Gestão

Que fim levou aquela parada?

Paulo Jebaili
28 de Maio de 2010
Reis Neto, da Franquality: em tese, uma boa oportunidade de o profissional fazer reflexão sobre a carreira; mas, na prática, algo complicado de ser concretizado

Por volta da virada do milênio, começaram a pipocar aqui e ali histórias de profissionais que haviam tirado um período sabático – uma ausência negociada com a empresa, em alguns casos com remuneração mantida. O objetivo da prática era o profissional abrir um parêntesis para repensar a carreira, fazer algum curso ou dedicar-se a alguma atividade incompatível com o cotidiano de uma agenda corporativa. Para a empresa, a volta de um funcionário descansado, arejado e renovado era indício de contar com alguém mais criativo e produtivo.

Nos primeiros anos dos 2000, volta e meia se esbarrava com a informação de que o executivo tal não se encontrava na empresa por conta de um sabático. Na segunda metade desta década, no entanto, essas histórias foram rareando. Será que o sabático foi mais um modismo que passou? Essa prática chegou a entrar no dicionário corporativo brasileiro? Quem pode desfrutar dessa benesse? Afinal de contas, a quantas anda o sabático por aqui?

O modelo que permitia que o profissional se ausentasse por um período para investir em si mesmo e na volta encontrar a cadeira garantida parece estar em desuso. Sobretudo, após o chacoalhão financeiro que abalou o mundo a partir de 2008. “A crise mudou o paradigma. Hoje, é muito difícil bancar o período de ausência de seis a 12 meses de um bom profissional”, analisa o consultor Luiz Augusto Costacurta, CEO do Instituto MVC.

Até 2005, segundo ele, ouvia-se falar em sabático com alguma frequência, que, desde então, diminuiu. “As empresas deixaram de ser tão magnânimas”, diz. Costacurta comenta que o sabático começou a ser visto como algo muito melhor para um lado do que para o outro, num período em que passou a ser imperativo otimizar recursos, ser mais produtivo com menos gente. “A empresa perdia uma pessoa boa por um tempo e mesmo que fosse para uma pesquisa, por exemplo, algo que a empresa ganhasse, o ganho talvez não compensasse o período de ausência daquele recurso humano.”

Além da competitividade da organização no mercado, Costacurta chama a atenção para a competição que ocorre no âmbito interno, quando geralmente um profissional mais jovem ocupa o lugar de quem se ausentou. “Essa nova geração é voltada para si e busca resultados no curto prazo e evolução rápida na carreira. De repente, a empresa vê que a pessoa no lugar é igual ou melhor e mais barata”, observa.

Nesse contexto, o clima se tornou inóspito para o profissional pleitear um período de pausa. Mas se a decisão for cortar os laços com a empresa, para repensar a carreira e a vida, o sabático é uma prática que independe das condições do mercado. Tem mais a ver
com necessidades e circunstâncias individuais.

Foi o que aconteceu com Denise Macedo, ex-executiva que, após um período sabático, deu uma guinada na vida (veja o quadro Pausa para o café). “O sabático nunca foi uma prática muito brasileira e nos EUA vive altos e baixos”, conta. Ela se diz fã da medida. “O profissional volta mais criativo, mais reciclado e, em alguns casos, com melhor qualificação profissional.” Mas reconhece obstáculos que inviabilizam a adoção desse expediente em maior escala. “As empresas não estão organizadas para isso. É raro conseguir negociar, até porque existem cargos que não podem esperar pela volta.”

Tempo para refletir
O presidente da consultoria Franquality, Almiro dos Reis Neto, também considera a ideia muito interessante na sua essência. “É uma oportunidade de o profissional fazer uma reflexão sobre a carreira e a vida, algo que no dia a dia não dá para fazer direito no piloto automático.” Mas, na prática, vê dificuldades de várias ordens, inclusive a financeira para suportar o período. “Se a pessoa tem uma dívida, não dá para pensar nisso.”

Costacurta chama a atenção para um outro aspecto: a questão familiar. “Se a pessoa quer passar um tempo no exterior, por exemplo, leva a família junto
ou passa um tempo longe dos filhos?”

O sabático não é exclusivo dos profissionais com alguma quilometragem. O expediente também faz parte da nova geração, só que com outra abordagem, como explica Reis Neto. “Ao contrário da geração baby-boomer, a geração Y troca de emprego com mais facilidade. Então, eles tiram o período sabático para viver a vida. Eles economizam e ficam um ano viajando, por exemplo.”

Foi o que aconteceu com Mauro Shira, hoje um consultor da Franquality (veja o quadro Sinal verde para o sabático), que precisava reorientar sua vida a partir de alguns questionamentos. Como também queria celebrar seus dez anos de carreira, decidiu tirar um ano de sabático. “Foi o melhor ano da minha vida.”

Conceito ampliado
No contexto da gestão de pessoas, os poucos dados disponíveis mostram que o sabático é restrito ao universo das grandes empresas. E, mesmo assim, pode-se inferir que há um alargamento do conceito, que virou uma espécie de etiqueta para licenças em geral. Tanto no Brasil quanto no exterior.

No ranking 2009 das 100 melhores empresas para trabalhar, publicada na revista norte-americana Fortune, a partir do levantamento feito pelo Great Place to Work Institute (GPTW), consta que a KPMG, 88ª na lista, tem um programa de sabático que permite que funcionários tirem de quatro a 12 semanas de folgas recebendo 20% dos vencimentos. Na 42ª posição está a Adobe, que tem uma espécie de sabático social. A empresa de software oferece até seis semanas de sabático remunerado para funcionários se envolverem em projetos comunitários.

Por aqui, a lista das melhores empresas para trabalhar, feita pelo GPTW Brasil, mostra que 24 das 100 integrantes do ranking 2009 oferecem algum tipo de permissão para que o funcionário se afaste da companhia. A presença de estagiários e trainees na lista revela que o conceito é mais amplo que o sabático praticado no começo da década. “Não é comum, mas acontece. Eu mesma passei por isso. Na faculdade em que eu estudava, os alunos viajavam de um país para o outro fazendo estágio”, diz Roberta Hummel, diretora de projetos do GPTW.

A pesquisa não se refere especificamente a sabático. “A pergunta é se a empresa oferece algum período em que a pessoa pode ficar fora do trabalho mantendo vínculo empregatício sem remuneração”, explica Roberta.

Mesmo com esse conceito ampliado, é difícil precisar se o número de empresas que concedem esse benefício vem aumentando ou caindo ao longo dos anos, porque a lista das 100 melhores varia. “O que eu posso dizer, de feeling, pelos sete anos que acompanho as pesquisas, é que na verdade [o sabático] nunca decolou. Não está nem crescendo nem diminuindo. As empresas que ofereciam continuam oferecendo. Não é uma coisa que pegou por aqui.”

De qualquer forma, é quase um quarto das listadas que oferece essa possibilidade. Mas cabe ressalvar que se trata de um recorte específico de empresas. “Grande parte das companhias são multinacionais, empresas grandes e, provavelmente, são práticas que existem no exterior e, como as políticas normalmente são as mesmas, não posso afirmar, mas acredito que isso faça parte de uma política mundial de gestão de pessoas”, diz Roberta.

Uma das empresas que permite o afastamento temporário do funcionário é a IBM. Como terminologia, pode até ser chamado de sabático, mas trata-se de uma licença sem vencimentos. É um programa mundial para o qual são elegíveis todos os funcionários efetivos, desde que tenham a aprovação gerencial, mais de um ano de casa e boa performance. “É como se fosse uma suspensão do contrato de trabalho. A pessoa não recebe remuneração, não tem direito a benefícios e recebe as verbas rescisórias quando entra nesse período de licença”, explica a analista de RH, Andréa Musico. O período varia de três meses a três anos, tendo de ser revalidado anualmente.

Andréa conta que a adesão ao programa pode ser por motivos de carreira, como cursos fora do país, ou pessoais, como nascimento ou adoção de filho, problemas de saúde na família, acompanhamento de um parceiro transferido para o exterior. Ela estima que 60% das licenças concedidas são em função de autodesenvolvimento e 40% são por razões pessoais.

Não há garantias de retorno, de parte a parte. “Eu não tenho garantia de que o profissional vá voltar, ele pode pedir demissão. Durante a licença e mesmo ao retornar, não é garantido que teremos uma posição para ele. Isso fica muito claro no momento em que ele pede essa licença”, explica Andréa.

Pela perspectiva de RH, a licença da IBM está inserida num contexto de flexibilidade do trabalho. É uma modalidade entre outras, como o pós-natal para pais: no nascimento do filho, o profissional tem a opção de trabalhar alguns dias da semana de casa. “Hoje, flexibilidade passa a ser uma exigência, uma necessidade de toda empresa que quer ter o melhor recurso do mercado”, explica.

Atualmente, pode-se dizer que o sabático não é igual àquele que passou a ser praticado no começo da década.

 

Pausa para o café

Das viagens na América Latina para o interior paulista

A jornalista Denise Macedo é dona de uma cafeteria em Monte Alegre do Sul, cidade do interior paulista com cerca de seis mil habitantes. Está montando uma adega e colaborando no desenvolvimento de um projeto para o turismo da região. Há pouco mais de cinco anos, a rotina de Denise era bem diferente. Ela vivia de aeroporto em aeroporto, cruzando os céus da América Latina, pois era diretora de comunicação de uma multinacional de cosméticos. Esse corte radical de cenário se deu após um período sabático. Foi justamente quando atingiu o ponto mais alto da carreira, em 2005, que Denise passou a questionar se valia a pena ambicionar cargos e salários mais altos em detrimento da qualidade de vida.

Essa inquietação levou-a a dar um tempo. Uma decisão difícil, cercada de dúvidas, angústias e lágrimas. Mas fez as malas e rumou para Paris. O destino não foi aleatório: ela já havia morado por dez anos na capital francesa, local em que identifica forte influência naquilo que ela estava buscando. “Os franceses têm incorporado à cultura deles aspectos como pensar na qualidade de vida, impor limites para poder curtir a família, a natureza.” Ainda assim, continuou investindo na educação continuada.
Fez uma pós-graduação em comunicação corporativa no ano que passou por lá.

Ao retornar ao Brasil, chegou a ser selecionada para reingressar no mundo corporativo, uma hipótese ainda plausível para Denise. Foi entrevistada pelo presidente de uma empresa, mas, depois de muita reflexão, decidiu declinar do chamado. Algumas viagens à cidadezinha onde costuma passar férias na infância foram arquitetando a ideia de unir empreendedorismo e qualidade de vida. Em Monte Alegre do Sul, resolveu montar uma butique de café e, em seguida, uma adega, num espaço que hoje abriga eventos culturais na cidade. “Ainda sinto um certo medo, porque o investimento até agora foi maior do que o retorno”, conta. Mas sublinha os ganhos em qualidade de vida e paz de espírito, sobretudo quando houve os relatos de clientes paulistanos que frequentam o seu café e que colecionam agruras vividas em congestionamentos, enchentes e assaltos.

 

Sinal verde para o sabático

“Afinal, o que eu quero fazer da minha vida daqui para frente?”

Foi a questão acima que bateu forte em Mauro Shira em 2005, quando ele, aos 33 anos, pediu demissão para fazer um período sabático de um ano. Àquela altura, completava sete anos na área de RH de uma multinacional, sendo os últimos dois no centro de treinamento da empresa em Londres. O período de permanência na capital inglesa havia terminado, mas Shira não queria retornar ao Brasil. A dúvida sobre que caminho tomar e a vontade de celebrar os 10 anos de carreira culminaram num sabático.

Shira reservou um ano para pensar na vida e realizar uma série de vontades represadas. Como sempre gostou de fotografia, que já havia estudado no período em que morou em Londres, ele saiu pelo mundo com a câmera na mão, registrando cenários como Montreal, Macchu Picchu, Cingapura, Tailândia, Amazônia, Alemanha, entre outros. “Era uma grande sensação de liberdade, acordar de manhã e fazer o que eu quisesse. Abri um espaço na vida para ir mais fundo na busca do autoconhecimento”, relata. Nesse giro global, Shira aliou curtição com autodesenvolvimento, uma vez que quando esteve na França e na Itália, por exemplo, foi para estudar os idiomas locais. E também não descuidou do networking. Tanto que, quando o dinheiro começava a minguar, recebeu um e-mail falando de uma vaga no Greenpeace. “Como estava questionando o que poderia agregar para a sociedade e para o meio ambiente, resolvi encarar.” Passou dois anos em Amsterdã, onde aproveitou para fazer uma pós-graduação.

“Sempre me interessei pela função de líder global, e essa experiência foi muito proveitosa para me ajudar a entender culturas diferentes”, conta. Já com cinco anos fora do Brasil, decidiu que era hora de voltar. Como sempre gostou de desenvolver pessoas, voltou para fazer um trabalho de coach na consultoria Franquality, com ênfase em preparação de líderes para o desenvolvimento sustentável, em que pode reunir a experiência corporativa com a militância no lado verde da vida.

 

Espaço para crescer

Tolovi Jr., do GPTW: otimizar o uso dos recursos humanos não significa trabalhar mais horas, mas mais inteligentemente

José Tolovi Jr, CEO global do Great Place to Work, diz que executivos ainda não perceberam as benesses do sabático

Na edição 2009 das “Melhores”, 24 empresas adotam algum tipo de licença não remunerada. Apesar de a lista de empresas variar ano a ano, a percepção do senhor é de que esse número tem se mantido ao longo dos anos?
Aparentemente, o número de empresas que estão concedendo as licenças sabáticas está aumentando, em especial nos níveis hierárquicos mais altos. Internacionalmente, esse é um fenômeno que está crescendo. Não chega a ser comum, mas é uma prática que tem sido considerada benéfica às pessoas e às empresas.

Como o senhor analisa a prática do sabático na perspectiva da política de RH?
Essa prática vem da universidade, onde os professores tiram um ano de licença remunerada a cada sete anos de docência e pesquisa – daí o nome sabático. A ideia é que esse docente se dedique a fazer algo diferente – normalmente dar aulas em outro país, ou uma pesquisa inovadora que requer mais dedicação. A proposta é que esses profissionais não caiam na mesmice e possam renovar sua visão de mundo. Algumas empresas perceberam que isso poderia ser aplicável aos negócios. Como política de gestão de pessoas, pode ser considerada uma prática de desenvolvimento pessoal e são os profissionais que se beneficiam. Em geral, voltam renovados e com novas ideias. Pelo menos, essa é a proposta.

Para o futuro, quais as perspectivas dessa prática nas empresas?
No meu ponto de vista, essa prática poderia ser aplicada em empresas de diferentes portes, mas é claro que nas maiores fica mais fácil. Acho que a otimização do uso dos recursos humanos não significa trabalhar mais horas e, sim, trabalhar mais inteligentemente. Portanto, acho que a prática do sabático tende a crescer; embora cresça de forma vagarosa, pois nem todos os executivos entendem suas benesses.

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