Pecado capital?

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Na busca de melhorar o ambiente de trabalho e ajudar na motivação de seus funcionários, algumas empresas têm estimulado que seus empregados professem sua fé ou crença em algumas práticas, como a criação de grupos de oração. Por mais que as organizações tenham como meta alimentar a espiritualidade de uma forma mais ampla, é preciso ter cuidado nesse terreno. O grande desafio dessas companhias é evitar que tais práticas criem constrangimentos a funcionários que não professam determinada crença ou não acreditem em certas práticas. Para alguns especialistas, uma saída ideal seria evitar que a fé permeie o ambiente de trabalho, tanto para respeitar a pluralidade religiosa quanto para evitar processos na Justiça e a sensação de que a prática religiosa na companhia possa beneficiar um grupo de funcionários na hora de promoções.

Uma das maiores fornecedoras brasileiras de soluções fiscais, a Synchro coloca à disposição de seus 340 colaboradores um oratório em sua sede na capital paulista e outro na filial em Campinas. Na sede, todas as quartas-feiras, às 12h30, um padre realiza uma missa no oratório, que comporta 20 pessoas. Em Campinas, não há celebração de missa, mas todas as terças-feiras, às 18 horas, são realizadas as orações do “terço dos homens”. “As pessoas são nosso principal ativo. A empresa não é feita de mesas nem de computadores, mas de pessoas. E enxergamos o funcionário como um ser integral, com as dimensões racional, física, afetiva ou emocional e espiritual”, explica Ricardo Funari, diretor-presidente da Synchro.

Ruy Shiozawa
Shiozawa, do GTPW: eliminar futuros problemas já na contratação

Funari e os outros três sócios da companhia são católicos praticantes. “Vemos a própria empresa como um instrumento de Deus, a serviço de Deus e da sociedade.” Entre seus funcionários, porém, estão espíritas, mórmons e, inclusive, ateus. O executivo garante que todos têm as mesmas chances de promoção e que a empresa não impõe ao funcionário a religião católica, nem aborda a questão da religiosidade em seus programas de desenvolvimento interno. “No nosso programa [de desenvolvimento pessoal] não falamos da religiosidade, mas sim da busca de um sentido, e oferecemos um processo de autoconhecimento e conscientização de que mudar o mundo e melhorar as coisas dependem da ação de cada um. Hoje, as pessoas que chegam ao mercado esperam que a motivação venha de fora para dentro. E acreditamos no contrário. É claro que isso pode levar a Deus, mas não falamos de religião específica e não obrigamos ninguém a ter determinada crença. O que falamos no programa é que a motivação depende de um sentido para a sua vida. E a religião pode ajudar na busca desse sentido.”

No Banco do Brasil (BB), os funcionários têm permissão para se organizarem em grupos de oração ou de discussão de textos bíblicos – a ideia por trás disso é que ações como essa ajudam a reforçar no colaborador o “senso de missão” e a função social do trabalho, como explica o diretor de gestão de pessoas da instituição, Carlos Netto. “O banco respeita muito isso.”

Dagmar Miriam Wendt, gerente de equipe da área de gestão de pessoas do BB, e Denise Nunes de Jesus, assessora da área de gestão de pessoas do BB, participam há quatro anos de um grupo de oração na sede do banco, em Brasília. O grupo atuou até o ano passado, mas deve retomar as atividades neste ano. “Para mim, houve uma transformação muito grande”, afirma Denise, que é da Igreja Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho. Por um ano e nove meses, o grupo chegou a discutir todo o Novo Testamento. “Teve um efeito terapêutico. O texto provocava reflexões e as pessoas traziam questões pessoais ou do trabalho”, explica Dagmar.

Questionadas sobre a reação dos colegas, principalmente os ateus, elas negaram qualquer tipo de discriminação. “Não há [discriminação]. Só que costumo colocar o nome dessas pessoas no livro de orações, para o Espírito Santo transformá-las”, afirma Denise. “Fico com pena das pessoas que deixam de experimentar”, conclui Dagmar.

Rito de comunhão
O Magazine Luiza é outro exemplo em que a questão religiosa é utilizada para motivar seus funcionários. A empresa, que nasceu em Franca, interior de São Paulo, sempre teve o costume de realizar, às segundas-feiras, um “rito de comunhão” que permanece desde os dias atuais, segundo afirma Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work (GPTW), em cujas listas das melhores empresas para trabalhar já constou a companhia dirigida por Luiza Helena Trajano. A empresa foi procurada pela reportagem, mas não quis comentar sobre o tema.

“O rito de comunhão é uma oportunidade de ter contato com a presidente da empresa toda semana. Eles cantam o Hino Nacional. Depois, celebram a empresa com o Hino do Magazine Luiza e, na sequência, é feita uma comunhão com o absoluto, quando rezam o Pai-Nosso”, explica Shiozawa. “O viés é mais simbólico do que católico porque se fala da pátria, da empresa e do absoluto – para que pessoas de outras religiões fiquem à vontade, quando se faz uma prece católica. E é voluntário. A própria Luiza me contou isso. Olhando de fora, percebo que o espírito principal é a integração da equipe, valorizar o país, destacar as metas da empresa e ter um lado espiritual também”, diz.

Mas foi por se sentir obrigada a rezar uma prece que não era de sua religião que a então caixa Rosimere Miquelin Felisbelo acionou na Justiça uma unidade da Casas Bahia em Piracicaba, no interior de São Paulo, onde trabalhou de 2004 a 2007. Evangélica, ela disse que era obrigada a rezar todos os dias por ordem do gerente da loja, afirmando que a oração era obrigatória. A ação, impetrada em 2008, também questionava o pagamento de horas extras. Segundo o advogado da reclamante, Jean Carlos de Souza, a Justiça reconheceu o direito ao pagamento das horas extras, mas não a acusação de a empresa ter ferido o direito fundamental de liberdade religiosa, garantido pela Constituição. A defesa argumentou que a oração não era obrigatória e que a prática era realizada uma vez por mês.

“O constrangimento era ficar no meio do saguão da loja com todos os empregados, de mão dadas, rezando orações católicas. Não eram pessoas convidadas para participar da reunião, era algo imposto. Tinha de ir porque poderia sofrer retaliação. Isso foi sustentado no tribunal. Mas os desembargadores entenderam que a prova na primeira instância não fora bem produzida, que ela era convidada apenas. O convidado é entre aspas”, diz Souza.

#L# “[quem organizava a reza] Era uma gerente. Tinha de chegar mais cedo, ir para o meio da loja. Havia uma Bíblia e uma santa. Tinha de rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria”, relembra Rosimere. A assessoria de imprensa da Viavarejo, que administra a Casas Bahia desde 2010, informou que se isso ocorreu no passado foi por ação de um gerente, sem a orientação da empresa. De acordo com a assessoria, a Casas Bahia não tem nenhum tipo de política que permita realização de cerimônia religiosa no local de trabalho, para não ferir a individualidade.
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Gilberto Ferreira da Costa
Costa, do Macedo e Costa Advogados: cuidado para beneficiar grupos

Sustentabilidade
Depois de uma palestra, feita em 2003 pelo filósofo Karel Frans van den Bergen, da Universidade Federal do Espírito Santo, nas dependências de sua unidade no Espírito Santo, a ArcelorMittal Tubarão resolveu adotar a “sustentabilidade em seis dimensões”: ambiental; econômica; social; cultural; política; e espiritual, com a conexão do indivíduo com um senso de pertencimento a um senso maior. “O espiritual transcende a questão religiosa, porque pode ser espiritual sem ser religioso”, explica Sidemberg Rodrigues, gerente de comunicação, responsabilidade social e relações institucionais da companhia.

A sustentabilidade em seis dimensões, explica o executivo, garante uma visão holística da participação da empresa e de funcionários no tecido social, incentivando os colaboradores a participarem ativamente da sociedade e realizando campanhas que fortaleçam o senso de pertencimento e a espiritualidade como uma forma de conscientização e um sentido para a vida. “Você observa que as pessoas, de modo geral, estão passando por um momento de insegurança, de grande vazio”, diz. Esse vazio, segundo Rodrigues, é causado pelo excesso de racionalização e de funcionalização, e as pessoas se esquecem da conexão delas com isso. “Esse vazio existencial só pode ser preenchido com um sentido para você e sua vida. E, aqui, tanto católicos quanto evangélicos – o espiritual está acima do religioso – são respeitados. Uns querem rezar, outros fazer meditação. A prática independe, porque temos diversidade cultural”, explica.

Além de oferecer uma cabana ecumênica para seus funcionários em sua sede na cidade capixaba de Serra, a empresa se uniu com a prefeitura, com o Ministério Público e com a Justiça para implantar no município o projeto Educação e valores humanos, em 2010. A ideia era levar a prática da meditação para alunos e professores das escolas municipais (essa iniciativa foi levada para a unidade mexicana da ArcelorMittal há um ano). E o Ministério Público Estadual tem atuado em conjunto com a empresa para conseguir que o programa seja estendido para todas as escolas estaduais. “Brinco no MP que se trata de um programa de desarmamento dos espíritos. Temos escolas com muita violência no entorno, do professor olhando o aluno como agressor, e esse projeto busca mudar atitudes para melhorar aprendizagem”, diz Fabíola de Paula Secchin, promotora de justiça do estado.

Ajoelhou, tem de rezar?
Há um ditado que diz que futebol, religião e política não se discutem. Talvez com base nisso é que Marco Antônio Lovizzaro, professor dos cursos de pós-graduação da Fiap em assuntos relacionados a desenvolvimento organizacional, liderança, gestão de pessoas e gerência de mudanças, afirme que o ideal é a religião ficar fora do ambiente de trabalho. “Ter uma capela pode gerar constrangimento”, diz. Para ilustrar, ele comenta sobre uma empresa hipotética que possui uma capela em suas dependências. Nessa companhia, um grupo de colaboradores participa ativamente das missas realizadas no local. Em um determinado momento, são abertas algumas oportunidades de promoção na empresa. Por meio de critérios rigorosos, que levam em conta as competências dos candidatos, apenas pessoas do grupo que vai à missa são promovidos. “O que os que não professam essa fé podem pensar? O ser humano vive de percepção, e a imagem que fica é que existe preferência por determinado segmento religioso. O melhor é evitar isso no ambiente organizacional”, diz o professor.

E por falar em ditados, outro pode ser usado em casos como esse: de boas intenções o inferno está cheio. De acordo com Patrícia Epperlein, presidente da Mariaca, consultoria de gestão de pessoas e carreira, as empresas podem acabar “pecando” ao realizar ações que julgam como boas no que se refere à religião. “Ter uma capela para rezar é uma coisa boa, mas podem-se criar grupos. Haverá um grupo que irá [com frequência à capela]. Será que esse grupo ficará mais forte que o resto?”, questiona. É em ações como essa que o “pecado” pode acontecer. “Receio que as empresas possam criar segregações. Todos deverão fazer oração de manhã? E quem não gosta? Não serão obrigados, mas a questão não é obrigar ou não. Há quem vá orar e quem não vá, e isso, por si só, já cria segregações mesmo que não seja implícito. Não é o que a empresa deseja, ela não está fazendo por mal, mas o resultado disso pode não ser necessariamente bom.”

Antônio Lovizzaro
Lovizzaro, da FIAP: o ser humano vive de percepção 

O advogado Gilberto Ferreira da Costa, do escritório Macedo e Costa Advogados, aconselha as companhias a terem muito cuidado para respeitar a liberdade ampla e irrestrita à religião ou sua ausência garantida pela Constituição. Ele avalia que pode ser uma boa ferramenta de RH, desde que não seja imposta e que não beneficie os grupos ligados à religião professada pelo dono da companhia. “Se forem beneficiados, isso cria uma desigualdade incabível e pode gerar ações na Justiça de pessoas que se sentirem preteridas.”

Transparência
Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work, avalia que atritos com os funcionários com relação a esse tema devem ser dirimidos já no início da contratação. Para ele, a empresa pode trazer para a companhia pessoas comprometidas com a sua causa. “Ela tem o direito de colocar isso como requisito. E a pessoa que está entrando tem o direito de saber disso. Imagine que, no primeiro dia de trabalho dela, ela é chamada a participar de uma oração e ela é radicalmente contrária a isso. O que fazer? São questões que devem ser acordadas antes de a pessoa ser contratada.”

Lizete Araújo, diretora executiva da Veli RH, considera que algumas empresas estão alinhando práticas religiosas muitas vezes por terem a espiritualidade como um dos seus valores e concorda com a avaliação de Shiozawa. Para ela, é importante que a companhia, desde o início da entrada do colaborador, informe que existe essa prática e que a pessoa não é obrigada a ter essa vivência.

#L# O que não pode, explica o advogado Gilberto Ferreira da Costa, é a empresa discriminar um funcionário no processo seletivo em função de sua orientação religiosa. “Ainda que esteja ligado ao objetivo-fim da empresa ainda é um ato discriminatório. O Ministério do Trabalho, por meio de fiscalização, pode autuar a empresa por prática abusiva na contratação de empregados. Se, de um lado, possibilita ao empregado professar a fé no ambiente de trabalho, de atrair as pessoas para o emprego, por outro tem de tomar cuidado para que isso não se transforme em prática discriminatória.”

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