Os quatro elementos e a mudança

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    Vera, da FGV In company: ritos de passagem

    Se existe um momento na vida de uma pessoa no qual ela se vê cheia de dúvidas e medos, é quando alguma mudança, seja no âmbito pessoal ou profissional, ameaça a sua zona de conforto. E foi para harmonizar e direcionar técnicos em períodos de transição para cargos de gestão que o Banco do Nordeste firmou uma parceria com a FGV in Company, de São Paulo, desde 2008, para criar um programa que auxiliasse nessa passagem na carreira.

    Batizado de Rito de Passagem, o curso, criado pela professora Vera Cavalcanti, que também é coordenadora do núcleo de liderança da instituição de ensino, já formou cerca de 1,2 mil profissionais do banco e utiliza métodos diferentes para tornar mais leve esse processo de transição profissional.  “O nome foi dado pelo banco porque o principal objetivo da ação era propiciar um ambiente de mudança leve e marcante, no qual ficasse claro aos participantes que o que ocorria era uma passagem evolutiva na carreira. Um aspecto que tinha de ficar bem evidente é que as competências e responsabilidades técnicas são muito diferentes das necessárias para a atividade gerencial”, diz Vera.

    Momento de evolução
    Uma das preocupações do banco foi incutir no colaborador a ideia de que o fato de trocar de mesa, simplesmente, não o torna um gestor. Vera ressalta que as empresas não costumam ter a preocupação de ritualizar esse momento de evolução de carreira e de novas competências, mas isso é fundamental, uma vez que o resultado do trabalho dessas pessoas passa a ser dependente dos outros. Ela explica que foi usada uma metáfora com os quatro elementos da natureza para trabalhar o programa. “Em vez de usar um modelo acadêmico em sala de aula, optei por uma metáfora que trabalhou muito vivencialmente os conceitos, usando terra, água, fogo e ar. Ou seja, trabalhamos as competências associando-as a uma linguagem metafórica porque, na verdade, tudo na vida possui esses elementos, inclusive as organizações.”

    Mostrar aos colaboradores que essa metáfora tem um paralelo com as organizações foi o start do trabalho. Conforme Vera salienta, deixar claro que as empresas têm a sua terra – estrutura, processos de trabalho, missão, planejamento, visão estratégica, cultura, edificação, cronograma -, foi o primeiro passo para introduzir o método. Isso significa que, no papel gerencial, o indivíduo tem de ter competências “terra”. O elemento água remete à conotação da flexibilidade e está ligado às relações interpessoais nas organizações, que dependem da comunicação e da adaptabilidade. Já o elemento fogo é voltado à energia, à realização, à paixão, à emoção, à quebra de paradigmas, e a tudo o que envolva os aspectos ligados à transformação – o que a professora chama de “destruição criativa”. O elemento ar, por sua vez, abrange as competências que a pessoa precisa para realizar: é a perspectiva do futuro, a visão de longo prazo, a inovação, em que acontecem a concretização e o fechamento do ciclo. Para todos os elementos, foram realizadas dinâmicas. “E a partir das ações concretas que foram desenvolvidas desde a compreensão da estrutura do elemento terra, da flexibilidade das ações da água, de toda a energia do fogo, até quando chegam ao elemento ar, após todas as vivências, os colaboradores têm de criar um produto inovador e traçar um plano individual de crescimento.”

    Mas como são essas dinâmicas? O banco queria que os novos líderes tivessem comportamentos diferentes, e não se mudam comportamentos somente por meio de conceitos. O programa promoveu oportunidades para que os colaboradores exercitassem esses conceitos na prática. Foi feita uma imersão em um hotel, durante uma semana. Primeiro, foi trabalhado o elemento terra por dois dias. Uma atividade de discussão de ideias sobre o que era preciso conhecer da empresa e do seu mercado, com a participação de executivos do banco. No elemento água, trabalhado em um dia, foi usada uma série de dinâmicas de grupo sobre comunicação, tomada de decisões, liderança etc., para provocar um autoconhecimento de como os futuros gestores lidavam com as pessoas.

    Quando o assunto era o fogo, foi criado um rito em uma atividade na qual o colaborador pintava metade do seu rosto com símbolos representativos para ele. Depois, outra pessoa pintava o outro lado com a percepção que ela tinha do outro. Após isso, houve um processo de discussão sobre os comportamentos que eles queriam eliminar, e uma ida até a praia para a queima desses comportamentos, escritos em papel, em uma fogueira. “Finalmente chega o elemento ar, que foi a criação de uma nova vida e um renascimento”, diz Vera, enfatizando que a receptividade foi total e apenas três pessoas, por motivos religiosos, se negaram a mexer com o fogo.

     

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