Para a rede não furar

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Em apenas três anos, o mercado de trabalho brasileiro de TI se ressentirá da ausência de aproximadamente um Maracanã e meio de profissionais especializados em redes e conectividades (117,2 mil). Na América Latina, a lacuna de especialistas no tema é equivalente a três estádios do Barcelona, o Campe Nou (296,2 mil). O cenário sombrio faz parte de recente  pesquisa  da consultoria IDC intitulada Habilidades em redes e conectividade na América Latina (do inglês Networking Skills Latin America) e encomendada pela empresa de soluções para rede Cisco da América Latina.

É inevitável não relacionar esses números ao crescimento econômico da região e, no caso brasileiro, Í  realização de dois grandes eventos esportivos – a Copa do Mundo, no ano que vem, e as Olimpíadas, em 2016. A infraestrutura a ser pensada e instalada para esses eventos vai além dos estádios, pistas de corridas e ginásios. É preciso investir em tecnologias para transmitir som e imagem em alta definição para televisores, computadores e dispositivos móveis espalhados por todo o mundo.  Diante de um apagão de talentos ainda mais negro, algumas empresas do setor vêm desenvolvendo soluções para atrair e reter profissionais. A Arkhi, especialista no desenvolvimento de soluções estratégicas para negócios utilizando ferramentas de TI, resolveu investir no clima organizacional e na qualidade de vida para driblar esse problema. A empresa criou uma academia corporativa, programas de gestão de competências e até mesmo um espaço de relaxamento e distração que conta com televisão, videogame e uma cozinha sempre abastecida com frutas e sanduíches naturais, chamada de Decompression Room, ou Sala de Descompressão. “É preciso criar estratégias de atratividade que vão além da remuneração, como um ótimo clima organizacional e possibilidades de desenvolvimento profissional, que eventualmente levam a melhores salários e melhor posicionamento no mercado”, afirma o CEO da Arkhi,
Eros Viggiano.


Ambiente ético
Por outro lado, a Arkhi também investe na “regularização” da profissão. Explica-se: com o aumento da demanda por esses profissionais, muitos salários foram incrementados pela procura do mercado. A alternativa de muitas companhias para manter os vencimentos em alta foi optar por contratos como pessoa jurídica. A Arkhi é uma exceção Í  regra. “O valor de uma empresa está no capital humano. Nossa percepção é de que é preciso prezar pelas pessoas, sustentando um ambiente ético, o que é impossível estando fora da lei”, afirma Viggiano. Esse pensamento também é compartilhado na Opus Software. “Os funcionários buscam determinados valores nas empresas e um deles é a honestidade, seja com o governo, seja com a equipe. É só a partir daí que outros valores se somam para fazer da empresa um polo de atração de talentos, com capacidade de inovação”, afirma o CEO da empresa, Francisco Barguil.

Líder de TI na região Nordeste, a Lanlink também faz parte do time das empresas que prezam pelo cumprimento da regulamentação trabalhista como forma de atrair e reter pessoal. Atualmente, a empresa conta com 700 colaboradores contratados segundo a CLT. De acordo com a diretora de RH, Lourdes Sudário, a companhia investe nas pessoas como principal ativo e, por isso, busca dar ao colaborador o sentimento de segurança de que ele crescerá com a empresa. “Acreditamos que essa postura contribui para manutenção de um ambiente apoiador, seguro, no qual as pessoas se sintam confortáveis e possam desenvolver as suas potencialidades. E esperamos delas o comprometimento com a sustentabilidade do nosso negócio, a satisfação dos nossos clientes, e inclusive com o seu próprio sucesso profissional.”  Outra saída adotada para vencer o apagão de talentos é fomentar cursos e treinamentos junto aos colaboradores. A empresa de manutenção de parque de TI, Sr. Computador,  investe nessa aposta: além de treinamentos teóricos e práticos, a companhia oferece cursos a distância aos seus técnicos. A rede também disponibiliza a cada colaborador um manual operacional com informações técnicas e de boas práticas, que instrui como ele deve proceder e se comportar junto ao cliente. “O técnico deve ter uma comunicação clara e objetiva, para que a pessoa realmente entenda o serviço que precisará ser prestado”, explica Rogério Pereira, diretor de operações.




Outra ferramenta utilizada pela empresa é um blog interno que possui dicas, instruções e  informações sobre cada novidade lançada no mercado. “Nossos técnicos têm todo o suporte necessário e caso ainda tenham dúvidas na resolução de um problema, eles podem esclarecê-las em tempo real por meio de nosso chat.”


O futuro é agora
Nos próximos anos, haverá um verdadeiro buraco de ozônio na busca de profissionais de TI. Contudo, o presente tampouco é animador aos recrutadores desse segmento. De acordo com os dados do estudo da IDC, em 2011 o mercado nacional já registrava a falta de 39,9 mil especialistas. Na América Latina, esse número subia para 76,8 mil. O Brasil está na posição de vice-liderança no campeonato de países que enfrentam dificuldades em encontrar profissionais tecnicamente qualificados no setor. A posição mais alta do pódio ficou com o México. Com isso, a taxa de recrutamento de profissionais de rede em solo tupiniquim é baixa. Apenas 19% das empresas entrevistadas afirmaram
que contrataram alguém da área. “A falta de mão de obra qualificada ainda é um fator preocupante para atender a essa demanda [gerada pelos grandes eventos] e ainda para que o Brasil possa competir mais efetivamente no mercado mundial”, alerta Giuseppe Marrara, diretor de relações governamentais da Cisco.

Ruim para algumas, bom para outras empresas que veem nesse descompasso das vagas e de quem as pode ocupar um mercado promissor. É o caso do portal  australiano Freelance.com, que estabeleceu sua operação no Brasil de olho nessas demandas.
Para Sebastián Siseles, diretor regional para América Latina do portal, o país deve estar, em breve, entre aqueles com maior presença na plataforma. “Estamos crescendo de forma muito satisfatória por aqui. O mercado de tecnologia está em plena expansão e, além disso, o país está mundialmente visado pelos grandes eventos esportivos que irá sediar nos próximos anos, o que irá colaborar para contratação de pessoas nativas da língua portuguesa para diversos trabalhos”, completa.

A IDC espera que o mercado de TI cresça a uma taxa de crescimento anual composta de 12% entre 2011 e 2015 no Brasil. As 363.584 vagas previstas para 2015 devem se concentrar mais na rede essencial com 232.032, mas a lacuna maior será na rede emergente, com 131.552 vagas para 64.650 profissionais qualificados. Em outras palavras, haverá uma escassez de 51% ou 66.702 profissionais, apenas nas vagas que ainda serão divulgadas no mercado. Ou seja,
o risco de a rede cair em função da falta de gente é alto.








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