Pode, pero no mucho

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É provável que você já esteja farto de ouvir  quanto a internet vai mudar o mundo, o modo como trabalhamos, as maneiras como se produzem bens e serviços, as estruturas de poder nas empresas, as relações de trabalho e os meios pelos quais se difundem cultura e conhecimento. A todo momento somos lembrados de quanto as novas tecnologias de comunicação, como a internet, estão “mudando” o mundo para melhor e que, daqui para a frente, nada será como antes. Será?

Entre 2006 e 2008, decidi compreender em que medida a comunicação via internet estava mudando o modo como 18 grandes empresas nacionais e multinacionais com escritórios no Brasil administravam o dia a dia de seus milhares de empregados. Esse estudo, desenvolvido no contexto de um mestrado em Teoria e Pesquisa em Comunicação apresentado à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), buscou compreender como as empresas normatizam e controlam o uso da internet por parte de seus empregados justamente para entender as mudanças que essas ferramentas de comunicação estariam provocando nas
relações de trabalho. 

As empresas pesquisadas foram: Colégio Arquidiocesano (Educação), Editora Abril (Comunicação), Faber Castell (Material escolar), Flextronics Brasil (Indústria), HSBC Brasil (Banco), IBM Brasil (Tecnologia), Imerys Brasil (Mineração), Indiana Seguros (Seguros), Microsiga (Software), Redecard (Serviços financeiros), Scania (Caminhões), Selco (Metalúrgica), Toyota Brasil (Automóveis), Universidade Metodista (Educação), Visa Vale (Serviços financeiros), Volkswagen Brasil (Automóveis), YD (Confecções) e ZF Sachs (Autopeças).

O resultado dessa pesquisa revela o que você certamente já sabe ou desconfia: a internet não promoveu nenhuma mudança significativa nas relações de trabalho, aprofundando, inclusive, antigas práticas como a vigilância sobre aquilo que as pessoas fazem enquanto trabalham. Ainda que existam pequenas variações nas práticas dessas empresas no que diz respeito ao controle do uso da internet, os dados são contundentes: o uso da comunicação em rede pelas empresas privilegia a conexão entre computadores e sistemas em detrimento da comunicação humana.

O que isso quer dizer?
Isso quer dizer que o uso da internet pelas empresas visa, em essência, a interconexão de sistemas com vistas ao negócio, o que vai determinar o controle exacerbado da comunicação entre pessoas pela rede. Entre as 18 empresas consultadas, 17 afirmaram que a internet é vital para seus negócios, mas essa importância diz respeito a aspectos como conexão entre concessionárias e fábrica, estabelecimentos e sistemas de vendas, fábricas ou lojas e sistemas de gestão empresarial, matriz e filiais e sistemas de pedidos a sistemas de fabricação. Na verdade, essa “comunicação” é uma conversa fria movida a bits e bytes entre computadores, sem qualquer interferência humana, orientada para a redução de custos das transações que movimentam os negócios.

Alguns dados revelam de forma clara o fato de que a comunicação em rede nas empresas não mudou, de modo algum, as relações de trabalho. Como a pesquisa evidenciou, somente cerca de 38% dos empregados dessas empresas têm acesso à internet, sendo que aqueles que acessam a rede só o fazem porque suas atribuições exigem esse acesso. Numa grande montadora, por exemplo, vimos que apenas 7% dos empregados acessam a internet, enquanto sua concorrente direta no Brasil e no mundo ostenta um índice maior, ou seja, 40% dos trabalhadores com acesso à rede.
Mas como é esse acesso?

Há casos tão radicais de controle que os funcionários podem acessar, apenas, cinco sites: o da própria empresa; o do banco onde todos recebem o salário; os dos dois planos de saúde que a empresa oferece; e o de uma agência reguladora do negócio da empresa. Nada além disso. Em todas as organizações, firewalls controlam o fluxo de informação entre os computadores dos funcionários e a internet, bloqueando sites que contenham palavras “proibidas” como sexo, sex, futebol, universidade, novela, UOL, Terra, Caras, Playboy ou milhares de outras. Mas as empresas bloqueiam também o acesso a sites de relacionamento como Orkut, YouTube e Facebook, impedindo, ainda, acesso a serviços de mensagens instantâneas como Messenger, Skype, entre muitos outros. Em uma companhia, a fúria censora da área de TI chegou mesmo a bloquear um site de pesquisa científica apenas porque o conteúdo informava, corretamente, que as árvores têm sexo e podem ser macho ou fêmea. Para o firewall da empresa, árvore com sexo só podia ser um site pornográfico.

Vazamentos pela rede
Embora ainda possamos rir de situações como essas, a maneira como as empresas bloqueiam e controlam o uso da internet já exige um debate público sobre se, no Brasil, não estamos vivenciando o fenômeno da privatização da censura. Entre as 18 empresas pesquisadas, 16 bloqueavam e-mails pessoais como Yahoo, Hotmail, Gmail, entre outros. E quando as empresas bloqueiam e-mails pessoais, é inevitável que elas promovam um amplo controle sobre tudo aquilo que os funcionários fazem circular nos e-mails corporativos. Esse controle se dá por meio da programação dos firewalls para detectar determinadas palavras, como nomes de produtos ou serviços (para detectar “vazamento” de informação), ou até mesmo a expressão “currículo” (para descobrir aqueles empregados insatisfeitos, que se candidatam a vagas em outras empresas). Em 17 das 18 empresas pesquisadas foram registrados casos de advertências, demissões, suspensões e até cortes de acesso à internet por usos considerados “inadequados”, evidenciando que o uso da web nas empresas é ainda regido por uma mentalidade medieval de controle e punição.

A comunicação em rede é altamente rastreável, permitindo um profundo e absoluto controle de tudo o que trafega por ali. Em todas as empresas consultadas, a normatização, a regulação e o controle de uso da internet são uma atribuição da área de TI, o que revela que as empresas não veem a internet como uma ferramenta de comunicação, relacionamento e aprendizado, mas, antes, como uma tecnologia que precisa ser monitorada, assim como o sistema de gestão empresarial.

Para a maioria esmagadora dos gestores de TI entrevistados, se a internet não fosse tão severamente controlada, as pessoas a usariam para se divertir e não para trabalhar. Essa visão prisional das relações de trabalho, que leva à construção de campos de concentração digitais, não se pergunta, em momento algum, como anda a motivação nas empresas, a qualidade de vida no trabalho ou mesmo se as atividades que as pessoas exercem são estimulantes e motivantes a ponto de fazê-las investir no trabalho. Para que fazer perguntas complicadas se é mais fácil aprisionar as pessoas em uma rede de censura, controle e punição?

Entre as 18 empresas pesquisadas, sete estavam promovendo campanhas de estímulo à inovação entre os funcionários. Quando questionadas sobre as razões dessas campanhas, todas responderam que os funcionários não eram criativos, pareciam desmotivados, contribuíam pouco, não davam aquele “algo a mais”. Estimuladas a relacionar o bloqueio à internet com a falta de inovação dos empregados, nenhuma delas foi capaz de ver relação alguma, como se a mente criativa de um ser humano pudesse mesmo brotar em um ambiente que desestimula a pesquisa, a troca de informações e os relacionamentos.

A censura aplicada à internet, por parte da maioria das empresas, revela que pouca coisa mudou no espírito centralizador e normatizador das empresas, mesmo sob o advento da comunicação em rede. Perturbadoramente, vemos surgir uma tecnoburocracia que vai assumindo, inclusive, funções de gestão de pessoas, pois passou a ditar normas, regras e punições. Essa situação, como vimos, põe de lado o debate mais importante, que é o fato de que o trabalho humano, crescentemente desmotivante, vai se tornando acessório aos sistemas de informação e, portanto, cada vez mais desumanizado e desmotivante.

Se as áreas de RH se recusarem a debater essas questões, deixando que TI defina as normas de uso da internet, por exemplo, teremos empresas cada vez mais limitadas e empobrecidas no futuro, incapazes de compreender que a inovação, a criatividade e a diferenciação só surgem em ambientes de confiança, onde a liberdade de expressão, a pesquisa e o conhecimento são fatores determinantes para a construção de empresas capazes de entender os novos tempos.

Armando Levy é jornalista, professor de Cultura Organizacional da Universidade Metodista e da Fundação Santo André, consultor do Núcleo de Formação Profissional da Câmara Brasil-Alemanha e autor do livro Propaganda, a arte de gerar descrédito (Editora da Fundação Getulio Vargas)

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