Pelo uso consciente

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Ricardo Lobão
Lobão da UIB Benefícios: o benefício deve ser usado apenas para a compra de remédios

O ciclo virtuoso pela saúde dos colaboradores começa a se fechar com o investimento acentuado das grandes corporações no benefício-medicamento. Segundo dados da pesquisa Global HR Barometer 2013, da consultoria Michael Page, realizada com mais de 4.300 empresas pelo mundo, das 171 brasileiras que responderam à enquete, 47% afirmaram que pretendem investir ainda mais em programas de bem-estar e saúde aos seus funcionários.

Entretanto, na opinião de Fábio Hansen, diretor da PBMA – Associação Brasileira das Empresas Operadoras de PBM (Programa de Benefício em Medicamentos), os remédios ainda não são vistos no Brasil como uma continuidade de todo o processo de qualidade de vida. “Hoje o plano de saúde oferece os médicos, os exames e 70% das vezes em que o paciente retorna ao consultório, sai com uma prescrição, que acaba ficando por conta do usuário, dificultando o acesso à medicação e, consequentemente, à cura. Por não ter suporte financeiro, ele não adere corretamente ao tratamento e acaba voltando ao médico, gerando novos custos de saúde para a empresa, como também o absenteísmo no trabalho. Por outro lado, se ele tem acesso aos remédios, terá estabilidade no seu quadro clínico, reduzindo gastos e ausências.”

Uso irracional
Mas nem sempre o benefício é usado com parcimônia. Hansen afirma que as empresas têm adotado controles cada vez mais rígidos na utilização do benefício para evitar o uso irracional dos medicamentos. O segmento já tinha por prática controlar o receituário médico e a resolução RDC nº 20/2011 da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelecendo novas normas para a venda de antibióticos e outros medicamentos causou um refreamento no uso abusivo do cartão-farmácia. “Esse controle é uma demanda dos clientes, porque, ao partirmos do princípio de que eles são os pagadores do benefício, exigem que haja responsabilidade no uso, de modo que seja necessária uma prescrição médica por trás, afinal, ninguém deve comprar medicamento ao seu bel-prazer”, opina.

O modo como o benefício é ofertado pode conduzir ao mau uso. Ricardo Lobão, CEO da UIB Benefícios, consultoria e corretora de seguros, explica que pelo fato de as organizações oferecerem o benefício em duas modalidades — convênio de descontos e PBM — a primeira opção é passível de fraude. “Há casos de pessoas que pegam seu benefício e compram medicamentos para outras ou até produtos que nem remédios são como fraldas, xampus e inclusive sorvete”, destaca. Para o executivo, o programa de medicamentos deve ser usado exclusivamente na compra de remédios para tratar a doença. “Se o auxílio for encarado como um benefício para comprar de tudo na farmácia, ele acaba virando um cartão de crédito”, adverte.

A automedicação, algo muito recorrente na cultura brasileira, também contribui nesse processo. Lobão conta que uma pesquisa feita nos Estados Unidos em 2007 mostrou que a influência de pais, colegas, balconista de farmácia e da internet fazem com que o usuário se automedique. “É uma questão mais difícil de mexer. Só o benefício não vai mudar esse processo. É preciso que a empresa trabalhe melhor a educação e a informação sobre a automedicação”, afirma. Para o executivo, programas que alertem os usuários dos riscos da automedicação são essenciais para o bom uso do benefício.

Para não cair nessas armadilhas, o CEO da UIB Benefícios elenca algumas dicas: “a empresa deve ter claro o objetivo do programa de medicamentos e, preferencialmente, adotar o modelo de gestão pelo PBM, com regras de elegibilidade e sistema informatizado que impeça o usuário de comprar produtos que não estejam devidamente liberados”.

Ademais, Lobão, da UIB Benefícios, recomenda aos gestores de RH não visualizarem o PBM só como um benefício, mas como um instrumento de gestão de custos. Ao fornecer o benefício-farmácia com subsídio, é preciso vislumbrar que há um impacto na melhora da qualidade de vida e da condição de saúde dos funcionários e também, consequentemente, promover uma mudança de comportamento deles e dos custos de saúde.

Por dentro do sistema
Fábio Hansen, da PBMA, afirma que os sistemas das operadoras do benefício são todos parametrizados para capturar fraudes como, por exemplo, venda de caixas acima do limite considerado ideal para o tratamento. Ele garante que não há possibilidade de distorções a não ser que haja conivência da farmácia. Ele explica que existem formas de capturar o uso indevido e quando o sistema o identifica, ele informa ao RH mais detalhes de determinada operação. “Inclusive os sistemas são operados on-line em tempo real por mais de 20 mil farmácias em todo o Brasil, de modo que toda autorização é pré-analisada”, completa.

#L# As operadoras atuam como processadoras de pagamento. O benefício é oferecido pelas redes das PBMs, que são responsáveis por toda a parte financeira da operação, cobrando do cliente e pagando a rede. A metodologia é semelhante à do cartão de crédito, com algumas variáveis, como a parte coparticipada do funcionário, que pode ser descontada em folha ou exigida no ato da compra, de modo que a empresa pode arbitrar a forma de copagamento do beneficiário. Segundo Hansen, o sistema já opera há 15 anos no mercado e é muito bem aceito pelas farmácias, seja uma filial das grandes redes, seja uma de bairro, “até porque as pequenas precisam desse tipo de convênio para sobreviver, pois o benefício garante uma demanda”.

PBM em números

> Hoje, mais de 200 milhões de americanos já recebem este auxílio de seus empregadores por meio do PBM (Pharmacy Benefit Management), aqui traduzido livremente para Programa de Benefício em Medicamentos. Enquanto isso, no Brasil, apenas 2,5 milhões de funcionários já recebem esse benefício.

> Pesquisa realizada pela PBMA revela que, no 1º trimestre deste ano, o número de organizações com mais de 500 empregados que recebem subsídio para a compra de remédios em rede de farmácias credenciadas cresceu 5,8% em comparação com o mesmo período de 2012. Com isso, o número de beneficiários registrou um aumento de 8,6%. A expectativa é de que cerca de 20 milhões de empregados estejam recebendo das empresas o benefício para a compra de medicamentos até 2017.

> Estatísticas apontam que 20% da população gera 80% dos custos com saúde e são as enfermidades crônicas que acarretam os casos de absenteísmo. Nesse contexto, o benefício-medicamento representa 12% do benefício saúde, inclusive ultrapassando a participação da assistência odontológica nessa conta, segundo Fábio Hansen, diretor da PBMA.

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