O poder delas

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    Catarina,da Ticket: “Não há como negar que somos, naturalmente fortes e determinadas”

    Com uma filha de seis anos e outra de 15, Marly Vidal Macedo consegue administrar muito bem a sua rotina. Ela leva as meninas à escola todos os dias, almoça em casa com as duas e, ao mesmo tempo, exerce seu papel de líder como superintendente de gestão e RH do Laboratório Sabin. E ainda sobra espaço na agenda para “bater ponto” todos os dias na academia. “É possível administrar todos os compromissos, principalmente se você consegue manter na empresa uma metodologia de trabalho focada em resultados”, afirma, destacando que na companhia em que atua há 20 anos a mulher não precisa se sentir obrigada a escolher entre ser mãe ou ter uma carreira.

    Marly fala com propriedade, pois só no ano passado 44 profissionais do laboratório engravidaram. “É difícil gerenciar um cenário como esse? Não vou dizer que não é, mas podemos conciliar interesses. A primeira coisa que muitas empresas pensam ao receber a notícia de que uma colaboradora está grávida é no absenteísmo, quando, na verdade, a primeira pergunta deve ser ´como participar neste momento?´, pois gravidez não é doença, faz parte da vida de uma mulher”, avalia.

    Para dar suporte às futuras mães, o Laboratório Sabin promove ações como o Programa Gestação, que mensalmente fornece orientações com obstetras e outros profissionais sobre a importância da atividade física, da boa alimentação, entre outros temas; e o auxílio babá, criado após a percepção de que o auxílio creche não supria todas as necessidades das funcionárias.

    Tais programas e benefícios, além de manterem as mães motivadas no ambiente de trabalho, ainda atuam como uma importante política de retenção de talentos para a organização. Atualmente, o sexo feminino ocupa 72% dos postos de trabalho do laboratório e 77% dos seus cargos de liderança estão nas mãos de executivas. “O percentual alto de mulheres reflete o perfil da nossa empresa, cuja maioria do público é feminina. Nossa política é igualitária. Quando surge uma oportunidade, é promovido quem está mais preparado. No entanto, o que percebemos é que a mulher hoje também vem se destacando em termos de qualificação, basta observar nas salas de aula dos cursos de graduação e pós-graduação, nos congressos, nos workshops que o mercado oferece – a maioria do público é composta por mulheres. Talvez, para conquistar o seu espaço, elas estão mais ´aceleradas´ nesse sentido”, reflete Marly.

    Flexibilidade
    A retenção dos talentos femininos é uma preocupação também da Central Nacional Unimed, que tem no aprimoramento do trabalho das colaboradoras um dos seus pilares de sustentação. “Nesse sentido, é importante que elas se sintam valorizadas e reconhecidas, procuramos oferecer benefícios e programas de desenvolvimento que garantam à mulher sentir-se mais segura e feliz”, ressalta o presidente da CNU, Mohamad Akl. “Trabalhamos para que elas tenham flexibilidade para conciliar a vida profissional sem deixar de lado a vida pessoal. O objetivo é que elas possam cada vez mais se desenvolver, se preparar para novos desafios e ter a possibilidade de seguir uma carreira de sucesso.”

    Com 65,5% de seus quadros ocupados pelo sexo feminino, a organização promove anualmente, desde 2007, o programa Mulheres Gestoras, no qual as profissionais participam de dinâmicas e são convidadas a discutir amplamente o papel da mulher no mercado de trabalho, buscando a melhoria da integração do grupo, do relacionamento, da conquista de resultados e até da qualidade de vida da equipe.

    Outro exemplo de companhia que desenvolve ações específicas para o seu público interno feminino é a Ticket. Com 65,5% de mulheres em seu quadro de funcionários, a empresa oferece acompanhamento da gestante até o parto e, depois do nascimento do bebê, fornece um “kit maternidade” e todas as vacinas do calendário oficial do governo no primeiro ano de vida. Além disso, a organização aderiu em 2010 ao Programa Empresa Cidadã, possibilitando às futuras mamães optarem pela licença-maternidade de seis meses. “Na prática, o que fazemos é tratar grupos de colaboradores conforme a necessidade, e as mulheres têm necessidades diferentes”, destaca a gerente de benefícios e proteção à saúde da Ticket, Catarina Jacobs. “O maior desafio é o mesmo em toda empresa, manter o interesse e a satisfação dessas colaboradoras. Uma equipe motivada tem mais incentivo para permanecer na empresa.”

    Silvia, da Nutrin: o compartilhamento do poder decisório com as mulheres

    Costela de Adão
    Nem todas as mulheres, porém, atuam em companhias ou em setores em que a arte de conciliar filhos e trabalho é uma tarefa relativamente fácil – o que vem estimulando muitas profissionais a adiar o projeto do casamento e da maternidade. Esse é o caso da Cristiane Silva, gerente elétrica da Colossus Mineração. Com 32 anos e nascida na Paraíba, a engenheira trabalha em Serra Pelada, no Pará, durante períodos de 50 dias, seguidos de dez dias de folga, coordenando uma equipe de três homens na montagem elétrica de uma usina e das linhas de transmissão da empresa, uma função que antes era exercida exclusivamente pelo sexo masculino. “Passar esse tempo todo longe do mundo não é fácil, mas o trabalho é desafiador e muito motivador. Sem dúvida, é hoje a minha grande realização pessoal”, enfatiza, explicando que quando está no Pará acorda antes de o sol nascer e, muitas vezes, emenda dia e noite.

    Cristiane conta que, no início, ao assumir o cargo de liderança, teve problemas com um dos funcionários da sua equipe. “No começo da minha carreira, um rapaz que trabalhava comigo era muito religioso, e uma vez me disse que nós mulheres devíamos obedecer aos homens, e não o contrário, pois nascemos da costela de Adão. Resolvi rapidamente o problema transferindo-o para outro setor”, relata.

    Como características femininas valorizadas no ambiente de trabalho, Cristiane destaca a sensibilidade de enxergar diferentes talentos em diferentes pessoas; a capacidade de observação e de organização; e a visão detalhista da realidade – atributos importantes para a execução de um projeto mineral; não é à toa que o sexo feminino já representa 20% do quadro de funcionários da Colossus, exercendo desde cargos de chefia até atividades e funções como técnicas de segurança no trabalho, apontadoras, controle e monitoramento ambiental, entre outras. O diretor da companhia, Darci Henrique Lindenmayer, adiciona itens na lista de habilidades iniciada por Cristiane: “Toda mulher é muito mais disciplinada e determinada que o homem e vale ressaltar também que elas hoje nos superam também em termos de qualificação, acho até como uma forma de quebrar o tabu que existia no passado em relação à sua presença no mercado de trabalho”, afirma.

    Sobre a vontade de ser mãe, a engenheira elétrica diz que ela até existe, mas não tem planos e nem pressa. “Eu sou uma pessoa feliz, e consigo equilibrar o trabalho com a minha vida pessoal. Quando não estou na usina, viajo, saio com minhas amigas, ou fico na praia só curtindo a preguiça. Meu objetivo de vida no momento é organizar minhas finanças. Se um dia quiser casar e ter filhos, já estarei preparada”, explica. “Mas, sinceramente, não acredito em um único padrão de felicidade, não necessariamente tem de envolver casamento e maternidade.” Muitas mulheres parecem ter o mesmo raciocínio que a engenheira elétrica: segundo o IBGE, a entrada do sexo feminino no mercado de trabalho contribuiu para a diminuição no número de filhos por casal no Brasil. Enquanto nas décadas de 1950-60 uma mulher, em média, possuía de 4 a 6 filhos, hoje em dia um casal possui um ou dois filhos, em média.

    Empreendedorismo
    A psicoterapeuta Adriana Scatone alerta que, apesar dos avanços, muitas mulheres ainda são cobradas no ambiente de trabalho a adotar uma postura essencialmente masculina.

    “Acredito que a sociedade está mais aberta para os modelos femininos e as mulheres realmente estão conquistando mais espaço. A ´masculinização´, porém, ainda existe nos locais de trabalho em que mulheres precisam produzir e se adequar a modelos que ainda colocam a vida familiar em detrimento, com longas jornadas de trabalho, sobrecarga de estresse e competitividade, o que as deixa inseguras em relação a assumir mais uma grande responsabilidade como a de ser mãe, pois não se sentem amparadas e com espaço para se entregarem confortavelmente a essa tarefa.”

    Uma opção que vem sendo cada vez mais considerada pelas mulheres que não conseguem conciliar suas carreiras nas empresas com filhos, mas também não querem adiar ou “sacrificar” a maternidade, é o empreendedorismo. O último levantamento feito pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM), um consórcio internacional que mede a evolução do empreendedorismo em diversos países, afirma que em 2009 o percentual de mulheres empreendedoras (53%) era maior do que de homens (47%) e o mais importante: o estudo enfatiza que nesse ano foi a primeira vez que o número de mulheres empreendedoras “por oportunidade” superou o de homens – ou seja, enquanto em um passado recente, a profissional acabava abrindo seu próprio negócio “por necessidade”, já que não encontrava com facilidade um emprego no mercado de trabalho, hoje esse caminho passou a ser uma escolha.

    “Não há nada que comprove que as mulheres sejam mais líderes do que os homens, mas não há como negar que somos, naturalmente, fortes e determinadas”, aponta Catarina, da Ticket. “Hoje, o que podemos ver é uma crescente presença feminina em postos de trabalho antes ocupados por homens, como na construção civil, ambiente antes exclusivo deles. Além disso, várias empresas têm investido na capacidade de adaptação das mulheres, em seu dinamismo, no desempenho de várias funções ao mesmo tempo e, claro, na sensibilidade como gestoras. Somos mais atentas ao humano, o que pode ser um grande diferencial para o mercado de trabalho, cada vez mais direto e frio. Nós agregamos sentimento a todas as funções que desempenhamos.”

    Imaginação, criatividade, sensibilidade, percepção, entender o outro são aspectos que fazem a diferença. “O compartilhamento do poder decisório com as mulheres é visto de forma positiva, pois essas características são fortes no sexo feminino e, querendo ou não, trazem vantagens no mundo corporativo”, diz Silvia Conti, diretora de RH da Nutrin, companhia especializada em soluções de alimentação empresarial. E ela fala com conhecimento de causa: a empresa, com sede em Americana (SP), vê uma relação direta entre o crescimento de seu faturamento em 2010, com o fato de que 90% dos seus 3,5 mil funcionários serem representados por mulheres.

    Equacionar o dia a dia
    Embora haja reconhecimento sobre a crescente importância do sexo feminino nas organizações, os dados mostram que essa valorização ainda não é refletida nas remunerações. Levantamento feito pela Catho Online, em 2010, mostra que o sexo masculino recebe, em média, um salário até 70% superior ao que é oferecido às mulheres, enquanto 63,2% das colaboradoras possuem graduação e pós-graduação, contra 55,3% dos homens. A pesquisa foi realizada com mais de 164 mil respondentes, de mais de 20 mil empresas.

    Algumas gestoras percebem também que, apesar dos muitos avanços, ainda existe uma certa cultura de resistência no ambiente corporativo.  No meu ponto de vista, o homem ainda precisa crescer muito no que toca à convivência com o sexo feminino no ambiente de trabalho. Há, ainda, para muitos deles, o viés sexista que impede uma visão isenta da mulher no exercício pleno de suas potencialidades profissionais”, comenta a gerente de marketing da Flex do Brasil, Bete Bustamante.

    Para ela, as mulheres precisam buscar também equacionar o dia a dia no cenário doméstico. “É fato que as mulheres, ainda hoje, se desdobram mais do que os homens para lidar com as demandas da vida pessoal e profissional. Os homens sempre foram amparados pela estrutura doméstica oferecida pelas mulheres, que deram a eles a tranquilidade para exercer seu crescimento profissional pleno”, reflete. “Para o homem, existe a novidade de não ter à disposição o conforto no formato ´padrão´, enquanto a mulher precisa administrar a divisão interna entre suas buscas pessoais e suas responsabilidades familiares. Não há conselhos para isso. Há apenas a maneira madura de tentar equacionar, no ambiente familiar, pelo diálogo e divisão de tarefas, um melhor caminho para estas realizações.”

    A superintendente de gestão e RH do Laboratório Sabin enfatiza que, hoje, a mulher não tem mais de imitar o homem. “O sexo feminino tem a habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Ela sabe que tem o seu espaço, seja no ambiente profissional, ou na vida do marido e dos filhos. Não precisa mais ser um homem de saia; ela tem o seu diferencial”, diz.

    O coração do negócio
    Empresa especializada em soluções de alimentação empresarial, a Nutrin identifica uma relação direta entre seu crescimento de faturamento de 37%, em 2010, com o fato de que 90% dos seus 3,5 mil funcionários serem representados por mulheres. Características como organização, atenção aos detalhes, comprometimento, entre outras, fazem com que o sexo feminino esteja cada vez mais presente em cargos como, por exemplo, diretoria, gerência, coordenação, entre outros. “Sem a menor sombra de dúvidas, as mulheres aqui têm uma relação direta com o bom momento que a empresa vive. Até devido ao core business da empresa, refeições, praticamente sempre tivemos mais pessoas do sexo feminino do que masculino em nosso quadro de colaboradores. Entretanto, de algum tempo para cá, pudemos verificar uma interessante migração: em vez de estarem apenas em posições operacionais, as vemos cada vez mais ocupando altos cargos na empresa”, comenta Silvia Conti, diretora de RH da Nutrin. Para a executiva, se reter talentos é o grande desafio das empresas, reter os talentos femininos requer ainda mais cuidados, pois elas também são responsáveis pela administração da casa, família, filhos, marido etc. “Temos de oferecer um ambiente de trabalho de qualidade. Aqui, trabalhamos buscando a Felicidade Interna Bruta (FIB). Felizes com o trabalho, elas conseguem conciliar melhor as outras responsabilidades que, na maioria das vezes, já não são poucas”, diz.

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