O RH como clínico geral

18 de agosto de 2010

O tema do benefício saúde tem se transformado num terreno de difícil equilíbrio para o profissional de RH. Por um lado, é preciso oferecer programas de saúde que tornem o pacote de benefícios competitivo e, consequentemente, gere satisfação nos colaboradores. Por outro lado, o gerenciamento de custos tem se tornado imperativo, e o impacto da assistência médica nas contas das empresas vem crescendo ao longo dos anos. Encontrar uma solução para promover a saúde dos funcionários sem descuidar da saúde das
finanças tem sido um desafio e tanto para os profissionais de recursos humanos.

“A saúde é uma preocupação mundial porque seus custos sobem de acordo com a ´inflação da medicina´. Os avanços tecnológicos na área médica salvam vidas, prolongam a saúde, mas custam caro, e isso tem de ser muito bem administrado pelas empresas, sob pena de afetar seus balanços”, analisa Ronn Gabay, líder da prática de administração de benefícios da consultoria Hewitt Associates.

O comentário se baseia na pesquisa The road ahead: Under construction with increasing tolls (A estrada adiante: em obras com cada vez mais pedágios, em tradução livre), feita pela consultoria com 600 programas de benefício de saúde fornecidos por empregadores nos EUA, e tendo como base uma pesquisa com as tendências na área de saúde em 2010.

De acordo com o documento, o custo médio por empregado, que era próximo a 5 mil dólares em 2001, atingiu 10,7 mil dólares em 2009 e, caso não haja mudanças significativas, a projeção é que em 2019 essa conta chegará a 28,5 mil dólares. Segundo Gabay, embora a situação da assistência médica não esteja tão crítica no Brasil quanto nos EUA, a tendência é o encarecimento de custos e, por conseguinte, a procura de saídas pelas empresas para o gerenciamento mais adequado de custos.

Além do aumento nos custos dos serviços de saúde, existem outros fatores que tornam esse cenário ainda mais desafiador, como o envelhecimento da população e os níveis de sedentarismo e de obesidade que tornam o trabalhador norte-americano mais propenso a desenvolver doenças crônicas.

As principais tendências levantadas no estudo da Hewitt mostram que, para sair dessa sinuca, as empresas estão se mobilizando para incentivar comportamentos saudáveis dos funcionários (64%) e também para propor a divisão da conta com eles (43%).

Ao mesmo tempo, 80% dos consultados planejam investir significativamente no período de três a cinco anos em soluções de longo prazo que melhorem a saúde e a produtividade de sua força de trabalho. Mais da metade das empresas, entretanto, ainda não conta com uma estratégia bem definida para traduzir essa intenção para o dia a dia.

A pesquisa considera que a reforma do sistema de saúde nos EUA, recentemente promovida pelo governo Obama, melhorará o quadro no país, embora seus efeitos levem algum tempo para ser notados, o que também dependerá do nível de recuperação da economia norte-americana. Nesse contexto, o estudo captou perspectivas dos empregadores para os próximos anos. A seguir, um extrato dos comentários:

1 As empresas estão começando a explorar novas abordagens
Há um reconhecimento crescente de que programas e táticas mais novas, desenvolvidos sob medida para as necessidades específicas da força de trabalho de um empregador, oferecem a melhor oportunidade de estabelecer a base para um futuro diferente.

2 Nem todas estão preparando o terreno para uma nova direção
A maioria das organizações parece muito mais receptiva às táticas de curto prazo do que às abordagens estratégicas proativas de prazo mais longo para enfrentar essas preocupações crescentes. Os desafios de assistência médica que os empregadores enfrentam hoje exigem ações amplas, ousadas e sustentáveis por meio de uma série de etapas calculadas.

3 A maioria planeja investir significativamente
Apesar da economia atual, quatro em cinco empregadores (80%) planejam acelerar na “Superestrada” nos próximos três a cinco anos – definida como fazer investimentos significativos em soluções de longo prazo que visam melhorar a saúde e a produtividade de sua força de trabalho. A oportunidade de melhorar os resultados da assistência médica é fruto de um melhor alinhamento das táticas, abordagens e prioridades de saúde atuais com a estratégia de negócio, que é onde a maioria das organizações tropeça.

4 Gerenciar custos e melhorar a saúde são prioridades
“Gerenciar custos” e “manter os funcionários saudáveis” continuam sendo os principais tópicos de negócio e da força de trabalho dos empregadores para 2010. Os resultados da pesquisa indicam que os empregadores continuarão arcando com a maior parte da pressão de custo de assistência médica nos próximos anos. No entanto, uma vez que o custo de fornecer esse benefício continuará aumentando, os empregadores estão planejando transferir parte desse custo para os funcionários. “Aumentar o compartilhamento de custos com os funcionários” ocupou pela primeira vez uma das cinco principais prioridades de saúde nos próximos cinco anos. Porém, transferir custos é uma solução de curto prazo e não aborda os problemas subjacentes ou de sustentabilidade de longo prazo.

5 Estratégias de assistência médica não alinhadas às prioridades de negócio
Embora 80% dos respondentes acreditem que sua empresa esteja acelerando na “Superestrada”, muitas estão fazendo isso sem um destino claro. Menos da metade dos empregadores afirmou possuir um plano estratégico de assistência médica em vigor, e os planos de assistência médica atuais e futuros se concentram em oferecer “benefícios competitivos no mercado”. Entretanto, essa estratégia não se alinha bem com a principal prioridade de negócios mencionada de “gerenciar custos”, o que demonstra desconexão entre as metas de benefícios de RH e os objetivos globais de negócio.

6 Recompensas e castigos utilizados para impulsionar a mudança de comportamento
Uma das constatações mais transformacionais da pesquisa é que os empregadores estão demonstrando um apetite muito maior em utilizar incentivos e/ou sanções como uma forma de motivar a mudança no comportamento dos funcionários com o potencial de melhorar resultados e reduzir custos. Os empregadores estão começando a migrar para uma abordagem combinada de recompensas e castigos, mas terão de ampliar as táticas que utilizam para obter uma mudança de comportamento sustentável. O rápido crescimento na disposição dos empregadores em impor penalidades sugere que eles estarão exigindo cada vez mais dos funcionários, e potencialmente dos seus dependentes, nos próximos anos.

7 Dados para impulsionar a estratégia de assistência médica
Há um grande interesse dos empregadores em utilizar análises/dados mensuráveis para impulsionar a estratégia de assistência médica e, em última análise, a mudança no comportamento dos funcionários.
 
8 Os empregadores se preparam para cumprir os novos requisitos da reforma da saúde
No momento em que a pesquisa era aplicada, não estava claro qual seria o resultado da reforma da saúde. Assim, os respondentes esclareceram vários pontos. A cobertura universal foi preferida pela maioria dos empregadores, embora cerca da metade esperasse que a reforma incluísse uma disposição de combinação de cobertura do empregador e individual. Os empregadores acreditam que o sistema patrocinado por eles vá perdurar mesmo após a promulgação da reforma da saúde – mas a dinâmica competitiva desempenhará um papel importante em suas decisões.

A pesquisa traz uma analogia recorrente com estradas. E a partir dessa linguagem constata que, em 2008, as organizações tomaram o rumo de uma “Superestrada”, o que significa que visavam a soluções de longo prazo com o objetivo de melhorar a saúde e a produtividade da força de trabalho. No ano seguinte, houve uma ligeira redução da marcha, com foco em correções de curto prazo, sobretudo para reduzir somente o custo médico, com algumas organizações expondo a intenção de deixar de patrocinar diretamente os benefícios de saúde.

O relatório aponta, no entanto, que, após um ano, “aparentemente há um ressurgimento no número de empregadores que pretendem acelerar na ´Superestrada´ nos próximos três a cinco anos (80%) – um aumento de cinco pontos percentuais em relação ao ano passado. Na outra ponta do espectro, menos de um quinto (14%) das organizações afirma que se tiverem a chance abandonarão o patrocínio direto de benefícios de saúde [a chamada Via de saída] nos próximos três a cinco anos – uma diminuição de cinco pontos percentuais em relação a 2009”.

Ainda que a maioria pretenda trafegar na “Superestrada”, a pesquisa capta que apenas 42% dos empregadores contam com uma política de assistência médica ou plano estratégico formal em curso. De qualquer forma, uma melhora na comparação com o levantamento de 2007, quando esse índice era de 32%.

Oferecer benefícios de assistência médica dentro de um pacote de recompensas competitivo é um item fundamental para aumentar a capacidade de atrair e reter talentos. Mas há a necessidade de gerenciar custos. Uma forma para buscar um ponto de equilíbrio é chamar os empregados para ajudar a solucionar essa intrincada equação. A pesquisa constata que “os empregadores estão desafiando os funcionários a assumir maior responsabilidade pela sua própria saúde e buscando novos métodos para ajudá-los a fazer isso”. Tanto que o item “implementar uma cultura de saúde” apareceu em 2010 entre seus três principais componentes da estratégia de saúde e prevenção.

Ampliar o acesso a programas de melhoria de saúde e enfatizar os cuidados com doenças específicas aparecem como medidas de que as empresas estão dispostas a lançar mão. O levantamento mostra que 77% dos empregadores reportam focar enfermidades específicas, e, na maioria dos casos, mais de uma patologia. As mais citadas são diabetes, doenças cardiovasculares, asma e obesidade ou sobrepeso. O excesso de quilos parece estar chamando uma especial atenção das empresas: em 2009, essa preocupação era de apenas 7% das entrevistadas, em 2010, de 47% das entrevistadas.

Apesar de todas as indicações de que os empregadores têm a intenção de repassar mais custos para os funcionários, os resultados da pesquisa sugerem que os empregadores continuarão arcando com a maior parte do custo de assistência médica nos próximos anos. Na média, a parcela de prêmios paga pelos funcionários aumentou somente um ponto percentual no ano passado – de 23% para 24%.

Um outro ponto em que a pesquisa encontra uma certa desconexão entre intenção e prática é o interesse das empresas em mensurar a eficácia de suas estratégias de assistência médica. No entanto, 69% das entrevistadas não recebem relatórios abrangentes sobre programas de saúde e produtividade. “Atualmente, mais da metade dos empregadores utiliza principalmente medidas básicas, tradicionais, tais como a redução nas tendências de custos médicos (58%) e métricas de utilização de programas (57%), que são as mais fáceis de usar em termos de mensuração das transações, mas não necessariamente fornecem o entendimento necessário para avaliar os resultados e a eficácia do programa, ou, em última análise, impulsionar a estratégia de assistência médica”, diz o texto da pesquisa.

Mas existem indícios de que as empresas planejam uma medição mais acurada daqui para a frente: 53% querem analisar dados de riscos de saúde, de atitude/segmentação, de benchmarking, nos próximos três a cinco anos. A mensuração da eficácia de seus programas de melhoria da saúde por meio de um sistema de pontuação formal por parte dos funcionários está na mira de 85% das empresas. Segundo a pesquisa, isso demonstra que “os empregadores estão começando a pensar além das táticas financeiras e curto prazo”.

Uma forte tendência apontada pela pesquisa é o surgimento de uma cultura da saúde. Ainda que emergente, constatou-se um interesse maior em “adotar uma abordagem holística para melhorar tanto a saúde física quanto mental de suas forças de trabalho”. Atualmente, 53% das organizações incorporam um programa de gerenciamento de doenças ou de melhoria da saúde como parte da sua estratégia de saúde e produtividade. Do restante, 86% declararam que pretendem incluir esse item em sua estratégia nos próximos três a cinco anos. Mais da metade das organizações também planeja incluir o gerenciamento do absenteísmo e saúde comportamental na sua estratégia nos próximos
três a cinco anos.

Mensagens personalizadas
Foi aferido também que as empresas continuam oferecendo diversos programas de saúde aos funcionários e dependentes, mas houve um decréscimo no número de programas em relação a anos anteriores. A consultoria comenta que “a participação nos programas e os níveis de satisfação não são tão altos quanto os esperados, indicando que há espaço para melhoria nessa área”. E acrescenta que, uma vez que os funcionários e dependentes aumentam sua responsabilidade em assumir um estilo de vida mais saudável e tomar decisões sobre sua assistência médica, “é fundamental que estejam familiarizados com o sistema de saúde e entendam os programas e opções de assistência médica disponíveis para se tornarem consumidores de assistência médica informados”. Dentre as sugestões, a consultoria diz que os empregadores podem auxiliar nesses esforços por meio de mensagens personalizadas (por exemplo: lembretes incentivando exames e procedimentos preventivos), integrando fornecedores para melhorar o fluxo de informações e criando uma cultura da saúde no local de trabalho. Para isso, é preciso participação das lideranças para enfatizar a importância da saúde, condição fundamental para o engajamento dos funcionários nos esforços de melhorias.

Outra tendência captada pelo estudo da consultoria é da parceria entre empresas e funcionários, pautada pela relação em que o empregador oferece os benefícios mais generosos àqueles que estão empenhados em manter ou melhorar sua saúde. “Os empregadores estão aumentando o uso de incentivos e penalidades como forma de motivar a mudança comportamental dos funcionários com o potencial de melhorar resultados e reduzir custos. Além de motivar a mudança comportamental, essas táticas também estão sendo usadas para promover maior responsabilização e envolvimento dos funcionários e dependentes na sua própria tomada de decisões sobre saúde”, relata o texto.
Dos 58% de empregadores que oferecem incentivos para promover a participação dos funcionários em programas de saúde, 24% estendem esses incentivos aos dependentes (cônjuges e familiares). A consultoria atesta que os incentivos (tanto monetários quanto não monetários) estão sendo cada vez mais utilizados para influenciar o comportamento.

Dos empregadores que oferecem incentivos, os pagamentos em dinheiro para completar um questionário de riscos de saúde passaram de 35% em 2009 para 63% em 2010. Além disso, o número de empresas que oferecem incentivos para a participação em programas de melhoria da saúde aumentou oito pontos percentuais em relação a 2009: de 29% para 37% em incentivos monetários e de 20% para 28% em incentivos não monetários.

Apesar de considerar que os incentivos para motivar a mudança comportamental são uma medida adequada, a consultoria faz uma ressalva: “Por exemplo, oferecer 100 dólares a um funcionário para completar um questionário de riscos de saúde pode identificar um problema, mas não fará muito para assegurar que o funcionário tome medidas preventivas para se exercitar, se alimentar adequadamente e realizar tratamentos preventivos. Os empregadores com programas que exigem que os trabalhadores demonstrem comportamentos sustentáveis antes de receber um incentivo terão um impacto mais significativo que aqueles baseados na recompensa para ações episódicas”.

Há, também, empresas que impõem penalidades a funcionários alheios a iniciativas de melhoria de saúde, como fumantes, por exemplo, que não aderem a programas antitabagistas. O levantamento mostra que 18% das empresas já aplicam algum tipo de sanção e 47% pretendem fazê-lo este ano ou no período dos próximos três a cinco anos. O castigo geralmente está relacionado a um desembolso mais polpudo por parte do funcionário (franquia maior, copagamentos maiores etc.).

Uma das conclusões da pesquisa é que a assistência médica tornou-se uma alta prioridade de negócios para as empresas de destaque, em que “o foco é alinhar o controle de custos de curto prazo com uma estratégia de longo prazo para melhorar a saúde da força de trabalho”. Segundo a consultoria, esses desafios continuarão no horizonte, mesmo com a reforma da saúde. “Mudanças de paradigmas fundamentais são necessárias para sustentar benefícios de saúde de longo prazo, financeiramente viáveis. As organizações estão respondendo com diversas táticas projetadas para refrear custos e motivar os funcionários a se tornarem consumidores de assistência médica melhores e mais engajados
na sua própria saúde.”

Novo tratamento

Empresas acreditam que a reforma do sistema de saúde nos EUA trará impactos em suas estratégias

Com os debates sobre a reforma da saúde em curso, a pesquisa aferiu no início de 2010 que 93% das empresas acreditavam que a reforma da saúde teria algum impacto ou um impacto significativo nas estratégias de assistência médica. No ano anterior, foram 56%.

Antes da aprovação da legislação, metade dos entrevistados achava que a reforma deixaria as empresas em pior situação, e que o país e seus funcionários estariam melhor – mas não muito. Apenas 12% dos empregadores acreditavam que a reforma da saúde iria melhorar a situação dos funcionários, e apenas 24% consideravam que o país como um todo se beneficiaria.

O apoio dos empregadores em ampliar a cobertura de assistência médica ficou relativamente estável em relação à edição anterior da pesquisa, com a maioria dos respondentes se declarando a favor da cobertura universal. Metade esperava que a reforma incluísse uma combinação de coberturas individuais e de empregadores.
A certa altura, a consultoria fez a seguinte pergunta: “Se a nova lei permitisse que os funcionários obtivessem uma cobertura abrangente por meio do mercado individual e/ou trocas, e sua empresa pudesse eliminar seus benefícios de grupo atuais pagando uma multa que fosse substancialmente menor que o custo atual, como sua organização responderia?” De maneira geral, os empregadores consideravam que o sistema patrocinado por eles permaneceria inalterado após a aprovação da reforma da saúde. Apenas 10% planejavam eliminar a cobertura após a reforma, mas ressalvaram que a dinâmica da concorrência teria uma grande influência nessa decisão.

Os entrevistados se mostraram amplamente favoráveis à cobertura de saúde para todos os cidadãos norte-americanos, embora em 2009 fossem 85% e em 2010, 79%.

Para 77% dos entrevistados, a área de maior necessidade da reforma – a negligência médica – não foi devidamente abordada pelo Congresso norte-americano. A pesquisa indica que, mesmo com a promulgação da legislação de reforma da saúde em 2010, os empregadores e funcionários continuarão enfrentando desafios de custo significativos nos próximos anos.

Compartilhe nas redes sociais!

Enviar por e-mail