Praticando o desapego

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    Há de se convir que fazer planejamento e cumprir metas em meio a incertezas e mudanças constantes não é tarefa simples, mas se tornou uma questão de sobrevivência no mundo dos negócios. Para transformar desafios em conquistas nessa maratona corporativa, um dos princípios essenciais é não se apegar ao passado, seja a antigos hábitos ou a ideias bem ou malsucedidas. É o que garante o consultor Eduardo Shinyashiki, especialista em desenvolvimento das competências de liderança e preparação de equipes, na entrevista a seguir.

    MELHORExiste uma pressão enorme por resultados no curto prazo. De alguma forma, a competitividade global e a alta velocidade das mudanças podem ser aliadas, e não inimigas, das organizações?
    Eduardo Shinyashiki – Os fenômenos da competitividade, da globalização e da aceleração da tecnologia e das mudanças exigem novos questionamentos e o fortalecimento de novas competências. Certezas e paradigmas que acreditávamos estar consolidados foram destruídos. A adaptação aos novos cenários convida todos a um aumento da flexibilidade, da criatividade, da inovação e da responsabilidade individual e organizacional. As empresas precisam planejar na incerteza e no imprevisível e isso exige o melhor de todos, mais atenção, conhecimento, preparação e habilidade de se movimentar sem perder de vista o objetivo.

    O que mudou para as empresas?
    As que mais sofrem no mercado, hoje, são aquelas que continuam focadas no produto. Para se tornar uma organização vencedora, foi necessário deixar de simplesmente vender produtos para oferecer qualidade e atendimento. Ou seja, passar do marketing 1.0 para o marketing 2.0, que envolve entender os sentimentos e os desejos do cliente. Já foi o tempo em que você entrava em uma fila de espera de seis meses para comprar o carro na cor desejada, e qualidade não é mais uma variável, e, sim, item de série. Mais do que isso, produtos e serviços passaram a ser desenvolvidos para atender aos desejos do cliente. A quebra seguinte veio com o marketing 3.0, da responsabilidade socioambiental, que começou a exigir um comprometimento com algo maior. Diante da mobilização da sociedade, as empresas têm de ir além do produto, da qualidade e do atendimento. Por que a Coca-Cola lançou garrafa PET biodegradável? Por que é tão importante para as empresas patrocinarem programas internos de voluntariado? Basta lembrar da campanha mundial de boicote ao consumo de atum enlatado, porque, na rede dos barcos pesqueiros, junto com os peixes, vinham golfinhos que acabavam morrendo.

    Com todas essas mudanças, que competências passaram a ser mais valorizadas dentro das empresas?
    Para atender à evolução do mercado, o vendedor, por exemplo, deixou de ser um tirador de pedidos e os gerentes não cumprem mais o papel de supervisor “linha dura”, de chefe tirano. Conceitos que pareciam absurdos, do tipo felicidade e satisfação do colaborador, entraram como pauta fundamental para alcançar resultados. Para ser criativa e inovadora, a empresa tem de ter um ambiente criativo e inovador; para tanto, hoje é fundamental que o gestor saiba se relacionar e se comunicar com quem está acima dele, com seus pares e com os colaboradores.

    Inovar é uma questão de ação e atitude?
    Sim. É uma questão de ação e atitude – e uma necessidade -, especialmente dos líderes, que apoiam e permitem a inovação. O maior desafio nessa implementação é não ficar apegado às coisas que deram certo ou errado no passado, nem a antigos hábitos, para que seja possível assumir o compromisso com a realidade atual.

    O passado deve ser esquecido?
    O mundo corporativo é muito dinâmico. Se a gente se apega ao que funcionou ou não no passado, perde a oportunidade de observar o cenário atual de forma mais isenta. Se algo não deu certo, não significa que nunca mais dará. O desapego é importante nesse sentido. Mesmo uma ideia fracassada no passado pode ser reciclada, turbinada e se tornar uma ideia de sucesso hoje, até porque talvez fosse avançada demais para aquela época. Por isso, é importante ter sensibilidade e liberdade para experimentar coisas novas e adaptar ideias ao novo contexto. Se não fosse assim, produtos inovadores, como os tablets e smartphones, não existiriam.

    E como RH deve se posicionar na construção desse ambiente?
    O RH tem uma atuação cada vez mais importante. Envolve não só o papel tradicional administrativo e organizativo, mas, marcadamente, o papel estratégico em um cenário cada vez mais atento ao capital humano, à gestão multigeracional, à liderança, à formação dos profissionais e ao clima organizacional. O processo de socialização e aculturamento dentro de uma empresa muitas vezes tolhe a inovação e criatividade do colaborador, que chega cheio de ideias e é logo “enquadrado”. O RH tem de estar comprometido com a criatividade e a inovação, com essa nova forma de ser, porque é responsável pelo desenvolvimento dos novos talentos. RH tem o importante desafio de preparar pessoas para serem criadoras de contextos, de novos paradigmas e novas realidades.

    Qual é o seu recado para o RH?
    O papel de formar, guiar e valorizar o capital humano é fundamental e indispensável na direção dos resultados de qualquer empresa. É um papel cada vez mais nobre, de colaboração direta com a direção da empresa, interdisciplinar e transversal, envolvendo todos da organização.

    As lideranças reconhecem esse papel?
    Ainda é comum o RH ser visto como uma área não estratégica. Mas é absurdo imaginar uma empresa de engenharia que não valoriza seus engenheiros. A grande força motriz de uma empresa são as pessoas, por isso, é um equívoco enorme não levar o gerente ou diretor de RH para uma reunião estratégica.

    E como a área deve pleitear o reconhecimento desse papel?
    Isso se dá com atitudes, ações e resultados. Muitas vezes, o RH fica esperando que os outros valorizem o seu trabalho, quando, na verdade, ele próprio tem de se valorizar, ter iniciativa, ir ao encontro de soluções e apresentar ideias, transformando, assim, o conceito de sua essencialidade em prática.

    Desafios e tendências
    Com a palestra Estratégias vencedoras – Atitudes e ações que transformam desafios em conquistas , Eduardo Shinyashiki participa, no próximo mês, do COMRH 2011 – XV Congresso Mineiro de Recursos Humanos. Promovido pela ABRH-MG, o congresso será realizado de 10 a 12 de maio, no Minascentro, em Belo Horizonte, sob o tema central Os Imperativos estratégicos de RH: antecipando tendências.

    “A escolha do tema busca atender às demandas identificadas pela associação em relação aos desafios do profissional de RH nesta década que se inicia. O que será determinante? O que vai definir as ações dos gestores de pessoas? Seguindo essa linha, uma grade de atividades levará aos participantes informações, ferramentas e conhecimentos essenciais para um futuro próximo”, diz Cristiane de Ávila, presidente da ABRH-MG.

    Entre os destaques da programação, Oscar Motomura, fundador do Grupo Amana-Key, vai abordar as tendências em liderança, e João Lins, sócio-diretor de consultoria de RH e assuntos governamentais da PricewaterhouseCoopers, levará aos participantes uma visão abrangente dos cenários que se apresentam para os próximos anos.

    Mais informações do evento no site: www.abrhmg.org.br/comrh2011

     

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