Gestão

O estresse no ambiente de trabalho

Núbia Matos
16 de Abril de 2012

O livro Estresse ocupacional (Ed. Campus) mostra o bê-á-bá desse conceito e suas vertentes. O objetivo da obra, segundo os autores, é dar aos gestores de RH subsídios para lidar com esse problema, gerando soluções e alternativas para a realidade corporativa. Em entrevista exclusiva ao site da revista MELHOR, Henrique Maia Veloso e Jean Pierre Marras falam mais sobre as reflexões apresentadas no livro, que é o primeiro de uma coleção que apresentará mais dois temas importantes para a área de gestão de pessoas: avaliação de desempenho e remuneração estratégica. 


MELHOR – Como pode ser definido o estresse ocupacional?
O estresse ocupacional deve ser entendido e se diferencia das demais manifestações de estresse apenas pelo fato de que as fontes de pressão são provenientes do ambiente de trabalho ou das contradições entre vida profissional e vida pessoal. Nos outros aspectos, seja por sua forma de manifestar ou das consequências que desencadeia, ele é muito semelhante, pois os aspectos biológicos e psicológicos tendem a ser semelhantes das outras formas de estresse.


Quais são os principais fatores que desencadeiam esse tipo de estresse?
É importante ressaltar que o estresse ocupacional, assim como as outras formas de manifestação desse fenômeno, não é, necessariamente, uma doença ou algo que deva ser eliminado totalmente do cotidiano das pessoas, principalmente porque está associado ao mecanismo de sobrevivência dos indivíduos. O estresse, quando se manifesta dentro de limites toleráveis que são específicos e únicos para cada indivíduo, faz parte de nossas vidas. Viver pressupõe estar em condições nas quais o estresse necessariamente se manifestará. Nesse sentido, as principais origens do estresse fazem parte de nosso cotidiano, seja nos relacionamentos pessoais, na nossa saúde, nas nossas obrigações profissionais, nas contradições entre vida pessoal e profissional. As fontes de estresse no trabalho são classificadas em biológicas, psicológicas e sociais, sendo que cada atividade profissional pode manifestar a presença mais frequente de um agente estressor específico. Por exemplo: atividades laborais insalubres podem manifestar agentes estressores de origem biológica, pois as doenças desencadeadas na profissão podem engendrar o mecanismo de adaptação e resistência do organismo que gerará estresse; em ambientes gerenciais, por exemplo, o estresse se dá em função das pressões de cobrança de metas, objetivos dentre outros, que se configuram como fontes psicológicas e sociais.


Existem áreas com maior incidência do problema?
Cada situação é única, sendo que em uma organização o estresse pode se manifestar com mais frequência e intensidade em um setor, departamento ou nível hierárquico específico. Entretanto, não há, como alguns pensam, uma exclusividade de manifestação de estresse nos níveis gerenciais superiores ou intermediários. Numa organização em que se detecta, por exemplo, uma baixa manifestação de consequências do estresse de uma forma geral, em um departamento dessa mesma organização é possível que o estresse se manifeste de forma generalizada pela maneira como o gestor se relaciona com seus subordinados. O contrário também é plausível e observável, ou seja, em uma organização que, por motivos de competitividade e cobrança, passa por um processo de generalização de estresse em diversos setores, pode apresentar um departamento em que o estresse não se manifesta ou se manifesta de forma menos intensa em função da forma como os funcionários se relacionam entre si, dado apoio e suporte uns aos outros, e estabelecendo mecanismos de defesa coletivos.


Em qual momento da manifestação desse estresse o gestor de pessoas deve agir?
Embora o estresse não seja doença, é papel do gestor de pessoas monitorar constantemente como ele se manifesta no ambiente laboral, avaliando suas consequências e impactos, seja na saúde dos indivíduos seja nos resultados organizacionais. Nesse sentido, ele deve agir assim que percebe que surgem indícios de que o estresse pode estar afetando os indivíduos, as suas relações pessoais, os resultados do trabalho. Todavia, não deve ser objeto de preocupação do gestor a eliminação do estresse do espaço de trabalho, mesmo porque seria impossível atingir esse propósito.


Ao falar sobre políticas internas das empresas, alta produtividade e adaptação dos funcionários, vocês enfatizam a necessidade de o gestor de RH não ser “um mero reprodutor de tais práticas sem entender como elas afetam o estresse e a saúde dos indivíduos”.  Qual a ação esperada dos gestores?
Afirmamos isso porque não há soluções únicas e receitas milagrosas para se lidar com o estresse. Cada contexto requer uma análise, de preferência com a participação de profissionais de diversas competências específicas tais como médicos do trabalho, gestores de recursos humanos, psicólogos, dentre outros, e para cada situação específica, uma solução que seja construída de forma participativa e interativa, envolvendo também os que estão sob os agentes estressores. Entendemos que, se o gestor buscar receitas prontas, como alguns ainda insistem em vender no mercado, as consequências podem ser nefastas, pois estamos lidando com a saúde de pessoas. A principal ação do gestor deve ser de aprendizagem. Ele deve estudar o assunto, compreender como funciona o processo de estresse nos seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais e estudar o seu contexto específico. O estresse é um dinâmico fenômeno e que requer, de todos nós, seriedade e dedicação em termos de estudos e pesquisas.


Quais os profissionais que podem trabalhar com o gestor de RH no processo de auxilio aos funcionários estressados? E qual o papel dos líderes nesse processo?
 Em geral, médicos do trabalho, psicólogos, gestores e até mesmo engenheiros, pois o estresse depende, muitas vezes de como o trabalho está organizado, das condições de segurança e salubridade no trabalho, de como as pessoas estão preparadas para lidar com o problema dentre outros aspectos. Entretanto, como estamos lidando com uma questão que pode afetar a saúde humana, não há espaço para “palpites”, ou seja, utilizar apenas o “achismo” e não procurar entender como estresse se manifesta. Os profissionais que lidam com estresse precisam se preparar para lidar com o assunto. Quanto aos líderes, esses precisam estar preparados para saber gerenciar seus subordinados, pois podem se constituir agentes estressores de seus funcionários, ou pelo contrário, podem ser importantes elementos de suporte para que seus liderados lidem com os agentes estressores do dia-a-dia.


Quais são os impactos nos negócios da empresa? E para o funcionário? Quais os danos?
Quando os níveis de estresse passam dos limites toleráveis, pode-se observar diversas consequências que são direta ou indiretamente associadas ao processo em si. Isso porque além de o estresse ter impactos diretos na saúde, ele debilita o sistema imunológico dos indivíduos, gerando a possibilidade da manifestação de doenças oportunistas. Nesse sentido, em função do estresse, é possível que uma pessoa manifeste uma série de outras doenças, tais como doenças respiratórias, viroses, gripes, sendo todas resultantes da debilitação do organismo por um processo de exposição contínua ou intensa a agentes estressores.  O estresse também está diretamente associado a doenças no sistema circulatório e cardíaco do indivíduo, em função da forma como desencadeia o processo que chamamos de “estado de alerta”. Contudo, como se trata de uma manifestação sistêmica, é impossível determinar todos os impactos nos funcionários pelo estresse, lembrando que pessoas diferentes reagem biológica e psicologicamente de forma igualmente distinta ao processo de estresse. Nas organizações, o estresse, também quando passa de limites toleráveis, pode gerar absenteísmo, rotatividade, afastamento por doenças de forma geral, conflitos interpessoais, acidentes de trabalho dentre outros. Se entendermos que a saúde humana não tem preço, os danos podem ser incalculáveis.


É possível utilizar o estresse se maneira positiva dentro das empresas? Como?
Sempre que o estresse for mantido em níveis individuais e coletivos entendidos como toleráveis (que podem variar de indivíduo para indivíduo e de contexto para contexto) ele pode ser entendido como positivo. Isso porque o estresse é parte de nosso mecanismo natural para lidar com os desafios que estão ao nosso redor. Sem o mecanismo do estresse, nosso corpo e nossa mente (que atuam e são partes indissociáveis) não reagiriam com a mesma intensidade Í s ameaças e necessidades do dia a dia. O estresse é vital para a sobrevivência humana e deve ser entendido como tal.

Compartilhe nas redes sociais!

Enviar por e-mail