Novos paradigmas e novos problemas

Luiz Augusto Costa Leite e Cleo Wolff
23 de agosto de 2011

1 O imperativo da aprendizagem 
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Não se encontra sequer um livro, nos últimos 20 anos, que não coloque o desafio da aprendizagem contínua como essencial para a sobrevivência dos profissionais e das organizações. A aprendizagem deve ser igual ou superior à velocidade das mudanças; se não, não há sobrevivência. E o que fizemos até agora? Confinamos a aprendizagem aos formalismos, ao departamento de T&D ou à sua sucedânea universidade corporativa. Na verdade, apropriam-se de um bem que não é seu. Pesquisas mostram que o grosso da aprendizagem ocorre on the job. Enquete do Center for Creative Leadership, em 2010, mostra que “agilidade na aprendizagem” foi apontada como a competência gerencial mais importante. Só que as organizações ainda insistem em separar aprendizagem da ação ou, pior, deixar que ela aconteça ao acaso, pela iniciativa do profissional que tem de cuidar da sua carreira. O novo paradigma exige que se institucionalize o processo de aprendizagem-ação como determinante estratégico da missão gerencial.

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Tragédias como Chernobyl poderiam ter sido evitadas se perguntas fossem feitas. Sempre havia uma informação disponível, um procedimento padrão, um risco conhecido, mas ninguém fez as perguntas certas

2 Reflexão e questionamento nos processos decisórios
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Imagine-se numa reunião típica em que o chefe abre com um problema, diz o que pensa da solução e pede que todos o ajudem a construí-la. O leitor conhece a situação, não? E se aquele não for exatamente o problema e se a solução parecer esdrúxula? O bom-senso manda ficar calado? Vale qualquer solução, desde que seja a sua? Sente-se livre para pensar? Para Millôr Fernandes, livre pensar é só pensar. Liberdade parece ser mercadoria escassa em nossos ambientes de trabalho. Podemos viver sem ela no exercício da condição humana (que inclui o trabalho)? Liberdade dá poder. Um bom processo grupal começa pelo questionamento do conhecimento programado, daquilo que já sabemos. É suficiente para enfrentar o problema? Ora, se for um problema novo e complexo, é bem possível que não.

Daí a importância do questionamento, fazer perguntas que desaguem no problema real; perguntas abertas e não fechadas. Os problemas mais críticos não têm solução conhecida. Esse desafio de refletir sobre a realidade é que leva à aprendizagem, à definição das melhores ações e a resultados tangíveis. Seja por pressão, hábito ou conveniência, não temos nos dado a liberdade de divergir para depois convergir, assumir o pensamento crítico, ouvir o diferente. O novo paradigma, portanto, é baseado na competência de reflexão sobre os problemas pelo questionamento sistemático.

3 A liderança adequada
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Evoluímos, nos últimos anos, para a solução de problemas por meio dos processos consultivo e participativo, mas o velho paradigma de autoridade-obediência ainda teima em sobreviver, embora em seus estertores. As mudanças no funcionamento das organizações requerem um abrandamento no peso da hierarquia pela necessidade de maior interação, pelas especializações, pela tecnologia, ou ainda pelos avanços sociais e culturais. Isso tudo leva à horizontalização, ainda incipiente, no sentido da liderança compartilhada, que é um processo interativo de influência mútua nas equipes conforme conhecimento e habilidades para o alcance de objetivos.

Há competências novas, como saber quando liderar e ser liderado, como liderar por meio de questionamentos (perguntas), quando encorajar colaboração e consenso, como utilizar motivadores, como “empoderar” subordinados em autogestão e como desenvolver um modelo mental de aprendizagem (leia-se reflexão). Liderança é algo que toda uma equipe pode fazer em conjunto, respeitadas as divisões de responsabilidade. Influenciar é um direito e não uma delegação situacional. Acabou a época do cada um por si. Todos os problemas são interconectados. Ter medo da liderança é uma postura que persiste, é verdade, mas não é algo que se justifique mais. Superar o medo depende só da pessoa. Nos relacionamentos profissionais, aprender, refletir, questionar e liderar compartilhadamente formam um novo paradigma integrado.

*Luiz Augusto Costa Leite é presidente e **Cleo Wolff é vice-presidente do WIAL-Brasil.

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