O melhor trabalho do mundo

0
450

Num voo de três horas, puxo conversa com a pessoa ao lado, um VP regional de vendas de uma grande empresa de tecnologia americana. Ele fala sobretudo da sua vida executiva, com detalhes do mercado, América Latina e Brasil, e de aspectos técnicos dos produtos e serviços que vende. E o faz com um brilho nos olhos que empolgaria até mesmo o mais cético dos fundamentalistas antitecnologia. O que ele fazia e como fazia tinha um significado contagiante. E foi só depois de uma hora de conversa que ele falou sobre a família, as duas cadelas Shih Tzu, a casa e demais aspectos pessoais. Mas voltou logo ao cerne da conversa, o trabalho, quando demonstrou como equilibrava bem as viagens internacionais e os dias fora de casa com as demandas e exigências familiares.

Passei a analisar a forma como ele se portou, comparando-a com diversas situações parecidas, de outras viagens minhas. Ou seja, com outros executivos que têm a mesma abordagem e brilho nos olhos quando falam de seu trabalho. O interessante é que as reclamações, como remuneração, viagens etc., existem, mas são suplantadas por um intangível que gira em torno de fazer algo maior, de ser parte, de influenciar decisões, de implementar mudanças, de conduzir pessoas, de fazer crescer os negócios.

Óbvio que não há fundamentação estatística nisso tudo, pois se baseia mais em minha experiência, mas me julgo com alguma licença poética para discorrer sobre o tema, pois me incluo no rol dos que também têm um brilho no olhar quando o assunto é o trabalho. O que temos em comum? Creio que se juntarmos dois grandes teóricos sobre processos organizacionais, somados a alguma experiência do que vi e sigo vivendo, podemos encontrar uma resposta.

Paul Evans, professor do Insead, acredita que temos de buscar, consistentemente, o amor, o humor e o significado em tudo que fazemos, principalmente no trabalho, dado o volume de tempo que investimos aí. Já Alain de Botton, escritor e filósofo suíço, trata, em The pleasures and sorrows of work (Os prazeres e as agruras do trabalho), da peculiaridade, da beleza e do horror do local de trabalho moderno e, também, da extraordinária ideia de que ele é, ao lado do amor, a nossa principal fonte de sentido na vida. O “horror” mencionado por Botton rememora os gregos, para os quais o trabalho era uma atividade menor – para Aristóteles, ter de trabalhar para ganhar a vida colocava as pessoas na mesma posição dos escravos ou dos animais. E a origem da palavra trabalho, aliás, está no latim e viria de um instrumento de tortura chamado tripalium.

De qualquer forma, concordo com ambos e agregaria somente um ponto: além de ter brilho nos olhos, deve fazer brilhar os olhos dos outros. Esse é o grande significado que todos deveriam buscar. Confesso que tenho o melhor trabalho do mundo. E você também! Todos que fazem o que gostam e impactam vidas direta ou indiretamente têm o melhor trabalho do mundo. Basta verificar se seus olhos brilham quando você fala sobre o que faz. Para isso, você precisará “apenas” fazer brilhar os olhos das pessoas com quem trabalha!

*Marcos Nascimento é partner at Manstrategy Consulting, expert em desenvolvimento e alinhamento de  top teams

[fbcomments]