Pelo prazer fora do expediente

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Marina Caruso / Getty Images
Pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que problemas relativos à ereção durante o sexo afetarão cerca de 322 milhões de homens até 2025

A rotina conturbada de compromissos profissionais fez com que Rômulo, um executivo bem sucedido da área financeira, deixasse sua vida pessoal de lado. Ele não sabia mais o que era ficar off-line do trabalho. A bandeja em que tomava café da manhã perdeu lugar para seu notebook. Com inúmeras reuniões, sem horário para terminar e prazos apertados, veio o descaso com a saúde, seguido de um diabetes e um problema que ameaçaria seu segundo casamento: a falta de ereção durante o sexo. Depois de relutar diversas vezes, procurou tratamento médico. Fez sessões de terapia. Por fim, decidiu realizar um implante peniano. A decisão trouxe de volta o prazer à vida de Rômulo. Hoje, ele agradece ao médico pela ajuda, e afirma que o tratamento lhe trouxe de volta a qualidade de vida.  O nome de nosso personagem é fictício, mas a história é real e reflete um problema que afeta cada vez mais homens no Brasil e no mundo: a disfunção erétil – definida pela classe médica como a incapacidade persistente para atingir ou manter uma ereção que dure o tempo suficiente para uma atividade sexual satisfatória.

Em grande parte dos casos, o estresse é a principal causa desse problema. Um estudo da empresa de espaços de trabalho flexíveis Regus ouviu mais de 16 mil profissionais de todo o mundo, incluindo o Brasil, e constatou que esse problema, o estresse, já atinge dois quintos dos trabalhadores brasileiros (41%), que apresentaram como principais causas para o abalo a preocupação com o emprego (55%), com o equilíbrio das finanças pessoais (45%) e com a manutenção de sua carteira de clientes (38%). “Sem dúvida, trabalhadores estressados são infelizes e doentes. Com isso, as empresas que desejam ajudar suas equipes a levar uma vida mais gratificante não podem deixar de analisar e combater os níveis de estresse. A flexibilização do trabalho foi apontada por 66% dos entrevistados como uma forma de reduzir o estresse”, afirma Michael Turner, vice-presidente da Regus para a América Latina. Nesse ambiente cada vez mais competitivo, a vida sexual torna-se um ator coadjuvante ou, em alguns casos, sai de cena nesse filme da vida real. O fato merece cada vez mais atenção. Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que problemas relativos à ereção durante o sexo afetarão cerca de 322 milhões de homens até 2025. Só no Brasil, 15 milhões não chegam até o final de uma relação sexual.  

O impacto é substancial na vida do homem e na relação conjugal. Em muitos casos, os problemas de disfunção erétil podem resultar na perda da autoestima, no prejuízo à autoimagem, e também causar a interrupção de relacionamentos. Tratamento para os fatores físicos e psicológicos não faltam, e o Brasil é um país referência em medicamentos, cirurgias e terapias sobre o assunto.

Universo feminino
Segundo Carlos Augusto Cruz de Araújo, cirurgião vascular e presidente do Instituto Paulista para Tratamento da Disfunção Sexual Masculina, a perda do interesse na vida sexual pode ocorrer tanto em homens quanto em mulheres. Nos dias de hoje, elas também possuem a mesma carga de responsabilidades que caracteriza o mundo executivo. “O problema é que no homem, além da perda de libido, pode haver alteração na ereção”, destaca. No caso das mulheres, o excesso de horas no trabalho leva ao desinteresse sexual e também ao atraso no ciclo menstrual.

Contudo, os homens ainda são os mais atingidos. Em muitos casos, em decorrência de um estilo de vida desregrado, caracterizado pelo descuido na alimentação, sedentarismo e o uso indiscriminado de álcool e medicamentos. “Para que o homem tenha saúde sexual ele precisa estar relaxado, só assim o sangue circulará livremente pelas veias que formam o pênis, o que proporcionará a ereção e posteriormente a ejaculação perfeita”, diz o especialista. E para quem imagina que os problemas ligados ao sexo só atingem homens acima dos 60 anos, é bom rever os conceitos. Recentes estudos da Associação Urológica Americana indicam que 52% dos jovens no mundo sofrem de disfunção erétil. “Quanto mais cedo tratamos, maiores são as chances de retomada da vida sexual e também de impedir que outras doenças circulatórias apareçam”, alerta o urologista Aguinaldo Nardi, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia. Ademais, esses exames de rotina também são de grande importância para controlar problemas de coração, circulação e  diabetes. 

O urologista ressalta que há várias maneiras de restabelecer a vida sexual, tais como os remédios de via oral, reposição hormonal e implantes penianos. “Hoje, é possível colocar uma prótese e dois dias depois retomar a vida sexual”. Para evitar chegar a este ponto, as dicas básicas são escapar das tentações do fumo e do álcool e manter uma rotina de prática de esportes e sono saudável. Do outro lado do tour de force, cabe às empresas fazer a sua lição de casa: estimular seus funcionários a ter uma vida mais saudável, com atividades recreativas ao longo do expediente e que auxiliem na diminuição do estresse. “A vida sexual prazerosa pode melhorar a qualidade de vida, o desempenho no trabalho e o relacionamento afetivo com a companheira”, afirma.

Como abordar o tema em casa
Um dos principais obstáculos para os especialistas em saúde sexual é a primeira consulta. “A companheira tem papel decisivo. Em muitos casos, são elas que ligam para agendar uma consulta e acompanham o paciente até o consultório”, enfatiza Eduardo Bertero, especialista em urologia e disfunção sexual masculina. Ele indica que a orientação começa já na própria sala de espera, onde são oferecidos folhetos explicativos sobre o tema – um primeiro contato com um assunto que tanto o aflige. Bertero lembra que os homens afirmam que a saúde está em ordem, mas os exames dizem o contrário. “Como a artéria do pênis é muito fina, ela entope mais rápido, a disfunção erétil é a antecessora de outros futuros problemas vasculares mais graves. É um sinal amarelo para o homem”.

Não só os fatores fisiológicos são determinantes para o bom desempenho sexual. As causas psíquicas, que muitas vezes não estão ligadas somente ao avanço da idade, podem frustrar o homem. Carmita Abdo, psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex), afirma que para os homens é muito difícil iniciar o tratamento e entender a função da terapia. No entanto, ela aponta que, quando começam, todo o preconceito é desfeito. 

Restabelecendo a confiança
A especialista explica que a terapia é focada na questão sexual e nas dificuldades diversas apontadas pelo paciente.  Para Carmita a terapia restitui em poucas sessões a autoconfiança e atua nos casos de crises conjugais, depressão, síndrome do pânico ou bloqueio do desejo. “Muitas vezes, na terapia, identificamos que o paciente está racionalmente querendo o relacionamento, mas a parceira não lhe proporciona o desejo.” Além do estresse, Carmita relata que são inúmeras as causas psicológicas que interferem na saúde sexual, que vão desde fatores considerados mais amenos, como a insegurança, autoestima baixa e a inibição à figura feminina. Em casos mais crônicos, o paciente pode apresentar ansiedade, depressão e fobia, bem como condições mais sérias como a bipolaridade e a síndrome do pânico. “É durante as sessões de terapia que o paciente revela quais os pontos que precisam de tratamento, para deixá-lo relaxado durante a prática sexual.” 

De acordo com  levantamento  da ProSex, 45% dos brasileiros acima de 40 anos não estão satisfeitos com a qualidade da ereção. Dos entrevistados, 1,7% revelaram que nunca tiveram ereção, 31% afirmaram possuir a disfunção mínima e os demais confirmaram ter uma disfunção moderada. Além do mais, a pesquisa revela que para dois em cada cem homens que ultrapassaram os 40 anos a ereção não ocorre em nenhuma das tentativas. O estudo ainda aponta que o problema não está focado em uma determinada classe social. “Isso nos leva a pensar como é importante cuidar da saúde física e emocional para que o sexo não seja comprometido”, reitera a psiquiatra Carmita Abdo.


Cuidados essenciais
Existem causas cientificamente comprovadas da disfunção erétil. Confira abaixo as seis dicas para evitar o problema:

1 – Durma bem
Em um estudo da Unifesp, os pacientes que sofriam de impotência sexual despertavam mais durante a noite e tinham o sono fragmentado, sem conseguir chegar ao estado de sono profundo. Além disso, a falta de sono aumenta as chances de problemas cardiovasculares e diabetes, além de favorecer o ganho de peso, fatores que contribuem para a impotência.

2 – Fique longe das drogas
Um estudo da Universidade Real de Londres aponta que homens que fumam têm 40% a mais de risco de sofrer de disfunção erétil. Quanto maior o número de cigarros consumidos, maior a chance de ter problemas no desempenho sexual. Isso ocorre porque o cigarro tem substâncias que entopem a microcirculação, o que atinge também o pênis e a ereção. Um estudo da Unifesp também descobriu que, entre usuários de álcool, cocaína, crack e ecstasy, 47% têm ejaculação precoce, redução de libido e impotência.

3 – Cuidado com machucados
Muitos jovens que não sabem a origem do seu problema de ereção podem ter sofrido um trauma na região do pênis. O trauma é frequentemente causado durante a prática de esportes. Caso você tenha sofrido algum acidente, por menor que seja, vale fazer uma avaliação com o urologista ou médico especializado.

4 – Bicicleta
Um estudo publicado no Journal of Sexual Medicine alerta que ciclistas devem tomar cuidado com os assentos de bicicleta que escolhem. O estudo indica a compra de selins que não tenham a ponta tão protuberante.

5 – Diabetes
As artérias do pênis são muito sensíveis às alterações vasculares causadas pelo diabetes. Cerca de metade dos pacientes com diabetes têm problemas de ereção. Remédios mais conhecidos, como o Viagra, não surtem efeito, mas há outras formas de tratamento.

6 – Barriguinha
A circunferência abdominal não é causa direta da disfunção erétil, mas sim as alterações metabólicas decorrentes da obesidade podem gerar problemas sexuais: hipertensão, colesterol alto, sistema circulatório debilitado, entre outros.


Balancetes longe da cama
Que o estresse é um dos grandes vilões da vida sexual saudável já é do entendimento de todos. Para evitar problemas na vida sexual, o homem deve procurar deixar questões profissionais no escritório. A atitude o ajudará na vida pessoal e profissional. “Pessoa estressada é prejuízo para a qualidade e produtividade do trabalho”, ressalta Sâmia Simurro, psicóloga e vice-presidente de eventos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). Sâmia revela que muitas organizações já implementam programas e oferecem ferramentas para que seus funcionários possam gerenciar da melhor forma sua saúde e seus fatores de estresse. Segundo ela, a comunicação clara entre a companhia e o empregado é primordial. Um funcionário sem um plano de carreira definido, treinamentos sem fundamento e prazos impossíveis de serem cumpridos terá como resultado altos níveis de estresse, que o levam ao adoecimento geral. “A própria comunidade médica recomenda que, no caso de muita tensão, é melhor deixar o sexo para outro dia”, sugere a psicóloga. Para ela, sexo combina com relaxamento dos nervos e, tanto para o homem quanto para a mulher, a dica é deixar balancetes de empresas e extratos bancários do lado de fora do quarto e bem longe da cama.

 

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