Gestão

Pensata – O lado negro da força

Roberto Affonso Santos
13 de dezembro de 2012
iStockphotos

Tudo aponta para a mesma direção: a pressão por resultados em curto prazo não vai mudar, o estresse de se fazer sempre mais com menos não tem fim, a insegurança no emprego – mesmo para aqueles funcionários mais antigos e comprometidos – são uma ameaça permanente nas organizações. E é nesse cenário sombrio que algumas tendências comportamentais podem extrapolar e colocar em risco sua ascensão ao topo ou sua manutenção lá em cima: é o “lado sombra”, o momento em que os pontos fortes da personalidade tornam-se nosso “Darth Vader” – o lado “escuro da força.” Foi o psicólogo americano Jon Bentz que iniciou a pesquisa moderna sobre o descarrilamento de executivos. Ele relatou que, dentre as pessoas que tinham características positivas, como inteligência, confiança e ambição, um subgrupo fracassara. Bentz concluiu que o fracasso tinha muito menos a ver com a falta de qualidades e talentos e mais com traços negativos de personalidade, que leva líderes à incapacidade de reter talentos em suas equipes.

As pesquisas de Bentz encorajaram outro psicólogo americano a ir mais a fundo nos motivos que levam os executivos a perderem os trilhos de sua carreira. Robert Hogan – o primeiro a desenvolver uma ferramenta de avaliação da personalidade específica para o meio corporativo – criou o Inventário Hogan de Desafios, em que lista as 11 tendências disfuncionais que podem fazer um profissional sair da pista do sucesso. Conheça quais são:

1Temperamental » o temperamental é aquele que, em condições ideais, tem uma usina de energia emocional e paixão pelo que faz. O lado sombra, isto é, o exagero desta fortaleza, pode se revelar no vaivém emocional – vai da empolgação ao desânimo total em pouco tempo e pode ter erupções vulcânicas de suas emoções – que podem ser bem destrutivas para quem estiver por perto.

2 Cético » os céticos são profissionais cuja mais brilhante característica é a de justamente ter bons insights sobre situações carregadas politicamente e sobre o que pode sair errado num plano estratégico. O Darth Vader entra em cena quando a pessoa enxerga segundas e terceiras intenções onde não existem e só consegue ver o pior cenário em todos os planos. Os que entram na rota de ceticismo sempre têm muitos argumentos para justificar a sua visão, e uma falta de confiança crônica nos outros.

3 Cauteloso » os cautelosos são cuidadosos e raramente vão tomar uma decisão precipitada. Entretanto, também podem evitar qualquer tipo de inovação, resistir a mudanças ou a fazer algo que não querem, mesmo que precise ser feito. Para evitar críticas, geralmente seguem as regras e repetem a “receita do bolo”. Esse comportamento acaba também sendo incentivado na equipe – afinal de contas, ele não quer levar uma chamada em público por um erro que não foi dele.

4 Reservado » seu ponto forte é resistir bem a adversidades; essas pessoas não são atingidas pelas críticas e não levam em conta a rejeição. O lado sombra dos profissionais reservados, entretanto, pode revelar uma pessoa indiferente às expectativas dos outros, e que parece ser formal, distante e carente de habilidades sociais.

5 Passivo resistente » pessoas que têm essa tendência resistem passivamente às demandas dos outros e costumam dar demonstrações de como são cooperativas. Mas, na sua pior forma, são teimosas, independentes e protetoras de sua “agenda oculta”. Quando pressionadas em “mostrar trabalho”, tendem a desacelerar o passo e demonstrar seu ressentimento de forma indireta, procrastinando as tarefas ou inventando desculpas.

6 Arrogante » pessoas cujo perfil se destaca pela arrogância são – acredite – muito carismáticas, “líderes natos”, e têm muita energia para o trabalho. Entretanto, em situações em que se sentem ameaçadas, revelam seu pior lado: esperam admiração e sucesso em tudo o que fazem. Se as expectativas não são alcançadas, explodem em reações narcisistas.

7 Ardiloso » os profissionais que têm essa característica destacada geralmente são autoconfiantes e exercem forte impacto interpessoal. Testam limites, conseguem favores dos outros com aquele famoso “jeitinho” e geralmente se veem como intocáveis. O único problema, porém, é que o lado sombra revela profissionais que têm grande dificuldade em manter compromissos e em aprender com seus próprios erros.

8 Melodramático » esperam sempre ser o centro das atenções e são bons em chamar atenção sobre si mesmos e têm bons perfis para carreiras que pedem uma intensa exposição pública com talentos para a dramaturgia aplicada. Entretanto, esses profissionais também são péssimos ouvintes, impulsivos e imprevisíveis; como gestores, acabam não dando espaço para seu pessoal brilhar, pois os holofotes precisam ter apenas um foco – sua grandiosidade.

9 Imaginativo » o imaginativo costuma ter percepções e insights diferentes sobre as coisas. Geralmente parecem profissionais com grande imaginação, inovadores e até excêntricos. O lado sombra dessa personalidade revela profissionais extremamente focados em suas “viagens” – e que nem sempre conseguem ser traduzidas de forma que outros entendam. Como gestores, costumam deixar sua equipe confusa em relação ao que querem ou esperam.

10 Perfeccionista » fixam um alto padrão de qualidade para si e para os outros; são meticulosos, planejam tudo com muito cuidado, seguem as regras e esperam que os outros façam o mesmo. O lado sombra revela pessoas exageradamente detalhistas que se perdem olhando as formigas e deixam os elefantes passarem às suas costas. Têm grande tendência ao micro gerenciamento e o controle excessivo cria uma equipe extremamente dependente e lenta.

11 Obsequioso » pessoas sempre preocupadas em agradar, como um meio de serem aceitas, principalmente pelos chefes. Estão sempre alertas a qualquer sinal de desaprovação, e igualmente alertas às oportunidades em que podem se colocar à disposição de seus superiores ou da organização. Como esses profissionais nunca mostram resistência ou desacordo, tendem a subir na organização. O lado sombra, entretanto, revela profissionais com dificuldade em tomar decisões, ou tomar partido em situações tensas.

Todos nós temos nossos descarriladores de carreira, nosso Darth Vader. Essas características podem ter contribuído para chegarmos a posições-chave; porém, elas podem se revelar prejudiciais quando exageradas. Podemos adotar medidas para interromper a derrapagem quando percebemos que estamos entrando em um período de estresse.

O problema maior acontece quando a pessoa que está numa posição de comando nega essas tendências e não consegue tirar proveito de feedbacks recebidos. Nesse caso, fatalmente ela terá que arcar com as consequências – uma promoção que nunca vem, a perda de relevância na organização ou até demissão.

Roberto Affonso Santos é diretor da Ateliê RH

 

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