Por que você faz o que faz?

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Num seriado americano, a personagem recebe uma proposta indecorosa para atuar como uma espécie de espiã entre seus pares na polícia para indiciar outros membros da corporação acusados de assassinato. Indignada como a forma é exposta (era, segundo seu superior, uma motivação para ser vista como uma excelente profissional), a jovem recusa a oferta e diz categoricamente que pretende ser reconhecida como uma policial exemplar fazendo o trabalho dela: investigando pelas vias legais.

A cena descrita acima revela a linha tênue entre chantagem e ação motivacional. Guardadas as proporções, ela é a mesma que existe dentro de uma série de iniciativas organizacionais para motivar profissionais a buscarem resultados melhores, sempre. Incentivos de vendas, bônus diferenciados por volume de negócios, prêmio por conquista de market share entre outras ações são práticas comuns e saudáveis, que, bem gerenciadas e utilizadas com um propósito íntegro, funcionam para todos os stakeholders. No entanto, elas também podem ser vistas como um claro exemplo do que um dia disse um farmacêutico suíço renascentista, chamado Theophrastus Bombastus Von Hogenheim, mais conhecido como Paracelsus: “Tudo é veneno; nada é veneno”. O ponto levantado por ele é simplesmente a dose.

Pois bem, essa dose, nos dias de hoje e no mundo organizacional, não é uma medida somente aplicada em tangíveis. Estamos em uma era da volta às “bases”. E o que isso quer dizer? Simplesmente que temos de voltar a alicerçar nossas ações também, e principalmente, em intangíveis, ou seja, em valores fundamentais que nos darão base para nossas atitudes e sustentabilidade para nossos resultados, seja como indivíduo ou parte de um organismo vivo, e maior, chamado empresa (ou sociedade). Se é assim, como podemos gerenciar a dose e saber quando estamos sendo efetivamente motivados ou chantageados, mesmo que por uma causa aparentemente sem erros ou impactos negativos? Talvez analisar os tipos de motivação que nos movem a fazer algo possa ajudar na resposta. Eles seriam: obrigação (em que a motivação é simplesmente a falta de opção); a desobrigação (o que motiva é querer ficar livre de algo ou alguém); a recompensa (a motivação é a busca do bem-estar físico, espiritual ou emocional); o status (é o reconhecimento público); o medo (escapar de algum tipo de “sofrimento”); a hipocrisia (a motivação é causar uma impressão diferente da realidade); o aproveitamento (que tem sua base em ter uma vantagem pessoal como resultado de uma ação que prejudique outros).

Saber efetivamente a razão pela qual você está fazendo algo é a chave de todo esse processo e provavelmente a blindagem mais forte para que você esteja realmente motivado (colocando valores fundamentais em prática) e não impelido ou chantageado – até por você mesmo – a fazer algo sem se importar muito com seu entorno: ambiente, pessoas e resultados. Mesmo que seja uma situação aparentemente ruim, tente fazer como a jovem policial do início deste texto: transformou uma chantagem em uma motivação para mostrar-se melhor profissional, amiga, parceira, ser humano. Lembre-se: felicidade é o encontro da razão com a emoção em uma atividade prazerosa!

*Marcos Nascimento é consultor organizacional da McKinsey e educador

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