Gestão

O melhor passo é o seguinte

Paulo Jebaili
16 de dezembro de 2009
Micael Dahlén: cada vez mais, as ideias que temos a nosso respeito são determinadas pelas expectativas do que vai acontecer amanhã

Steve Jobs, CEO da Apple, anunciou o lançamento do iPhone seis meses antes de o produto chegar às lojas. Nesse período, aconteceram mais de 70 milhões de buscas com o nome da traquitana no Google. Dois meses antes de estar disponível, já aparecia como o celular com a mais alta cotação dada por consumidores numa pesquisa realizada por uma revista especializada em tecnologia. Um mês antes do lançamento, mais de 1 milhão de consultas sobre o produto haviam sido feitas junto aos distribuidores. Quando, afinal, pôde ser adquirido, o iPhone custava 599 dólares. Dois meses depois, o usuário precisa desembolsar 399 dólares. É com esse exemplo que o professor sueco Micael Dahlén abre seu mais recente livro, intitulado Nextopia (Editora Volante QNB Publishing, não lançado no Brasil). Na obra, Dahlén analisa o comportamento de uma sociedade sempre ávida pela próxima coisa – seja um produto tecnológico, um filme, um disco. Ele investiga, por exemplo, por que o Metallica arrebata o disco de platina antes mesmo de o álbum ser lançado ou quais os motivos que levam produtores de Hollywood a anunciar filmes que só estarão nas telas anos depois. Professor de marketing e comportamento do consumidor, da Escola de Economia de Estocolmo, na Suécia, Dahlén constata que esses são típicos fenômenos daquilo que chama de Sociedade da Expectativa, na qual a melhor coisa (seja um produto ou a sua performance) será sempre a que está por vir.

Alguns aspectos de Nextopia estão abordados na entrevista a seguir, concedida por e-mail à MELHOR. Nela, Dahlén também fala sobre a criatividade, tema de seu livro anterior, Creativity unlimited (Editora Wiley, não lançado no Brasil, mas que poderia ser traduzido como Criatividade ilimitada). Nesta obra, o acadêmico derruba a máxima de que os avanços criativos só são obtidos quando se “pensa fora da caixa”. A recomendação do professor é que se pense “dentro da caixa”.

MELHOR – Esperar pelo próximo passo parece fazer parte de nossas vidas desde que os conceitos de progresso e de evolução tornaram-se parte da sociedade. Mas que condições determinam o surgimento da Sociedade da Expectativa?
Dahlén – É verdade. Uma forte crença na Nextopia, de que aquilo que vem a seguir será sempre o melhor, é que guiou a humanidade através da evolução e o que nos tem feito progredir de forma tão bem-sucedida. Isso nos fez a espécie dominante do planeta, fez as economias prosperarem; basta observar o fato de o PIB ter mais do que triplicado em 90% das economias do mundo nos últimos 30, 40 anos, tudo por conta de continuarmos nos movendo para a frente em passo implacável na busca da próxima grande coisa. E, por volta da virada do século, alcançamos um nível nas economias em termos de poder aquisitivo e, ao mesmo tempo, atingimos um nível de conectividade (mais acentuadamente pela internet) que nos levou ao que chamo de “o mundo do qualquer” – em que qualquer um, em qualquer lugar, acessa qualquer coisa, a qualquer tempo. E em um lugar onde qualquer coisa está disponível e acessível a qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer tempo, nós tendemos a perder o interesse no que existe e passamos a focar a única coisa que não pudemos alcançar ainda – a próxima coisa. E, cada vez mais, o que desejamos, nossos comportamentos, as ideias que temos a nosso respeito, são determinados pelas expectativas do que vai acontecer amanhã, mais do que sobre aquilo que ocorreu ontem ou hoje.

Assim, construímos uma Sociedade da Expectativa, muito presente na atual lógica de negócios, na política, nas escolas de carreiras e até mesmo nos relacionamentos afetivos.

MELHOR É um caminho sem volta?
Dahlén – Sim, a Nextopia é um caminho sem volta. Isso é o que fez a espécie humana e a sociedade chegarem até aqui. O meu estudo e outros mostram, inclusive, que pessoas que são mais propensas a pensar muito no amanhã e em acontecimentos futuros (mais do que os atuais e passados) são mais bem-sucedidas nos namoros e no casamento (vistos como mais atraentes, têm um número maior de parceiros mais propensos a se casarem – embora tendam a se divorciar também), em suas carreiras (são promovidos com mais frequência e têm maiores salários), e vivem mais e com mais saúde (por exemplo, têm 75% menos riscos de ficarem resfriados). É como se fosse o clássico exemplo de Einstein – quando você vê um trem passando, ele parece estar muito rápido, mas quando você está dentro do vagão, não parece estar tão veloz assim. A sociedade tem mudado com tanta velocidade nos últimos anos que muitas pessoas se tornaram espectadores – “Uau, está se movendo rápido, e isso tem de acabar mais cedo ou mais tarde”, mas quando estamos inseridos, isso se torna parte natural de nossas vidas e da percepção que temos de nós mesmos, que não acreditamos ser um movimento reversível.

MELHOR Que perfil de profissionais as empresas que alimentam a Sociedade da Expectativa demandam?
Dahlén – Profissionais conectados e sem medo, que estão menos preocupados com as conquistas do passado e com a situação atual, e mais interessados em explorar novos caminhos. Os profissionais da Sociedade da Expectativa são todos empreendedores, independentemente de estarem empregados em uma grande empresa ou trabalharem por conta própria. Como o mundo gira muito rápido atualmente, é preciso estar pronto para explorar novos rumos a qualquer momento, em vez de ficar concentrado no passado ou no presente. Essa é a ideia de gestão do Google, por exemplo, onde todos os funcionários têm seus próprios orçamentos anuais para experimentar coisas novas, e assegurar que o Google jamais deixará de progredir. Em um mundo em que a Spotify pode começar como o projeto de dois caras num porão e se tornar a empresa de música mais interessante do mundo (avaliada em bilhões de dólares) em menos de um ano, percebe-se que as conquistas do passado e do presente não são tão importantes. Não são mais necessárias décadas para que as empresas se estabeleçam ou desapareçam; deste modo, não existe mais necessidade de administradores dos milênios passados (aquelas pessoas que administravam e mantinham em andamento aquilo que já havia sido criado). O que as empresas precisam é de empreendedores que descubram  novos caminhos num ambiente em que os negócios vingam ou se deterioram do dia para a noite.

MELHOR Uma das lições do livro Nextopia é Nunca aprenda com seus erros. O que as pessoas deveriam fazer então?
Dahlén – Isso significa: 1) Não colocar o foco no que aconteceu ontem – do jeito que o mundo está rápido, o que você aprendeu ontem pode estar totalmente ultrapassado hoje ou amanhã. Aquilo que não era possível ontem pode ser perfeitamente possível amanhã e vice-versa. Desse modo, o que poderia parecer um erro ontem pode ser um grande sucesso amanhã. 2) Nunca veja suas ações como erros, porque essa visão reduz o seu drive e a sua iniciativa – o medo de falhar leva as pessoas a manter o status quo, o que é um pecado mortal na Sociedade da Expectativa, em que não estamos interessados em mais do mesmo, queremos a próxima boa coisa. Em qualquer que seja a situação, não pense em termos de evitar fazer a escolha errada; em vez disso, perceba que, no mundo do qualquer, você tem inúmeras oportunidades, em qualquer lugar, a qualquer momento!

MELHOR No seu livro anterior, Creativity unlimited, em vez do tão propalado “pensar fora da caixa”, o senhor propõe “pensar dentro da caixa”. Como é essa abordagem?
Dahlén – Pensar fora da caixa sugere que nos libertemos daquilo que conhecemos, enquanto pensar dentro da caixa significa usar o que conhecemos de novas maneiras. Pesquisas, e a história, mostram que todas as grandes rupturas criativas e inovações são geradas por pessoas muito capacitadas e familiarizadas com aquilo que fazem. O problema para a maioria de nós é que não usamos nossas habilidades e conhecimentos de novas maneiras.

MELHOR A proposta é expandir a caixa, preencher a caixa, chacoalhar a caixa. O senhor poderia nos dar um exemplo de como isso funciona?
Dahlén – Expandir a caixa significa perceber que existem modos alternativos de fazer aquilo que você já faz – a maioria tende a pensar que há apenas um modo de fazer o que fazemos. Tome o exemplo do salto em altura: até os anos 1960, todo mundo pensava que a única maneira de ultrapassar a barra era mergulhar sobre ela, com a cabeça primeiro. Preencher a caixa significa usar quantas peças do quebra-cabeça forem possíveis – desconstruir o movimento do salto em altura em suas partes elementares: você precisa ser veloz e ser capaz de elevar o corpo rapidamente. A velocidade você adquire ao correr; usar a velocidade, mas ter o tempo para elevar-se, significa não fazer isso na mesma direção (correr lateralmente em direção à barra), erguer o corpo de costas é mais rápido do que de frente. Chacoalhar a caixa significa tentar encaixar as peças do quebra-cabeça de novas maneiras: velocidade + impulsão = saltar de costas. Entra em cena a técnica do salto de costas, ou somente, o salto de costas, que elevou o nível do salto em mais de 100%.

MELHOR Quais os obstáculos mais comuns nas organizações a um ambiente favorável para a criatividade?
Dahlén – Vejo três: a crença de que as rupturas criativas podem não ser sistemáticas (esperar pelo melhor, como se viesse por acaso, ou realizar esforços extraordinários ocasionalmente, em vez de várias ações pequenas e sistemáticas); interação mínima entre todas as áreas da organização, de modo que elas não possam ver a outra como possibilidade de tentar novos caminhos; e carta branca total (de modo que as pessoas, ao terem uma oportunidade, ficam estressadas e bloqueadas).

MELHOR Que alternativas, além de sair, uma pessoa criativa tem quando trabalha numa empresa em que a criatividade não é estimulada?
Dahlén – Lembre-se de que a criatividade e as grandes sacadas não significam fazer alguma coisa radicalmente diferente. Os maiores sucessos são geralmente mais gradativos. As melhoras graduais não são tão desafiadoras e onerosas para as empresas se ajustarem. Elas são apostas seguras e levam as empresas e seus funcionários à frente. Uma melhora gradual criativa por dia leva a empresa bem mais longe do que uma grande sacada anual. Pelo lado do funcionamento da mente, o estímulo é o mesmo, vindo tanto de pequenos passos criativos quanto daqueles grandes saltos, o que significa que dois ou três pequenos passos dão um impulso muito maior do que um grande salto.

MELHOR Os gestores podem contribuir para que uma empresa se torne mais criativa?
Dahlén – Definitivamente, sim. Não necessariamente ao dar carta branca aos funcionários (que pode levar a uma espécie de bloqueio criativo), mas ao propiciar processos para a criatividade. Um processo simples é aumentar o intercâmbio entre colegas de trabalho. Invariavelmente, pessoas diferentes com conhecimentos e competências distintas podem usar as mesmas ferramentas e aplicá-las (peças do quebra-cabeça) de maneiras diferentes e eficazes. Mas, muitas vezes, nós sequer temos conhecimento de que essas peças do quebra-cabeça existem, porque pertencem a outras pessoas e nem ficamos sabendo.

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