Pequenos no “mercado” de trabalho

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Pequenos trabalhando / Crédito: Getty Images
Creches corporativas / Crédito: Getty Images

Entre a dedicação total à maternidade e o retorno à atividade profissional, qual mulher não preferiria ficar com as duas opções? Ainda que conte com aquele valor a mais no contracheque, o auxílio-creche, como determina a CLT, a separação do bebê para uma mãe vai além do viés financeiro. O ato tem um impacto tão grande no comportamento das mulheres e na produtividade delas que muitas empresas programam instalar berçários e creches no ambiente corporativo como forma de investir em tranquilidade para ambos os lados.

Trata-se de um investimento de fôlego. Além do custo de uma edificação específica dentro da empresa, o valor por criança pode chegar a R$ 1 mil/mês (conta esta dividida com a colaboradora). Da parte da empresa o lucro é intangível: desperta o orgulho de quem trabalha na companhia, ganha a fidelidade dos consumidores e a admiração da concorrência. E do lado materno não há palavras para descrever a sensação de ter o bebê ao lado do escritório.

A iniciativa mencionada está ganhando a simpatia das empresas pela constatação de que, por falta de um esquema de cuidados para seus bebês depois da licença-maternidade, a maioria das mulheres opta pelo não retorno ao trabalho. No Brasil, menos da metade das funcionárias retorna à vida profissional depois do nascimento do primeiro filho. A constatação é da consultoria Robert Half, empresa especializada em recrutamento, que decidiu avaliar como e quanto as empresas estão investindo nas mulheres.

Por meio de um detalhado questionário que enviou a corporações do mundo inteiro, 1.775 diretores de RH de 13 países responderam às perguntas da consultoria; entre eles 100 são brasileiros. A questão da mulher é muito similar no mundo inteiro e as empresas estão atentas. Especialistas em desenvolvimento econômico sustentam que, para evoluir, as empresas devem levar em conta as necessidades da mulher. Riane Eisler, cientista social dedicada a estudar a relação entre a condição da mulher na sociedade e a qualidade geral de vida da população, diz que os cuidados dispensados às crianças e à educação infantil são determinantes. “Se as mulheres não forem prestigiadas, capacitadas e justamente remuneradas, gerações inteiras estarão comprometidas”, diz. “Ao planejar seus lucros, os empresários deveriam incluir uma relação de parceria com as mulheres”.

Oferecer cuidados infantis de qualidade em tempo integral é uma decisão estratégica da empresa, que revela o interesse de compartilhar com as famílias a educação das crianças. O custo-benefício e a relação taxa de natalidade x plano de expansão são detalhes que o Ceduc (Centro de Formação Profissional e Educacional), especializado na criação e gestão de creches, deixa claro já no primeiro encontro com as empresas interessadas. “Quando abre as portas para a creche dentro de seus domínios, a empresa assume um compromisso com a criança”, diz Danielle Wolff, diretora do Ceduc. A executiva diz que em geral os empresários se assustam quando ouvem o discurso – “mas se acalmam quando digo que qualquer ser humano dentro da empresa é de responsabilidade da companhia”.

Investimento Social
Na teoria, a decisão pela creche é contabilizada como investimento social. Na prática, oferece tranquilidade à mãe para que esteja por perto no caso de qualquer intercorrência. Não que ela vá resolver, já que o pessoal de apoio é preparado para isso. É que a presença materna na hora em que a criança pode estar mais vulnerável pode fazer toda diferença – para a mãe e para o bebê. Essa realidade é vivenciada nas três plantas da Avon, onde as creches atendem mais de 100 crianças entre 6 meses e 2 anos. São mais de sete mil funcionários dos quais 60% são mulheres. “Nossa proposta é incentivar o aleitamento materno”, explica Luciane Silva, diretora de RH da Avon Brasil.

Empresas que têm nas mulheres seu maior contingente visam lucro como todas as outras. A diferença, porém, é que algumas incluem facilidades para a mulher, para que ela não tenha de escolher entre a profissão e a maternidade. Do ponto de vista da produtividade, quando decide investir na creche, a empresa pode sair ganhando, segundo testemunho de Luciane Silva, da Avon: “A mulher trabalha com mais tranquilidade ao saber que seu bebê está por perto e que poderá sair para amamentar nas horas certas. Isso traz leveza para o trabalho”.

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Creches corporativas / Crédito: Divulgação

Fernanda Santos, analista de treinamento da Avon, esteve na primeira leva de bebês que frequentaram a creche da Avon, há 32 anos, quando sua mãe ainda era funcionária da companhia. Fernanda tinha uma irmã mais velha, que não chegou a ficar no berçário – “e minha mãe conta que teve muito mais tranquilidade para trabalhar quando eu nasci porque sabia que eu estava em segurança”, diz. A convivência com as profissionais da creche e com as crianças da mesma faixa etária também influiu no comportamento de Fernanda: “Minha mãe acredita que por causa disso sou muito mais sociável do que minha irmã”. Na época em que Fernanda era bebê as funcionárias da creche eram colaboradoras da Avon, hoje os serviços foram terceirizados, mas a responsabilidade e os cuidados com os bebês continuam.

Débora Albuquerque / Crédito: Divulgação
Débora, da Avon: mais próxima do filho Cauã / Crédito: Divulgação

Retenção de talentos
A creche é um bom argumento para a empresa reter seus talentos. Além de maior disponibilidade para o trabalho, a mulher tem interesse em conservar seu posto porque sabe o valor do benefício. O auxílio-creche é um direito previsto na CLT e deve funcionar em empresas com mais de 30 funcionárias. Empresas que não têm condições de manter uma creche dentro do próprio espaço sempre podem atender de outras formas: creches mantidas por corporações em regime comunitário, convênio com entidades públicas ou privadas ou com o auxílio-creche, quantia que deve ser acertada em acordo entre a empresa e a trabalhadora.

Eles também podem ser beneficiados
O valor varia muito e costuma ser determinado em negociação coletiva. Embora o texto da CLT fale apenas no direito das mulheres, muitas empresas estendem o benefício aos homens que são pais. O texto oficial do Ministério do Trabalho deixa claro que a creche é de zero a seis meses, mas os prazos podem variar ou ser estendidos até seis anos. Em geral, o auxílio-creche fica muito aquém do benefício, mas detalhes desse tipo devem ser tratados entre trabalhadores e a empresa. Em caso de descumprimento do acordo de auxílio-creche, a empresa pode ser notificada e, posteriormente, multada caso seja constatada a infração.

Uma vez que a maternidade vai continuar sendo atribuição das mulheres e a entrada delas no mercado de trabalho é irreversível, o cuidado com seus bebês é uma questão que diz respeito a todos e deve ser conduzida por meio de parcerias. Em suas pesquisas em 89 países sobre a forma como os governos se comportam diante da questão, a cientista social Riane Eisler concluiu que o status da mulher revela um diagnóstico sobre qualidade de vida muito mais real que o PIB. Para ficar em apenas dois exemplos, ela faz uma comparação entre Kuwait e França, países que ostentam praticamente o mesmo PIB. No caso da França, onde o modelo é democrático e de parceria, a taxa de mortalidade infantil é de oito para cada mil bebês nascidos vivos. No Kuwait, onde a relação é de dominação em relação à mulher, o índice é de 19 bebês mortos para cada mil nascidos vivos. O desenvolvimento da mulher é essencial para o crescimento econômico, deduz Riane Eisler. “Com a abertura de um canal de ascensão das mulheres, as empresas sempre terão resultados econômicos positivos.”

Com a palavra, as colaboradoras mães

Novos aprendizados
“Não imagino como seria a minha vida se não contasse com o benefício do berçário dentro da empresa. Mais que a tranquilidade de manter meus dois filhos na creche da Unilever, o que me encantou mesmo foi o pessoal de apoio. Recebi aconselhamentos incríveis: a pedagoga tinha toda uma técnica para me orientar na retirada das fraldas; a enfermeira tinha uma habilidade especial para tratar da febre e me mantinha avisada e presente porque sabia que meus filhos iriam se sentir melhor. As nutricionistas planejavam uma alimentação saudável e variada e as crianças aprendiam a comer com talheres na hora certa e sem trauma. Isso sem falar na convivência das crianças dentro da creche, onde cada uma vinha de uma família diferente com experiências diferentes. Essa troca foi tão rica que se integrou ao aprendizado dos meus filhos. A tranquilidade de trabalhar com a retaguarda da creche dentro da empresa foi responsável pelas promoções que recebi. E também foi o motivo que me levou a recusar uma proposta de trabalho para ganhar muito mais em outra empresa onde não havia creche.” Denise Ehrlich, gerente de finanças

Trabalho ou filho? Os dois
“Minha dúvida entre continuar no trabalho e virar mãe em tempo integral se desfez quando levei meu filho para a creche da Avon. Ter o filho bem próximo e estar disponível para ele em caso de necessidade foram itens decisivos para eu continuar a minha carreira profissional. Meu filho tem um ano e meio e já apresentou episódios de febre e de manha como qualquer criança. Se ele não estivesse no berçário da empresa, tão perto de mim, o tempo que eu levaria para me locomover não compensaria – nem para mim nem para a empresa. Em todas as oportunidades em que ele estava chorão ou doentinho, não perdi mais do que 15 minutos entre deixar meu posto, ir até o berçário, fazer um carinho, acalmar e voltar. Sei que é um dilema para toda mulher a volta da licença-maternidade – e a amamentação é sempre um argumento que pode decidir a questão. Sem berçário na empresa, a mulher acaba desistindo e o bebê começa com a mamadeira muito antes do que deveria.” Débora Albuquerque, coordenadora de TI

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