Gestão

Perto de casa

Cristina Morgato
22 de novembro de 2011
Thinkstockphotos

Uma pesquisa sobre locomoção urbana realizada recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Ibope aponta que 24% dos brasileiros levam mais de uma hora no percurso até o trabalho. Considerando apenas cidades com mais de 100 mil habitantes, este número cresce para 32%. Isso quer dizer, que os paulistas chegam a passar o equivalente a um mês por ano parados no trânsito – tudo isso por conta da frota da cidade, que ultrapassa sete milhões de veículos. O estudo mostra, ainda, que o transporte coletivo – ônibus, microônibus, metrôs, trens etc. – é o principal meio de locomoção para 42% dos brasileiros. Atentas a esta realidade, diversas companhias estão fazendo o caminho contrário ao escolher um local para sua sede, fugindo de grandes centros empresariais onde o problema do trânsito é ainda pior.

É o caso da Apdata, especializada no desenvolvimento de soluções de tecnologia para a área de recursos humanos, que decidiu investir na construção de sua sede no bairro de Vila Matilde, na zona leste de São Paulo, já que a maior parte de seus colaboradores (cerca de 60%) vive nessa região. Segundo a presidente da empresa, Luiza Nizoli, a decisão contribuiu para aumentar a qualidade de vida dos funcionários e, diretamente, refletiu no bom desempenho dos colaboradores. A decisão de mudar começou em 1999, face ao crescimento da Apdata e a preocupação em manter o quadro de colaboradores. Luiza conta que, na ocasião, houve o impasse entre mudar a empresa para a Zona Sul (Berrini), onde os grandes players do nosso segmento estavam localizados, ou optar pela Zona Leste – neste caso seria possível manter as pessoas que já faziam parte da organização.  “Mas ao finalizar a análise geográfica de onde essas pessoas moravam, não tivemos dúvida: entre estar na contramão do mercado e resguardar a tranquilidade dos colaboradores, decidimos por eles. Tínhamos a certeza que, desta forma, a Apdata também seria muito beneficiada”, completa.

Também com o objetivo de melhorar o cotidiano dos funcionários, a MDC On Line, empresa de marketing de relacionamento, acaba de se mudar do Itaim Bibi, zona sul, para a região central da cidade. O maior estímulo foi a chegada da nova estação República, da Linha 4-Amarela do Metrô, que facilitou a locomoção para o centro.  Ao buscar uma alternativa de espaço para melhorar o  layout do escritório, as áreas de recursos humanos e marketing resolveram estudar trajetos e estilos de vida dos 110 colaboradores diretos da empresa para definir o local mais adequado. Resultado: 90% demonstraram interesse em estar na região central da cidade, perto de alguma estação de metrô, local de onde ficaria mais fácil seguirem para estudos, diversão ou mesmo voltar para casa. A partir daí a empresa focou suas buscas no conhecido “centro velho” da cidade e locou um espaço ao lado da Praça da República.

#Q#

“Grande parte de nossos colaboradores faz faculdade, pós-gradução ou cursos de aprimoramento. Outros aspiram por possibilidades de diversão e cultura na região central e imediações da Paulista”, conta a diretora e sócia-fundadora da empresa, Mônica De Camillis. “A redução de tempo pesou muito no processo decisório, pois há pessoas que vão economizar pelo menos uma hora e meia por dia no trânsito e estão radiantes com a melhora na qualidade de vida”, observa a diretora, lembrando que o pacote ainda vai resultar no aumento de alternativas de alimentação, pois as opções na zonal sul da cidade estão cada vez mais caras, e numa economia financeira para a empresa, que custeia o transporte dos profissionais. Alguns profissionais da equipe chegavam a gastar quatro horas por dia no transito, na ida e volta ao trabalho. Agora gastam, em média, uma hora e quarenta minutos.

Na ponta do lápis
E os resultados podem ser sentidos na prática. Na Apdata, por exemplo, houve um ganho de produtividade de mais de 60% e a empresa cresceu mais de 120% nos últimos cinco anos. “Morar próximo ao ambiente de trabalho é sinônimo de bem estar e de alegria. Hoje temos colaboradores que vêm trabalhar a pé. Isto é algo imensurável para a vida pessoal e profissional dessas pessoas. E, obviamente que essa diminuição de stress reflete positivamente nos resultados da organização”, comemora Luiza. Com relação ao turnover, a empresa tem mais números a comemorar, conquistando um índice menor que 1% – considerado um grau de excelência para o segmento de serviços. “Antes da mudança, o turnover chegava a 8%”, completa a presidente.

Outro ponto positivo é a contribuição das companhias para a região onde se instalam. “Temos muito orgulho de participar ativamente no desenvolvimento da região, bem como trazer novas possibilidades de empregos para uma população que sempre conviveu com um desgaste físico e mental ao atravessar a cidade para chegar ao seu trabalho”, explica Luiza.  Já a MDC pretende colaborar para a revitalização do centro antigo de São Paulo. Para isso, tem projetos para estimular passeios orientados sobre a história da cidade, oferecendo informativos com roteiros de entidades culturais. “Hoje trabalho de costas para a janela, mas logo teremos à vista de nossas janelas jóias como Edifício Copan, um projeto do Niemeyer, a Torre do Banespa, além do complexo de edifícios que cerca a Praça da República. Isso não tem preço”, comenta o diretor de TI da MDC On Line, Fausto Venino. Na equipe de Venino, vários profissionais já comemoram o ganho de tempo para investir nos projetos pessoais. A mudança está seguindo uma tendência que deve se acentuar com os incentivos da prefeitura para a reocupação do Centro Velho da cidade. Atualmente, várias empresas já estão procurando locar seus escritórios em áreas próximas da República e da Praça da Sé.

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