma percepção positiva nos colaboradores e, portanto, estimulando o excelente ambiente e melhores resultados.


    > Passo 3
    Elaborar o plano de ação
    Aqui, o ponto-chave é montar o plano de trabalho com base na interpretação da pesquisa junto com todos os gestores da empresa. São eles que na prática constroem a confiança no ambiente de trabalho.


    > Passo 4
    Desenvolver a liderança
    Uma vez que os líderes geram os maiores impactos sobre o ambiente de trabalho, as melhores empresas incluem módulos nos seus programas de desenvolvimento de liderança exclusivamente voltados a preparar os gestores para seu maior desafio, que é gerir pessoas. Importante destacar que o currículo das universidades, com honrosas exceções, apresenta um conteúdo muito pobre no que se refere a preparar líderes para cuidar das pessoas. Por isso é tão comum promovermos um excelente profissional a um cargo de gestão e em pouco tempo concluir que a escolha foi errada. Por isso, se você quer uma empresa e um país mais competitivos, faça a lição de casa de desenvolver líderes campeões na gestão de pessoas. Quer exemplos? Veja as listas das melhores empresas para trabalhar publicadas há 16 anos no Brasil. Quanto mais empresas construírem seus modelos de gestão com essas premissas, mais competitivas serão, impulsionando de fato o país a ser a bola da vez, agora e no futuro. E não apenas a “bexiga da vez”, que explode ao ganhar altitude.


    *Ruy Shiozawa é o CEO e Caroline Maffezzolli é a gerente de marketing do Great Place to Work® Brasil.

    [fbcomments]