Gestão

Pescaria planejada

12 de agosto de 2010

“Não se iluda achando que só o lazer é suficiente. O indivíduo se aposenta e no dia seguinte vai a uma loja de caça e pesca perguntar qual a melhor linha, porque nunca pescou antes. Aí não vai funcionar.” Com um exemplo bem-humorado, mas não exagerado, o médico Wilson Jacob, professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da USP, tenta mostrar como a falta de preparação para o momento de deixar a vida de trabalho pode provocar grandes equívocos – e o pior, com prejuízos à saúde. “As evidências apontam que o bem-estar piora depois da aposentadoria, principalmente quando ela não é planejada”, afirma.

Segundo Jacob, ao cessar as atividades que faziam parte de um dia de trabalho, como ir até o escritório, sair para almoçar, preparar relatórios e tomar decisões, o organismo passa a ser menos exigido e começam a surgir alguns problemas associados a essa “ruptura” no ritmo, favorecendo o aumento da pressão arterial, o diabetes e a obesidade, assim como situações de “melancolia” provocadas também pela perda da identidade profissional. De acordo com o professor, investir em um tipo de lazer que a pessoa nunca praticou ou imaginar que um exercício leve é suficiente para manter a forma são enganos comuns. “Claro que caminhar é muito melhor que não caminhar, mas não basta. É como comer só arroz para se alimentar.”

Como orientador de uma pesquisa de doutorado na USP, Jacob obteve resultados que demonstram o quanto entender as implicações da aposentadoria está fora de cogitação. Entre os trabalhadores entrevistados para a pesquisa, a maioria nunca parou para pensar na aposentadoria. Além disso, quanto maior o cargo, mais difícil é encontrar pessoas que estão se planejando para esse momento. “O sedentário tem a tendência de ficar ainda mais sedentário quando deixa de trabalhar. É uma questão emocional na origem, mas que traz consequências físicas”, conclui o professor.

Exercício mental
A preocupação com a manutenção e melhora da saúde mental e do desempenho do cérebro com o passar da idade e a chegada da aposentadoria também está motivando o surgimento de programas de treinamento específicos para a mente. Por meio de jogos no computador, é possível estimular a memória, a atenção, o raciocínio lógico e a visão espacial. “O cérebro se molda de acordo com os estímulos e as funções que não são usadas tendem a se desfazer”, afirma o engenheiro Ricardo Marchesan, sócio-fundador do Cérebro Melhor, empresa que oferece programas de exercícios do tipo.

Por meio desse treinamento, com duração ideal de 30 minutos diários, é possível “balancear” o treino e tentar estimular as áreas mais prejudicadas pela mudança no estilo de vida. “Além do avanço na idade, o cérebro passa por uma desaceleração abrupta. Com um estímulo cognitivo, é possível diminuir o risco de doenças neurodegenerativas”, explica Marchesan, para quem jogos desse tipo proporcionam um desafio ao cérebro na medida certa e contribuir para um envelhecimento saudável. (GJ)

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