Gestão

O bom e o ótimo

Eugenio Mussak
7 de Maio de 2014
Eugenio Mussak
Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor

Adoro a história de Pigmalião, aquele sujeito que conheceu a mulher perfeita. Ao descrevê-la, ele falava das formas de seu corpo e da beleza de seu rosto. Ela não tinha nenhuma curva tão pronunciada que a tornasse exagerada, nem tão sutil que a fizesse despercebida. A pele suave denunciava a vibração de cada músculo que recobria, em um esforço para conter tanta vida.

Sua pose era insinuante, dotada de um misto de majestade e sensualidade, em perfeita sinergia, dando-lhe uma beleza praticamente indescritível. O sorriso enigmático e o olhar ligeiramente perdido constituíam um capítulo à parte. Decifrar o enigma e acudir à expectativa daquele olhar eram praticamente uma obrigação.

A mulher de Pigmalião não tinha defeitos. Ou melhor, quase não tinha. Havia um detalhe que o afastava da felicidade de usufruir de tal companhia: ela não era humana. Era uma estátua, que ele mesmo havia esculpido e por quem se apaixonara.

Esse conhecido mito grego reflete o comportamento de pessoas e empresas de imaginar modelos ideais e sofrer por não conseguir transformá-los em realidade. O problema acontece quando esses modelos são emocionais e não são acompanhados pela lógica necessária para lhes dar sustentação. Surge, então, o embate entre o ideal e o real. Entre o desejado e o possível.

Para a maioria das pessoas, esse gap é absorvido por uma estrutura de personalidade que sabe lidar com a frustração. Para outros, pode virar motivo de sofrimento, às vezes paralisante. Você já ouviu, decerto, que o ótimo é inimigo do bom. Que quem não se contenta em fazer certo e quer sempre fazer o perfeito não consegue produzir, que é melhor não ser tão exigente consigo mesmo, etc. etc.

O que devemos fazer, então? Aceitar nossos limites e viver em um mundo realista, desprezando os ideais, limitando os sonhos e arquivando os projetos de quebra de paradigmas pessoais? Contentar-nos em ser medíocres e cancelar nossos projetos de realizações excepcionais?

Há saídas: o princípio de “hoje melhor que ontem e amanhã melhor que hoje” é uma delas, desde que não seja transformada em obsessão ou aventura em busca do inalcançável. Adotar uma espécie de kaizen pessoal pode ser uma boa ideia, tendo em mente as duas regras básicas: a) melhorar continuamente; b) melhorar lentamente.

#L# Quando tentamos implementar modificações muito velozes ou radicais, em geral nos frustramos. O ser humano não muda rapidamente, ou, se o faz, é à custa de muito sofrimento. Mas, avançar com mudanças que, por serem pequenas, são facilmente assimiladas, e transformar o hábito da melhoria em rotina diária, não só é possível, como é a única maneira de chegar a algo próximo da excelência. 

Quanto ao Pigmalião, ele se negou a se conformar, e foi à luta. Fez aliança com Afrodite, que concordou em dar vida à escultura, que virou uma mulher de verdade. Detalhe: Afrodite é a deusa do amor, o que nos deixa a lição de que, quando fazemos algo com paixão, temos mais chance de dar vida a nossos ideais.

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