Os reflexos da greve de 1978

Walter Barelli*
28 de Maio de 2010

A comemoração do 1º de maio leva-nos a refletir sobre trabalho. Há um marco nos novos tempos das relações de trabalho: as greves da indústria automobilística, em 1978. Seus antecedentes foram muitos. Do lado dos trabalhadores: perseguições, repressão, fim da estabilidade e arrocho salarial. Do lado do governo: queda da inflação, grande crescimento do PIB (o chamado milagre econômico) e um plano de desenvolvimento que prometia mudar o Brasil, o III PND. E do lado das empresas: aumento da produção, da produtividade, das vendas e dos lucros, e sindicatos amordaçados.

A greve das fábricas de automóveis em São Bernardo do Campo foi um fato novo. Aparentemente, o sindicato não a deflagrou, mas a apoiou. A polícia não teve como reprimir, pois não havia piquetes. Os trabalhadores simplesmente não ligaram as máquinas e ficaram de braços cruzados, à frente delas. O governo militar preferiu observar, pois não considerava subversão aquela greve. Nas empresas, os chefes não conseguiram demover os trabalhadores, pois praticamente não foram identificados os líderes e não tinham como falar com a massa. A saída foi permitir uma assembleia sindical dentro da fábrica, em que o presidente do sindicato construiu publicamente a proposta a ser apresentada à empresa. Os trabalhadores voltaram a ligar as máquinas, com a ameaça de voltar a greve caso não fossem atendidos. Em cada companhia, a greve se deu em dias diferentes e as pautas de volta ao trabalho eram semelhantes, mas não uniformes.

A associação dos fabricantes de automóveis (Anfavea) solicitou ao sindicato uma reunião para a consolidação do resultado das assembleias de fábrica. Foi a primeira negociação coletiva, sem participação do governo. O acordo resultante era uma desobediência à lei salarial por estabelecer aumentos reais. As automobilísticas, ao firmar o acordo, também contrariaram seu código de conduta de sempre obedecer às leis locais. No caso, assinaram o protocolo, certamente com o apoio tácito do governo militar. Derrubou-se, assim, a lei da política salarial. Foi a consigna para as demais empresas e sindicatos negociarem aumentos reais de salários.

Começa, então, uma nova história das relações de trabalho no Brasil – com a desobediência assumida a uma lei repressiva. Olhando para trás, vemos que os sindicatos passaram a ser atores importantes em nossa sociedade. Uniram-se em centrais, o que também tinha sido proibido anteriormente. Estão influindo em vários aspectos da vida nacional. No mundo empresarial, as relações de trabalho também evoluíram na direção do maior atendimento das necessidades dos colaboradores.

A negociação passou a ser regra, sobretudo no campo salarial. Esse novo comportamento evidenciou-se em muitos casos, na recente crise econômica. A prudência e a negociação de várias empresas fizeram que o Brasil superasse rapidamente suas dificuldades. No campo governamental, percebe-se pouco avanço na legislação trabalhista. Mas trabalhadores e empresas já aprenderam que podem suplantar as peias das leis, por meio da mesa de negociação.

* Walter Barelli é economista, professor da Unicamp e conselheiro da ABRH-SP

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