Gestão

Papel fundamental

Felipe Falletti
28 de novembro de 2013
Reprodução
Bel, da FazINOVA: não mudar é muito mais arriscado

Cofundadora da startup de micropagamentos Lemon e criadora da escola de inovação e empreendedorismo FazINOVA, em São Paulo, a brasileira Bel Pesce defende que as empresas deem autonomia a seus funcionários e os incentivem a pensar em novas formas de executar seu trabalho. Ex-aluna do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Bel afirma que as organizações com maior produtividade no mundo são aquelas que conseguem fazer seus colaboradores sentirem-se parte das companhias em que atuam e aumentarem seu esforço e dedicação ao trabalho. Em conversa com MELHOR, ela afirma que o RH exercerá um papel fundamental na transformação da cultura de gestão das empresas e diz que as corporações que não derem liberdade a seus funcionários perderão seus melhores talentos.

É possível ter espírito empreendedor e, ao mesmo tempo, fazer carreira como funcionário em uma empresa?
Costumo dizer que o maior empreendimento de uma pessoa é ela mesma. Então, empreender é o modo como nos relacionamos com as pessoas no dia a dia e o que fazemos dessas relações. Você pode empreender criando uma empresa só sua ou, como funcionário, modificando um processo e desenvolvendo uma nova forma de realizar uma atividade qualquer de seu trabalho. Nas aulas do FazINOVA, por exemplo, recebo muitos alunos que desejam criar sua empresa, mas também muitos funcionários de grandes companhias que desejam usar as técnicas de negociação e inovação em favor das corporações em que trabalham e, claro, para alavancar suas carreiras.

As empresas procuram você para treinar seus funcionários?
Sim, o tempo todo. O Bradesco e a Votorantim, por exemplo, compraram pacotes de matrículas e enviaram para nossos cursos alguns de seus profissionais. Também o Jorge Paulo Lemann, da Ambev, comprou um pacote de matrículas para ceder à Fundação Educar. Embora eu receba um público variado, que inclui de médicos a DJs que desejam se preparar para empreender, é crescente o número de convites que recebo para treinar executivos e dar palestras in company. Isso ocorre, pois as empresas brasileiras perceberam, por um lado, que precisam explorar as ideias empreendedoras de seus funcionários e, por outro, desejam oferecer desafios para seus profissionais mais talentosos. A ideia de que a inovação vai partir apenas da alta gestão das empresas e ser executada por quem está abaixo na hierarquia é algo superado. É importante que todos os colaboradores pensem de forma empreendedora e deem suas contribuições criativas às empresas em que trabalham.

Ao fomentar o empreendedorismo em seus colaboradores, as empresas não correm o risco de perdê-los, justamente, para a livre iniciativa?
Se algum colaborador tem o sonho de montar uma empresa só sua, não será escondendo essa possibilidade dele que esse profissional continuará na empresa. O que eu noto é justamente o contrário. Ao dar autonomia para o colaborador e incentivá-lo a pensar de forma empreendedora, crescem as chances desse profissional se sentir motivado e ficar por mais tempo na empresa. Quando o colaborador tem autonomia e cria algo que, de alguma forma, lhe pertence, então esse é o melhor dos mundos para a empresa. Ter um funcionário que se sente dono de um projeto e se dedica a ele como se fosse seu, é uma excelente maneira de colher bons resultados. No Vale do Silício, onde trabalhei nos últimos anos, é muito comum que colaboradores sejam “donos” de pequenos projetos e tenham não só autonomia para tocá-los como também liberdade para organizar seu horário de trabalho e cronograma de tarefas. Veja, não estamos falando de um lugar de baixa produtividade, mas de uma cultura que permitiu a criação de grandes empresas inovadoras conhecidas em todo o mundo.

Mas, em empresas tradicionais, em que os colaboradores estão acostumados a receber tarefas e realizá-las do jeito que o gestor lhes solicita, não pode causar um choque uma mudança de cultura desse tipo? Dar maior liberdade às pessoas, num primeiro momento, não pode gerar perda de produtividade?

Outro dia, durante uma palestra, um executivo de uma empresa que está em dificuldades me disse que não compreendia o motivo de viverem um período difícil. Esse profissional explicava que sua empresa não mudou nada em seu modo de atuação na última década mas, mesmo assim, os resultados pioravam ano a ano. Então, eu respondi que, se eles não mudaram nada ao longo de dez anos, esse é o provável motivo de perderem mercado. As empresas precisam ter coragem de mudar para dar resposta a novos cenários da economia e do mercado de trabalho. Uma realidade que já se impôs, por exemplo, é a chegada da geração Y às empresas. Para você manter essa juventude motivada e entregando seu melhor para a companhia é preciso uma abordagem nova que passa, por exemplo, por dar maior autonomia aos colaboradores e instigá-los com desafios. Então, ainda que mudar a cultura de uma empresa imponha alguns riscos, não mudar é muito mais arriscado.

O discurso de que é preciso inovar na gestão de pessoas e nos processos produtivos é muito recorrente. Mas dá para ensinar alguém a inovar?
Há uma certa mistificação em torno do que é inovar. Se você pensar em inovação como algo muito disruptivo como foi, por exemplo, a invenção do Skype e das videoconferências, então a resposta é não, isso não pode ser ensinado nas escolas. No entanto, a inovação no dia a dia é algo muito mais simples do que pode parecer. Inovar é observar como algo é feito, perceber que há uma falha ou algo que pode ser melhorado e implementar essa melhoria. Há técnicas bem consolidadas sobre como analisar um processo produtivo, identificar áreas em que há potencial de melhoria e executar uma inovação. Nesse sentido, sim, é possível ensinar as pessoas a pensar de forma inovadora. Uma das coisas que ensinamos, por exemplo, é que a inovação é fruto de estudo e experimentações em ambientes de baixo risco. Um auxiliar de enfermagem, por exemplo, não pode decidir inovar seu método de trabalho no meio da realização de um parto, pois isso colocaria o procedimento médico em risco. Esse auxiliar pode, no entanto, pensar de forma crítica sobre tudo o que acontece durante um parto e, com sua experiência, descobrir algo que pode ser aprimorado para melhorar a segurança dos procedimentos médicos ou dar mais conforto à mãe. A inovação deve ser discutida em momentos apropriados e, claro, varia de indústria para indústria. Sem dúvida, há segmentos da economia em que é mais simples inovar e, outros, como na área médica, em que isso é mais difícil e exige muita pesquisa e análise prévia.

Quando você conversa com empresários e gestores brasileiros, você sente que eles estão sensíveis à necessidade de mudar o modo como as pessoas são geridas?
Avalio que as empresas mais expostas à competição estão sim, sensíveis a essas mudanças, ainda que não saibam exatamente como executá-las. Outro dia dei uma palestra num encontro que envolvia um grupo de trainees e os gestores de uma empresa, que não por acaso eram os mentores desses trainees. Em meio aos debates, um terceiro grupo fez muitas interferências na discussão. Eram profissionais de RH que, de uma forma discreta, tentavam demonstrar para os gestores o melhor meio de lidar com os jovens trainees. Então, para mim, ficou evidente a importância do RH nesta mudança de cultura.

Por que você considera o RH importante?
Enquanto outras áreas da companhia estão focadas em negócios ou no desenvolvimento de um produto, o RH tem maior capacidade de observar como os colaboradores podem se sentir mais envolvidos com a companhia. Esses profissionais, de certa forma, devem não só descobrir os meios mais eficazes de engajar os profissionais e motivá-los como têm o desafio de convencer os gestores de que é preciso dar mais autonomia a seus subordinados. Nesse sentido, cabe ao RH fomentar o empreendedorismo dentro das empresas, um papel, portanto, fundamental.

 

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