O benefício da dúvida

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    Será que os trabalhadores da América Latina possuem as habilidades necessárias para atuar no mercado global e competitivo de hoje? Segundo levantamento realizado pelo Economist Intelligence Unit (EIU), instituto de pesquisas ligado à revista The Economist, a pedido da FedEx Express e da Dell, a resposta é não. A constatação reflete a demanda das empresas que, atualmente, não buscam somente os conhecimentos e habilidades tradicionais, mas também as competências ditas do século 21, como pensamento crítico, capacidade de resolução de problemas, comunicação, habilidade para lidar e interagir com outras pessoas, especialmente de culturas e idiomas diferentes, como explica Raymundo Peixoto, diretor-geral da Dell. “Como empregadores, precisamos ter essa massa de profissionais habilitados ou capacitados para atender às nossas próprias necessidades”.

    Um dos motivos dessa deficiência está na educação básica.  A pesquisa Capacitação para competir – Ensino pós-secundário e sustentabilidade empresarial na América Latina mostrou que os alunos que estão se formando no ensino superior e ingressando no mercado de trabalho frequentemente não possuem habilidades interpessoais, fato que pode prejudicar suas chances para o sucesso e a sustentabilidade de empresas da região.

    Na opinião da diretora regional da equipe de editores e economistas do EIU, Justine Thody, o problema que a maior parte das empresas está enfrentando é a falta de preparação dos profissionais de nível escolar mais baixo e é justamente nesse período da vida  que se aprendem as capacidades fundamentais e que são necessárias para a maioria das empresas. “Os gerentes seniores no Brasil estão muito bem preparados e têm salários altos, mas essa é uma faixa muito pequena se comparada a outras atividades e ao tamanho da população”, atesta.

    Para Peixoto, a maior dificuldade na educação básica está na manutenção do aluno na sala de aula para que ele consiga desenvolver as habilidades tradicionais, como português, matemática, história, geografia, além das habilidades que ele precisa para enfrentar o mundo dos negócios de hoje e que não necessariamente são ensinadas nas escolas.

    Parcerias
    Segundo o estudo, os alunos na América Latina passam menos tempo na escola se comparados a seus pares em outros países, e a produtividade dos trabalhadores regionais está abaixo dos níveis asiáticos. Assim, o desafio que a região enfrenta para atender às demandas do novo ambiente de negócios global reside no treinamento das pessoas em habilidades técnicas (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e interpessoais (pensamento crítico, resolução de problemas e habilidades para a vida). Os executivos na América Latina reconhecem a importância de uma força de trabalho educada para a competitividade empresarial e concordam que o setor privado desempenha um papel importante na preparação de alunos.

    Fica claro que a colaboração e as parcerias entre o setor público e privado são fatores críticos para melhorar a qualidade da educação e a competitividade geral da força de trabalho da América Latina. De acordo com a pesquisa, a maioria dos entrevistados não tem dúvidas de que a iniciativa privada precisa se envolver na educação, uma vez que a atual forma de cooperação do setor privado não é adequada. Na opinião dos respondentes, em vez de operar instituições de ensino, o setor privado deve trabalhar em parcerias público-privadas voltadas à educação; compartilhar práticas recomendadas de gerenciamento de mudanças e novas soluções tecnológicas; e proporcionar suporte financeiro para programas de qualificação de professores.

    Por meio da cooperação, as empresas podem ajudar a enfrentar as deficiências identificadas na enquete: professores qualificados para habilidades sociais e matérias específicas (77% e 59% dos participantes, respectivamente, acham que essas áreas precisam melhorar “significativamente”), estudantes qualificados em habilidades sociais (67%) e tecnologia em classe (67%).

    A Dell, por exemplo, já tem um projeto-piloto de fornecimento de computadores para escolas de ensino fundamental na Grande Porto Alegre – sede da empresa – e em Hortolândia, no interior paulista, onde está localizada a unidade fabril brasileira. “Trabalhamos com escolas técnicas de formação e inclusão digital de jovens de população não privilegiada em que capacitamos e os ´graduamos´”, detalha Peixoto.

    Em relação à universidade, a companhia firmou uma parceria com a PUC-RS na qual mantém seu centro de desenvolvimento de software dentro da instituição de ensino gaúcha. “Contratamos dezenas de estagiários todos os anos nesse processo de capacitação e muitos desses alunos se tornam funcionários da Dell dentro de nosso plano de crescimento. Exercemos essa parceria muito ativamente para descobrir, desenvolver soluções e maneiras de melhorar o aprendizado ou a manutenção do aluno em sala de aula, bem como para nossas soluções internas”, declara.

    Já a FedEx Express criou o PyMEX, programa de desenvolvimento de pequenos exportadores, em parceria com órgãos públicos e ONGs de estímulo ao empreendedorismo, como o Endeavor. O objetivo dessa iniciativa é levar informação e educação ao pequeno empresário para que ele possa competir no mundo globalizado. O diretor de marketing e comunicação corporativa da empresa de logística, Guilherme Gatti, conta que a FedEx buscava identificar os motivos pelos quais o pequeno empreendedor latino-americano não participava mais fortemente do comércio exterior e descobriu que a questão não era de falta de competitividade, nem problemas com o câmbio, mas de conhecimento. “Foi dessa constatação que surgiu o programa”, completa.

    A companhia também apoia outros projetos, como o Junior Achievement, para capacitação de estudantes com o objetivo de gerar ideias inovadoras e criar produtos que possam ser competitivos; e coleta de livros usados para distribuição em escolas carentes para preparar melhor os alunos para o mercado de trabalho. Segundo Gatti, todas essas ações servem de suporte ao fomento de um ambiente sustentável para os negócios da empresa por meio da criação de uma força de trabalho competitiva. “E isso vai ser possível na medida em que houver acesso à informação, educação, ideias e produtos – dessa maneira Brasil, México e Colômbia poderão participar, assim como os países asiáticos e europeus, desse novo mundo globalizado e sem fronteiras”, argumenta diretor.

    Treinamentos
    O estudo revelou também que, para cerca de 70% dos participantes, os programas de pesquisa universitários que exploram problemas e situações do mundo real são mais eficazes na melhoria do acesso a qualificações importantes.
    Trazer o local de trabalho para a sala de aula, recrutando professores em meio período junto ao mundo corporativo, por exemplo, é outra ferramenta eficaz para treinar estudantes. Por outro lado, apenas 28% dos entrevistados mostraram-se dispostos a estimular funcionários a interagir por meio do ensino em meio período e como forma de ajudar programas de nível pós-secundário a preparar estudantes para o mercado de trabalho.

    Mas o investimento em treinamento não para por aqui: 78% das respostas indicam que as empresas devem investir em programas internos de capacitação especializada, sendo que mais da metade dos respondentes já oferece treinamento ao pessoal recém-contratado em determinadas qualificações. A pesquisa apontou, ainda, que as empresas investem cada vez mais nos funcionários: 39% subsidiam especializações em instituições locais, enquanto 30% proporcionam acesso a programas de ensino virtual.

    Como o setor privado pode ajudar a educação?

    Confira as três principais ações que o setor privado pode promover para auxiliar na melhoria do ensino pós-secundário, a fim de preparar estudantes para o mercado de trabalho. Essas iniciativas foram consolidadas no total da América Latina e por porte de empresa. Neste caso, percebe-se uma falta de alinhamento entre o que sugerem as pequenas e grandes empresas.

    Ação 1
    Desenvolver programas de estudo/trabalho que introduzem os estudantes ao ambiente de trabalho. Essa iniciativa foi apontada por…
    – … 46% dos respondentes de toda a América Latina
    – … 51% dos entrevistados de pequenas empresas
    – Já 44% dos entrevistados de grandes empresas indicaram como ação trabalhar com instituições de ensino pós-secundário para desenvolver currículos

    Ação 2
    Patrocinar programas especiais para desenvolver habilidades sociais nas instituições de ensino. Essa iniciativa foi indicada por…
    – … 40% dos entrevistados da América Latina
    – … 39% dos representantes de pequenas empresas
    – … 41% dos entrevistados de grandes empresas

    Ação 3
    – Entre os entrevistados da América Latina, 40% indicaram trabalhar com instituições de ensino pós-secundário para desenvolver currículos
    – Já para os respondentes das pequenas empresas (37%) , a ação proposta foi criar estágios para estudantes em cursos pós-secundários
    – Os entrevistados das grandes empresas (39%) apontaram desenvolver programas de estudo/trabalho que introduzem os estudantes ao ambiente de trabalho

    Fonte: Capacitação para competir – Ensino pós-secundário e sustentabilidade empresarial na América Latina

     

    Causa e consequência

    Cada entrevistado teve de apontar três modos de como a melhor educação da mão de obra pode aumentar a competitividade empresarial. Veja as principais respostas:

    58% Aumenta a capacidade de inovar
    48% Aumenta a capacidade de identificar novas oportunidades
    43% Aumenta a eficiência
    39% Aumenta a produtividade
    36% Aumenta a compreensão das necessidades do cliente
    25% Aumenta a consciência sobre o mercado global
    24% Aumenta a capacidade de trabalhar com equipes internacionais
    5% Amplia o acesso ao capital
    12% Aumenta a percepção sobre riscos emergentes
    2% Outro
    1% Uma educação melhor não leva a maior competitividade empresarial

    Fonte: Capacitação para competir – Ensino pós-secundário e sustentabilidade empresarial na América Latina
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