Poder pela humildade

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Acabo de chegar de um evento em que cinco grandes executivos de RH interagiram abertamente com outros 200 profissionais da área. O tema referia-se ao ano atípico que vivemos. Foram muitas reflexões sobre temas relevantes, variados quanto a valores, atitudes e comportamentos que nortearam as decisões que o RH teve de tomar ou apoiar até questões de fundo bastante tangível, como negociações e reorganizações nas estruturas e processos de gestão. Uma das discussões tocou em um tema crítico, presente nas agendas organizacionais já há algum tempo, mas que, ao que tudo indica, ainda estará na lista de prioridades de muitos: formação de nossos recursos, mas de forma integral. Ao discutir esse assunto, não abrimos mão da reflexão sobre o equilíbrio dos investimentos feitos nessa área e uma das conclusões foi a de que colocamos nossos recursos no lugar certo, mas, talvez, na medida equivocada.

Ao falar sobre a formação e suporte aos nossos líderes, concluímos que temos feito muito nesse aspecto, mas negligenciamos, de alguma forma, a formação de novos líderes. O mais interessante é que a conclusão foi uníssona entre executivos de empresas americanas, europeias e nacionais. Ou seja, profissionais com suas diferenças, que vivem idiossincrasias específicas de suas empresas, mas que têm “dores” comuns e que geram o mesmo impacto: risco Í  perenidade e sustentabilidade do negócio.

Ao nos aprofundarmos nas discussões, questões de conhecimentos, habilidades e atitudes deram o tom das conversas. Uma das afirmações que ouvi foi: “valores só se manifestam, de verdade, nas crises”. Ou seja, é no momento de turbulência que vemos quem realmente walk the talk.

O desdobramento dessa frase trouxe uma lista de temas que devem estar presente na agenda da formação de líderes, principalmente porque nossos potenciais futuros líderes, em razão de suas idades, possivelmente viram uma crise econômica-financeira-existencial, de amplitude global, pela primeira vez. Alguns congelaram; outros entraram em estado de negação. Um número menor foi capaz de analisar e concluir que estávamos em um momento de risco para todos: indivíduos, organizações e sociedade.

A partir dessas discussões, concluímos que a agenda de formação de líderes deve conter “quês” profundos e robustos, além de “comos”, que estão em falta nas “prateleiras” das relações humanas. Alguns desses temas se conectam ao “como” lidar com: gestão do paradoxo (longo e curto prazo); vulnerabilidade (dizer “não sei” quando não souber); abrir mão da vaidade; transparência; confiança (em quem ou no quê); pragmatismo e significado (para a organização e para o indivíduo). A lista é extensa e, mais que isso, profunda: são temas que estiveram ausentes de nosso processo de formação cultural e que nos foram colocados como sinônimo de “fragilidade” ao falar sobre eles. Mas é justamente o contrário: refletir sobre eles e endereçá-los é o mais puro sinal de força. É como está colocado nas escrituras sagradas: “quando estou fraco, aí é que me faço forte”. É, por fim, a demonstração do poder pela humildade. Não será fácil formar nossos futuros líderes sob esse prisma, mas será fantástico ter líderes assim!


*Marcos Nascimento é consultor organizacional da McKinsey e educador

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