Saúde

Patrimônio pessoal

Ricardo Humberto
9 de Março de 2015
Mariana Dias / Crédito: Divulgação
Mariana, da Mercer: é preciso estar atento à gestão de benefícios / Crédito: Divulgação

Uma jovem colaboradora de 22 anos da empresa Sankhya, especializada em sistemas de gestão empresarial, que preferiu não se identificar na matéria, conta que tudo estava normal em sua vida. Até que certo dia, após participar da Campanha Mundial de Prevenção ao Câncer de Mama realizada na companhia onde atua, decidiu fazer o autoexame. E o resultado foi um susto para a jovem: ela constatou que aparentemente tinha um nódulo em sua mama esquerda.

Com as orientações adquiridas na campanha, a colaboradora procurou um mastologista, que a informou que a melhor ação seria a retirada do nódulo o quanto antes. Essa história, que começou em 2013, teve um final feliz no ano passado, em parte pela sensatez da paciente em procurar e seguir orientações médicas, e em parte pela agilidade do especialista em atuar com antecedência, impedindo que o nódulo se alastrasse e progredisse para algo mais grave.

Atitudes precavidas como a mencionada ainda são raras no Brasil, mesmo entre aqueles que possuem um plano de saúde empresarial, que não são poucos — o país registra mais de 51 milhões de usuários. O descuido com a saúde é um fator comportamental do brasileiro e afeta um terço de nossa população, que está acima do peso, ou seja mais de 60 milhões de pessoas. E toda a sociedade acaba pagando as altas contas geradas por esse tipo de política.

Patrícia Sousa / Crédito: Divulgação
Patrícia, da Sankhya: ir além das exigências da egislação trabalhista / Crédito: Divulgação

Altos custos
No mundo corporativo, os gastos com saúde já ocupam a segunda posição dos custos de uma empresa, atrás somente da folha de pagamento; e a tendência é de aumento. Em 2013, por exemplo, os gastos com a saúde dos colaboradores representavam 5% da folha de pagamento; no ano passado, essa soma pulou para 12%. “Hoje a inflação médica é três vezes maior que a inflação do governo, o que significa uma aceleração do custo de saúde acima do crescimento da renda das empresas”, destaca Luiz Edmundo Rosa, diretor de Educação da ABRH-Brasil e VP de Pessoas Organização e TI da GranBio.

“Não adianta eu possuir um plano de saúde com cobertura ampla se não me previno de uma série de doenças e tenho um comportamento de risco. Assim, o paciente fará novamente os mesmos exames anteriores e será um ônus à empresa”, ilustra o diretor da ABRH. “Se eu continuar não me cuidando, sem fazer exercícios, cresce a necessidade de ir mais ao médico”, destaca. Não por acaso, o Brasil registra a curiosa taxa de vinte e duas consultas médicas per capita anual. O resultado final disso é uma alta folha de custos que obriga ao aumento dos planos empresariais.

Para Luiz Edmundo, não adianta a empresa “enxugar o gelo”, oferecendo planos de saúde se as pessoas não cuidam da saúde como as empresas cuidam do patrimônio. “As companhias precisam alertar seus funcionários a serem coproprietários de sua saúde.” O descuido com a saúde afeta o lado pessoal e principalmente o social, pois prejudica família, colegas de trabalho e principalmente a produtividade na companhia. “É preciso repensar o modelo mental da estratégia de saúde das empresas, com uma gestão em que o funcionário coparticipe no pagamento do plano”, sugere.

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Juliana Viana / Crédito: Divulgação
Juliana, da Ticket: a palavra de ordem é conscientizar / Crédito: Divulgação

Produtividade em risco
Segundo recente pesquisa realizada entre 2013 e 2014 pela consultoria Towers Watson, os fatores que mais afetam a produtividade dos profissionais brasileiros são tabagismo, presenteísmo, má alimentação, abuso de drogas e outras substâncias, além da falta de atividade física. São componentes que afetam em cheio a inovação, pois funcionário doente seja dentro ou fora da empresa não produz. Para César Lopes, líder de Saúde e Benefícios em Grupo da Towers Watson, a palavra produtividade preocupa muito os CEOs, já que o Brasil possui uma nota baixa neste quesito quando comparado a outros países.

Para fugir desse quadro, uma das tendências apontadas pelo especialista é que o funcionário não seja simplesmente o usuário, mas sim o “parceiro” do plano de saúde. “É uma das estratégias dos RHs para mostrar ao colaborador que tudo o que ele usa tem um custo.” Ele aponta que o RH está muito mais ativo em relação à gestão dos planos de saúde nas empresas, o que envolve a área financeira e de benefícios.

Fazer com que seus funcionários estejam atentos ao correto uso do plano de saúde é possível. Pelo menos é o que mostram experiências de empresas como a Sankhya, mencionada no começo desta reportagem. Lá, uma das palavras mais difundidas pelo RH é “conscientizar”. Patrícia Sousa, gerente de RH da Sankhya, conta que é importante analisar dados quantitativos e qualitativos dos colaboradores para nortear as ações corretivas ou preventivas de saúde. “O uso inadequado do plano de saúde pode ser um grande vilão nessa relação. Por isso, o RH deve trabalhar com indicadores que facilitam a gestão, como o controle dos afastamentos e seus motivos”, explica Patrícia.

Por que as empresas devem oferecer o benefício saúde?
A pesquisa realizada no final de 2014 pela Mercer aponta quais os principais objetivos de oferecer o benefício:

Na visão do RH
23% satisfação do colaborador
16% retenção e engajamento
14% valores organizacionais

Na visão do CFO
21% custo dos planos de saúde
15% absenteísmo
11% produtividade

Ferramentas a favor da saúde
Nessa batalha há algumas armas tecnológicas a favor da gestão da saúde empresarial. Este é o caso do sistema ERP com informações em tempo real sobre taxa de turnover, absenteísmo, avaliação de performance e mapeamento dos atestados médicos que permite acompanhar os motivos que provocam os afastamentos. Com esses dados, a companhia elabora ações para orientar e proporcionar mais qualidade de vida aos colaboradores, tanto na vida pessoal quanto na profissional.

Uma das estratégias da empresa que surgiram após a pesquisa dos indicadores sobre a saúde dos funcionários foi a criação de campanhas internas seguindo o calendário de eventos mundiais de prevenção, tais como o Outubro Rosa e Novembro Azul. Durante esses dois meses do ano, a empresa se mobiliza por meio da comunicação interna, utilizando e-mails com conteúdo direcionado à prevenção, além de campanhas de alerta em datas comemorativas, como, por exemplo, o carnaval.

Segundo Mariana Dias, superintendente da área de consultoria da Mercer, a gestão do benefício saúde afeta o reajuste que é repassado pela própria seguradora. “Ainda falta nas empresas brasileiras a gestão de benefícios, que são os programas de conscientização”, alerta. Em pesquisa recente de benefícios realizada pela consultoria, com 700 empresas, detectou-se 100% delas possuem assistência médica e 85% plano odontológico.

Promoção de Saúde
O caminho da prevenção foi o escolhido pela Ticket. Na empresa do segmento de benefícios ao trabalhador, a gestão da saúde conta com um belo aliado: uma plataforma de saúde desenvolvida pela empresa para alertar seus colaboradores a buscar uma vida mais saudável. Segundo Juliana Viana, gerente de Recursos Humanos, Benefícios, Saúde e Motivação da Ticket, a companhia vai além das exigências da legislação trabalhista para garantir uma vida saudável e o bem-estar de sua equipe com qualidade de vida no trabalho e fora dele.

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Luiz Edmundo Rosa / Crédito: Divulgação
Luiz Edmundo, da GranBio: ser coproprietáriode sua saúde / Crédito: Divulgação 

A Ticket possui diversas iniciativas voltadas à educação para a saúde, sendo uma delas a “Promoção de Saúde”, que é o atendimento na empresa por uma equipe multidisciplinar que oferece orientação médica, psicológica, nutricional, fisioterápica e física, além de ginástica laboral. Outro programa é o “Circuito Saúde”, responsável pela avaliação individualizada, em que o funcionário conta com um educador físico, que analisa a presença de comprometimento ou encurtamentos na musculatura, mensuram a pressão arterial e a glicemia para identificação de possíveis casos de hipo ou hipertensão arterial, diabetes e trabalho nutricional para investigar os hábitos alimentares dos colaboradores, o que abrange aferição de peso, medida, índice de massa corpórea (IMC) e circunferência abdominal para identificação de casos de obesidade.

Juliana explica que a empresa, de posse dos resultados de todo o “Circuito Saúde”, chama o colaborador para que ele tenha mais consciência do seu papel como gestor da sua própria saúde e da qualidade de vida. “Alguns sintomas apontados nesses laudos quando previamente tratados deixam de se tornar uma patologia mais grave”, diz. Na Ticket, o gasto com plano de saúde representa 10% da folha mensal, isso em valor bruto sem encargos, o que não inclui os demais benefícios voltados à saúde que a empresa oferece, tais como seguro para diagnóstico de câncer, programas de vacinação, desconto em farmácia, check-up de executivos.

A tecnologia é uma forte aliada na promoção da saúde. Dentre as tendências que mais crescem no Brasil e no mundo, uma é estimular o engajamento dos empregados nos programas de saúde e produtividade por meio das mídias sociais. Ademais, em alguns países da Europa, já é comum a utilização de incentivos financeiros, o que ainda não é comum entre empresas brasileiras, devido à falta de evidências concretas sobre sua eficácia e ao risco potencial desse tipo de recompensa. Com incentivo ou não, é importante pensar que não existe recompensa maior do que ter saúde, seja dentro ou fora do ambiente de trabalho.

 

Não descuide da saúde bucal
O cuidado com os dentes vai além de estética. Segundo dados da American Dental Association (ADA), problemas bucais, como doença crônica gengival (periodontite), podem acarretar inclusive males no coração e nos pulmões. Diversas doenças podem ter origem em infecções orais, sendo a principal delas a endocardite bacteriana, infecção grave das válvulas cardíacas ou das superfícies do coração, cuja bactéria causadora do problema pode ser proveniente de falta de cuidados com a higiene oral, como não escovar os dentes, e de doenças bucais existentes. De acordo com a Associação Brasileira de Odontologia, a gengivite é o problema bucal mais comum entre os brasileiros. Quando não tratada, a gengivite pode evoluir para a periodontite, que surge quando a placa bacteriana não é removida e, assim, inicia a inflamação da gengiva que tem como sintomas a vermelhidão, o inchaço e o sangramento. Atualmente, apenas 22% dos adultos e 8% dos idosos têm as gengivas totalmente saudáveis. O descuido com a saúde bucal pode acarretar também o câncer de boca. A incidência desse tipo de câncer é alta no Brasil, com mais de 10 mil novos casos por ano, levando a óbito cerca de 3.500 pessoas. Não por acaso, as empresas hoje também estão atentas em oferecer o benefício odontológico para seus colaboradores. A Ticket, por exemplo, tem hoje mais de 800 colaboradores que participam de seu plano odontológico, e entende que cuidar da saúde da boca é tão importante quanto cuidar do corpo. A companhia oferece cinco modalidades de Plano Odontológico e o colaborador não tem participação no custo do tratamento e se responsabiliza somente pela mensalidade, descontada em folha de pagamento. Já a Sankhya, além dos planos, disponibiliza o Odontomóvel, que realiza serviços de limpeza bucal e orientação aos colaboradores.

 

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