Por conselhos melhores

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Um grande amigo meu, um dos executivos de RH que mais admiro e que, também, é um ex-CEO, atualmente é um conselheiro. Isso mesmo: uma daquelas pessoas que pouco vemos, mas que sabemos que existem. Seres com uma aura suprema, alguns extremamente competentes, embora outros… Mas não vou criticar essa estância do processo de gestão. Até porque sou um grande entusiasta do bom processo de governança corporativa, que é o produto final desses conselhos – ou ao menos deveria ser.

É nesse ambiente que são discutidos temas como investimentos, aquisições, desinvestimentos. São números que não se esgotam. Muito parecidos, aliás, com os que foram debatidos nas reuniões de gestão e do conselho de administração de uma ex-grande empresa chamada Enron.

O que ocorre nessas reuniões é quase como o resgatar do que foi apregoado por René Descartes, que disse que “se você não conseguir verificar, analisar, sintetizar e enumerar alguma coisa, logicamente esse ´algo´ não existe”. Ou, se você preferir, podemos extrapolar e usar a lógica newtoniana de que, para seu autor, “tudo se explica pela matemática”.

E o que Newton e Descartes têm a ver com conselhos de administração? Muita coisa. Não estivessem seus conceitos tão presentes, e aplicados a ferro e fogo, talvez pudéssemos evitar alguns percalços pelos quais grandes corporações passaram e têm passado. Principalmente por não atentarem ao único componente da equação da gestão que não é possível enumerar e muito menos explicar pela matemática: o fator humano.

Esse meu amigo, resumindo sua brilhante carreira, foi de gerente a executivo de RH e logo galgado ao posto de CEO de uma das empresas do grupo em que trabalhava na Europa. Aposentou-se jovem e segue atuante no mundo de RH, de várias maneiras. Mas talvez a principal seja como membro de conselho de administração.

O ponto é que ele é um conselheiro por ser um ex-CEO, e não um ex-RH. E por que não temos profissionais de RH integrando conselhos com mais frequência? Tenho algumas hipóteses, mas a principal é que ainda há muito espaço para os conceitos cartesianos e newtonianos e pouquíssimo espaço para discussão de temas ligados ao pensar e ao sentir, à cultura e saúde organizacional sob o ponto de vista humano.

Quando tivemos os escândalos de 2002, cujo principal foi o da Enron, nos perguntamos “que conselho é esse que não percebeu o que estava acontecendo?”. Era um conselho cheio de números e “quês”, com quase nenhum “como” e muito menos foco no “quem”: não se tocava no tema “pessoas”, justamente o componente que destruiu empresas quase seculares.

Qual RH, hoje, está estruturado, com coragem, competência e espaço para influenciar as discussões de um conselho de administração? Se você conhece algum, copie-o! Se não, porque não começar a assumir esse espaço? Esse meu amigo conseguiu e quando ouço os pontos que ele defende no conselho que compõe fico aliviado: é o profissional de RH que se manifesta, e não somente o ex-CEO! Seu nome: Theunis Marinho.

*Marcos Nascimento é consultor organizacional da McKinsey e educador

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