Pelos olhos de Boris

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Adriano Vizoni
Thays Matinez com Diesel, sucessor de Boris, seu novo cão-guia (foto: Adriano Vizoni)

Thays Martinez, de 37 anos, tinha apenas quatro anos quando perdeu a visão por conta de um vírus de caxumba. Muitos, em seu lugar, teriam dificuldades de aceitar essa realidade. Ela não. “Lembro de brincar de esconde-esconde na rua com as outras crianças – eu segurava na mão de alguém, saía correndo e até pulava muros. Isso me ajudou a perceber que eu podia fazer as mesmas coisas que as outras pessoas, mas, às vezes, de forma diferente”, conta. E podia mesmo. Aos 24 anos, formou-se em direito e algum tempo depois cursou MBA em marketing de serviços. Aos 28 anos, fundou uma ONG, o Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (Íris), e, atualmente, transita sem dificuldades pelo mercado de trabalho, como advogada, consultora de empresas e professora de direito. Além disso, ministra palestras em empresas e em estabelecimentos de ensino. “Claro que passei por momentos difíceis, principalmente na adolescência quando realmente tive consciência de que era diferente da maioria e tinha de lidar com obstáculos diversos”, confessa. Mas, segundo ela, com um bom trabalho de autoconhecimento e fortalecimento da autoestima é possível seguir. Ela seguiu. E para ajudá-la nessa jornada e adquirir mais independência, resolveu buscar um cão-guia. Encontrou Boris, um carismático labrador caramelo. “Foi uma das melhores coisas da minha vida. Com ele, aprendi que não existe limite para ir em busca de nossos sonhos. Ele me ensinou a valorizar não apenas as grandes realizações da vida, mas também as pequenas alegrias.”  Boris não foi apenas os “olhos” de Thays por quase 10 anos, mas a lição de vida de que ninguém é insubstituível. As diferenças são positivas e precisam acontecer. O que não é diferente no trabalho.

Chegada de Diesel: saber integrar a equipe
“Boris foi essencial para mim, tanto que costumo dizer que divido minha vida em antes e depois dele. Mas, como acontece no mercado de trabalho, meu companheiro teve de se aposentar em 2008. Já estava com doze anos e merecia o devido descanso. Uma nova busca começou e conheci Diesel, um labrador preto de dois anos. No começo, tive dificuldade em me adaptar ao novo. Internamente, adotei uma postura negativa e passei a rejeitá-lo, a não acreditar em seu talento. Não queria deixar a parceria que tinha com Boris, que conhecia tão bem meus pensamentos e sentimentos, e construir uma nova. Mas, felizmente, consegui desenvolver uma nova relação de cumplicidade com Diesel. Hoje, temos um vínculo muito sólido, formamos um time de sucesso porque aprendemos a nos conhecer e a nos respeitar. E diria mais: minha parceria com o Diesel é fruto do quanto aprendi em minha relação com Boris. A segurança que este me transmitiu me fez estar pronta para receber Diesel – que precisou de meu suporte para revelar todo seu potencial. Assim, costumo fazer uma analogia entre a parceria com um cão-guia e a integração das equipes. Boris tinha habilidades profissionais e pessoais diferentes das de Diesel. A parceria que eu mantinha com ele era um exato reflexo dessas características – do diálogo que mantínhamos. Por isso, quando passei a trabalhar com Diesel, adotei uma postura negativa. Nas empresas, todos os dias milhares de funcionários talentosos são ignorados por equipes porque são diferentes ou por terem chegado à empresa há pouco tempo. Essa postura reativa não os deixa mostrar o talento; não os deixa atuar em favor grupo.”

Lidar com o diferente: caminho para ser diferenciado
“O primeiro ponto que devemos ter em mente – em especial quando nos deparamos com a dificuldade em lidar com as diferenças – é compreender que estamos tratando de nossa própria limitação em lidar com o diferente de nós. Ou seja, tudo aquilo que não conhecemos, e que nos expõe a determinado risco, rejeitamos. Não é possível ser um profissional diferenciado quando pensamos e fazemos como todo mundo, já que os clientes exigem cada vez mais atenção às necessidades específicas. Como seremos capazes de atender ou perceber tais necessidades se não cultivamos a diversidade dentro de nossas equipes? Como ter habilidade para lidar com as diferenças, se preferimos permanecer na ´segurança´ de uma equipe formada por pessoas que se vestem da mesma forma, pensam igual, estudam nas mesmas escolas e falam as mesmas línguas?”.

#Q#

> Entender a importância da diversidade
“Boris e Diesel ensinam que a construção de uma nova parceria produtiva é proporcional à coragem de encarar o novo sem comparações descabidas. Lidar com as diferenças no ambiente de trabalho – e não estou falando apenas da inclusão de pessoas com deficiência – requer ouvir com atenção; entender aquilo que se está ouvindo; colocar-se na posição do outro; listar os prós e contras; discordar, quando for o caso, esclarecendo a sua posição; abrir espaço para a comunicação fluida e transparente; e investir na superação. Será que as empresas estão investindo na superação? Diante do cenário atual, que possui diferentes tipos de profissionais e está sempre se transformando, não há espaço mais para o conservadorismo, para o medo da mudança. O diferente, em todas as suas versões – comportamentais, espaciais, culturais, profissionais – exige mentes abertas, motivadas, inspiradas e capazes não só de lidar, mas de catalisar o que há de melhor nas diferenças, buscando caminhos inovadores.”

> Cão-guia na empresa
“Antes de se instalar uma crise de pânico coletiva na empresa com a chegada de um colega com deficiência – tenha ele ou não um cão-guia -, uma única regra basta: aprenda a perguntar! A pessoa com quem se vai conviver é sempre a mais indicada para esclarecer em quais situações precisa de ajuda e qual a melhor maneira de prestar essa ajuda. Digo isso porque nem todas as pessoas que têm a mesma deficiência têm as mesmas dificuldades, nem as mesmas facilidades. Em relação ao convívio com um funcionário que possui um cão-guia, tenho quatro dicas básicas:

1 Enquanto o cão-guiaestiver guiando, ou seja, trabalhando, não chame a atenção do animal.
2 O usuário é a pessoa mais preparada para lidar com o cão. Por isso, se ele estiver “atrapalhando o trânsito”, por exemplo, peça para o dono mudar o cão de lugar.
3 Quando for fornecer orientações sobre um caminho, dirija-se à pessoa; não ao cão.
4 Não ofereça água ou qualquer tipo de alimento, ainda que canino, sem a autorização do usuário. Isso pode prejudicar a saúde e o comportamento do cão-guia.

 

Galeria de imagens
Fotos de Adriano Vizoni

#G# 

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