Nova agenda

JB Vilhena e L .A. Costacurta Junqueira*
26 de julho de 2010

Um dos maiores eventos mundiais relacionados a treinamento e desenvolvimento, o congresso da ASTD realizado em maio, em Chicago (EUA), apresentou, além de lendas vidas como Ken Blanchard e Donald Kirkpatrick (esbanjando charme, aos quase noventa anos, no seu paletó de veludo vermelho), algumas das principais tendências no setor. Este ano, nós pudemos observar que os temas que “vão bombar” daqui para a frente são: engajamento, mídias sociais, geração 2.0 e vendas (isso mesmo, você não está lendo errado).

Engajamento
Vários expositores falaram sobre engajamento. Uma das magnas foi exatamente sobre esse tema. As correntes são várias. Falando para mais de cinco mil pessoas, Daniel Pink (autor do livro que poderíamos traduzir livremente por Direcionamento: a surpreendente verdade sobre as razões que nos motivam) defendeu a ideia de que basta deixar livres as pessoas para que elas assumam responsabilidades e comecem a entregar resultados. Nem todos concordaram com essa ideia, principalmente aqueles que leram o clássico Medo à liberdade, escrito por Erich Fromm em plena Segunda Guerra Mundial.

Mas se não houve um consenso sobre a melhor forma de engajar as pessoas, todos os expositores que trataram do tema partiram da premissa de que conseguir esse engajamento será um dos principais desafios a serem enfrentados pelos profissionais de T&D. Afinal, de que adianta investir milhares de dólares (ou reais, tanto faz) em mirabolantes programas de treinamento sem a certeza de que cada participante está, a priori, engajado no esforço de levar sua organização para o primeiro lugar no pódio?

Mídias sociais
O tema mídias sociais também foi fartamente explorado durante todo o evento. Na segunda das três magnas, Charlene Lee (considerada pela Fast Magazine uma das mulheres mais influentes na área de tecnologia) descreveu uma série de casos de sucesso no uso das chamadas mídias sociais (leia-se Orkut, Twitter, Facebook, Linkedln e outros) para atingir objetivos mercadológicos.

Mas, na nossa opinião, a grande novidade sobre esse tema foi a pesquisa feita pela própria ASTD intitulada O surgimento da mídia social: facilitando a colaboração e a produtividade entre gerações (numa tradução livre). Nesse trabalho, podemos destacar que as tecnologias desenhadas para facilitar a interação social e a comunicação (destaque para Facebook e Linkedln) estão integrando as redes de trabalho e as redes de relacionamento pessoal de maneira jamais vista.

Quatro de cada cinco respondentes da pesquisa afirmam que o uso das redes sociais no treinamento on-the-job vai crescer exponencialmente nos próximos três anos. Também existe um consenso entre aqueles que participaram da pesquisa no que diz respeito à maior facilidade que a geração Y (nascidos a partir de 1981) tem de explorar, nos limites da possibilidade, essa nova ferramenta.

A pesquisa também aponta que as razões mais comuns para as pessoas utilizarem a mídia social no trabalho são a maior facilidade de encontrar recursos aliada à possibilidade de compartilhar conhecimento mais rapidamente. Entretanto, ao investigar 11 usos diferentes para as mídias sociais, o estudo aponta que ainda é tímida a taxa de utilização dessas mídias (para quem curte estatística, utilizando a escala de Likert, a média obtida para esses diferentes usos foi de aproximadamente três pontos, o que significa um uso de baixo a moderado).

Uma atenta leitura do estudo não deixa dúvidas de que as ferramentas de mídia social terão cada vez maior valor para as atividades de treinamento e desenvolvimento. Tony Bingham, CEO da ASTD, afirma que “entender como usar as tecnologias da Web 2.0 – analisando seu impacto sobre as formas que as pessoas vão aprender e se comunicar daqui para a frente – é crítico para garantir o engajamento de colaboradores e clientes, tornando-se fator crítico de sucesso para as organizações que pretendem crescer e obter sucesso”.

Geração 2.0
Como não poderia deixar de ser, a chegada da geração Y ao mercado de trabalho também foi amplamente discutida nas diversas sessões. Dificuldades de relacionamento, facilidade para uso de tecnologia por parte dos jovens entrantes e outros temas já conhecidos estiveram no pano de fundo das discussões. Mas o mais importante nesse campo é que várias empresas puderam apresentar os primeiros resultados dos programas de integração da Web Generation na sua força de trabalho. Esse tipo de apresentação, baseada em fatos, dados e números, facilita, e muito, a identificação do que funciona e do que não funciona na hora de integrar gerações muito diferentes dentro do mesmo ambiente de trabalho.

Competências em vendas
Já no campo das vendas, houve uma animadora unanimidade entre todos os apresentadores. O consenso girou em torno da necessidade de as organizações ampliarem seu foco de visão, deixando de enxergar apenas as metas de curto prazo e passando a se orientar por objetivos estratégicos mais duradouros. Nas seis apresentações a que assistimos, foi afirmado com todas as letras que ainda não há um padrão definido de competências para definir o escopo das funções comerciais e se condenou a falta de investimento no preparo das lideranças que assumirão o comando das equipes comerciais.

Mas, na nossa opinião, foi o lançamento de um livro “todinho” dedicado a explicar o modelo ASTD de competências em vendas que fez toda a diferença. Nunca pagamos tão caro por um livro técnico (custou 169 dólares mais taxas), mas, ao aprofundar sua leitura, rapidamente chegamos à conclusão de que cada centavo investido valeu a pena.

Brasileiro
Por último, vale a pena registrar que foi uma emoção especial ver o brasileiro Alfredo Castro, na qualidade de chairman da ASTD International Conference, abrir e encerrar o evento de 2010. Com toda a sua competência, conhecimento e simpatia, o trabalho desenvolvido por Castro serviu para dar ainda mais destaque e magnitude ao trabalho desenvolvido pelos profissionais brasileiros de T&D. Foi a primeira vez que um brasileiro assumiu uma posição tão destacada no contexto mundial de treinamento e desenvolvimento.

*JB Vilhena e L A Costacurta Junqueira são sócios do Instituto MVC

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