Gestão

O lado B do Bric

Por Natalia Gómez
17 de junho de 2011
Adriano Vizoni
Marco Stefanini, da Stefanini IT Solutions: a atitude do brasileiro, mais interativo e proativo, compensa a fragilidade educacional. Foto: Adriano Vizoni

No mundo pós-crise, o centro das atenções mudou de lugar. Depois de anos à sombra dos gigantes norte-americanos e europeus, os países do famoso Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – concentram as esperanças de crescimento econômico e a responsabilidade de serem as novas locomotivas do mundo. Mas apesar do potencial, seu avanço não está garantido. Tudo dependerá de grandes esforços em capacitação de mão de obra para atender à demanda futura por novos profissionais. Nessa corrida, o desempenho do Brasil é preocupante e coloca em risco a continuidade do seu crescimento econômico. Aqui, faltam engenheiros, profissionais da mineração e da construção, técnicos industriais e até motoristas. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que em 2011 haverá escassez de mão de obra de qualidade e com experiência em vários estados do país e em diversos setores da economia. No estado de São Paulo, destacam-se os setores da administração pública, comércio, reparação e indústria. Os estados da Bahia e do Mato Grosso do Sul devem ser os únicos a não registrar problemas com mão de obra qualificada e experiente. A região Sul do País deve apresentar os maiores problemas, com déficit de trabalhadores em três setores: comércio e reparação, indústria e transporte, armazenagem e comunicação.

“O problema já é maior do que se possa antecipar agora. Os casos de sucesso são pontuais”, afirma Ozires Silva, fundador da Embraer e ex-ministro da Infraestrutura. O executivo, que atualmente é reitor da Unimonte, conta que os empresários estão encontrando dificuldades tanto no nível fundamental quanto nos mais especializados. De acordo com ele, desde a indústria aeronáutica até o setor de carnes sofrem do mesmo mal, que ele chama de “apagão de talentos”. A tendência é de que o problema se agrave com o tempo, uma vez que a indústria mundial está cada vez mais sofisticada e os produtos mais complexos. Na visão do empresário, a continuidade de desenvolvimento econômico do Brasil pode não acontecer por falta de pessoas qualificadas.

Segundo uma pesquisa divulgada recentemente pela consultoria de recursos humanos Manpower, o Brasil é o terceiro país no mundo com maior escassez de talentos: 57% dos empregadores consultados na pesquisa disseram ter dificuldades para preencher vagas, principalmente por causa baixa qualificação da mão de obra. É a proporção mais elevada registrada no hemisfério ocidental. À sua frente estão o Japão (com 80%), onde o envelhecimento da população reduz a oferta de força de trabalho, e a Índia (67%), polo de grande atividade econômica emergente. Em termos globais, 34% dos empregadores disseram ter dificuldades em preencher posições por falta de talento disponível.

Atrasos em educação
Todos os países do Bric enfrentam grandes desafios para qualificar sua mão de obra, mas nenhum está tão atrasado em educação quanto o Brasil. O país é o único do bloco a não ter nenhuma instituição de ensino superior entre as cem mais bem avaliadas por acadêmicos no mundo todo, segundo o ranking divulgado pela londrina THE (Times Higher Education), principal referência no campo das avaliações de universidades no mundo. A Rússia aparece com a Universidade Lomonosov, de Moscou, no 33º lugar. A China tem cinco universidades no ranking. A melhor é a Tsinghua, de Pequim, que ocupa a 35ª posição. O Instituto Indiano de Ciência aparece como 91º colocado. A pesquisa ouviu 13.388 acadêmicos de 131 países para chegar à lista das universidades com melhor reputação.

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O diretor de Relações Corporativas Internacionais da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), Nelson Savioli, acredita que o governo precisa acelerar as medidas voltadas para preparação dos trabalhadores do futuro. “Essa é uma desvantagem competitiva do Brasil e já compromete vários setores”, afirma. Segundo ele, o país tem pouca gente com educação formal ante o progresso que o país pode ter nos próximos anos. Esta questão, aliás, foi discutida durante evento realizado no início do mês passado pela ABRH-Nacional. Os esforços para reter capital humano e desenvolver talentos foram apontados como o principal desafio das empresas brasileiras até 2015 em levantamento feito pela Deloitte. Segundo José Paulo Rocha, sócio líder da área de finanças corporativas da consultoria, o Brasil tem como vantagem uma oferta crescente de força de trabalho devido à juventude da sua população, mas a baixa qualificação é um problema crescente para as empresas.

Para ganhar tempo, a iniciativa privada está se aproximando das universidades, além de investir mais pesadamente em treinamento. Segundo Alexia Franco, diretora da Hays Brasil, empresa de recrutamento, muitas empresas mandam funcionários para treinamento no exterior ou trazem pessoas de outros países para dar cursos no Brasil. “É uma forma de acelerar o processo de formação, mas de qualquer forma prevemos um gap considerável no mercado de trabalho”, afirma. Esse cenário tem trazido de volta ao Brasil executivos que haviam deixado o país em busca de trabalho no exterior. Segundo Alexia, a maioria das oportunidades é para cargos sênior porque é difícil encontrar pessoas com experiência no mercado interno. A falta de pessoas com esse perfil é mais gritante em setores como construção, energia e óleo e gás, em que existe um grande número de pessoas jovens ocupando cargos altos, mesmo com pouca experiência. Como consequência, surgem problemas de gestão e também de nível técnico, já que os encarregados não têm grande vivência na área.

Conhecida como o país da mão de obra barata, a China trabalha para mudar de perfil. A ideia é transformar o padrão “made in China” em “created in China”. E ainda existe a perspectiva de esse país passar o Japão e os EUA no que se refere à inovação em 2050

Exemplo chinês

Conhecida nas últimas décadas como o país da mão de obra barata, a China está trabalhando para mudar o perfil da sua economia. A ideia é transformar o padrão “made in China” em “created in China”, com maior uso de tecnologia, valor agregado e criação de marcas com boa reputação, de acordo com relatório divulgado pela consultoria The Boston Consulting Group. Para isso, será preciso desenvolver e atrair novos talentos. Segundo a diretora do Instituto de Estudos Brasil-China, Anna Jaguaribe, a China se ressente da falta de profissionais no setor técnico de nível médio, e está trabalhando para oferecer treinamento nessa área. No entanto, grande parte da lição de casa está adiantada, pois as universidades locais receberam grandes incentivos do governo desde os anos 80. 

O primeiro salto ocorreu no campo das ciências e da engenharia, que é uma tradição dos chineses. Segundo Anna, todos os grandes líderes da história da China eram engenheiros. Em seguida, o país apostou no ensino superior nas áreas de biologia, medicina, nanotecnologia, genética e informática. O terceiro passo, a partir de meados dos anos 90, foi desenvolver as universidades na área das ciências sociais. Segundo ela, a China começa a se destacar em economia, sociologia e história.

A grande obsessão dos chineses, atualmente, é criar os produtos que são criados localmente, o que deve ser atingido no longo prazo. “Existe a perspectiva de que a China passe o Japão e os EUA em inovação em 2050”, afirma. O objetivo é deixar para trás o estigma de força de trabalho barata e foco em exportação, dando espaço para a mão de obra especializada e inovadora, mais baseada no mercado doméstico.  “A China está se exaurindo de mão de obra barata e vai precisar cada vez mais de pessoas mais especializadas devido ao avanço da indústria”, observa Anna. Na visão dela, a principal diferença entre o Brasil e a China é o planejamento. “Os chineses se preparam para o que acreditam ser a próxima etapa do seu desenvolvimento”, diz. Outra diferença é que o Brasil terá de lidar com diferentes desafios ao mesmo tempo, já que precisa aprimorar outros itens prioritários, como a infraestrutura.

Em junho de 2010, o governo chinês divulgou seu plano de desenvolvimento de talentos para criar uma força de trabalho qualificada para a próxima década, chamado The National Medium – and Long-Term Talent Development Plan (2010-2020) . É o primeiro programa nacional para recursos humanos do país. A China planeja aumentar sua oferta de talentos dos atuais 114 milhões de pessoas para 180 milhões de pessoas em 2020. Segundo Elias Jabbour, doutor em geografia humana pela USP, o Brasil também deve pensar a educação como parte de um projeto nacional de desenvolvimento, para garantir uma relação de equilíbrio entre a oferta de trabalhadores qualificados e o mercado de trabalho. Ele afirma que a China tem um projeto muito claro, que incluiu investimentos de 130 bilhões de dólares em educação básica e média nos últimos oito anos.

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Índia tem alta rotatividade
Assim como o Brasil, a Índia enfrenta grandes desafios para desenvolver seus talentos. Com um crescimento econômico acelerado, as empresas têm dificuldade de encontrar profissionais indianos sênior, especialmente no setor de Tecnologia da Informação (TI). O presidente da Stefanini IT Solutions, multinacional brasileira no setor de TI, Marco Stefanini, conta que a oferta de profissionais sênior na Índia é muito baixa, o que torna os salários muito elevados. Por essa razão, 70% a 80% da mão de obra das empresas de TI locais é composta por empregados júnior. Para lidar com isso, a Stefanini tem apostado na formação dos seus próprios talentos. Outra diferença é rotatividade mais intensa dos trabalhadores indianos, fruto também do mercado mais aquecido. A Stefanini começou a atuar na Índia em 2007, e acaba de reforçar sua equipe local com a compra da americana CXI, que já atuava naquele mercado. Hoje, a companhia conta com cem pessoas na sua equipe indiana. O executivo destaca que existem universidades de alto nível na Índia, mas que a falta de proatividade dos trabalhadores locais é um fator negativo em comparação com os brasileiros. “A atitude do brasileiro, mais interativo e proativo, compensa a fragilidade educacional”, afirma. Ele atribui a postura indiana à cultura de castas, que impõe uma hierarquia muito rígida às pessoas.

De acordo com Stefanini, o menor custo e os incentivos fiscais dados pelo governo indiano às empresas são outra grande diferença em comparação com o Brasil. Na sua visão, os dois países sofrem um apagão de talentos, mas ao menos a Índia está crescendo muito, ao contrário do Brasil. O próximo passo da empresa no mercado internacional será fortalecer sua posição na China. Recentemente, a Stefanini comprou a americana Tech Team, com atuação no mercado chinês. A intenção é expandir a atuação da companhia para atender multinacionais instaladas no país.

Parceria acadêmica russa
O alto nível de escolaridade na Rússia, resquício do regime socialista, é uma grande diferença em relação aos outros países do Bric. O analfabetismo local é de 0,6%; o nível superior é uma realidade para 60% da população, enquanto 25% dos russos têm doutorado. No Brasil, o percentual da população com nível superior é de cerca de 30%. O país tem restrições para se conectar com o mundo, como a barreira do idioma e os resquícios do período de autoritarismo, mas certamente não tem os mesmos desafios que o Brasil quando o assunto é educação.

Segundo o presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Brasil-Rússia (CBR), Gilberto Ramos, existe uma interação muito grande dos russos com a China e a Índia na área acadêmica, mas o mesmo não ocorre com o Brasil porque os diplomas russos não têm reconhecimento oficial em nosso país. Para mudar esse quadro, os países assinaram recentemente um compromisso de incentivar contatos diretos entre entidades de ensino superior e instituições públicas de fomento dos dois países, visando ao incremento do intercâmbio de professores, pesquisadores e estudantes, bem como de pesquisa científica, tecnológica e laboratorial. O compromisso foi feito pelo vice-presidente Michel Temer e o primeiro-ministro Vladimir Putin, na V Reunião da Comissão Russo-Brasileira de Alto Nível de Cooperação. “A Rússia pode ser um grande parceiro estratégico do Brasil”, afirma.


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