Quem é e o que pensa o jovem

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    Luciane Paim / Crédito: Divulgação
    Luciane Paim é sócia diretora da Oito Endobranding / Crédito: Divulgação

    O que os jovens pensam e esperam do papel das agências de estágios? A partir dessa provocação da ABRH-RS, a Oito Endobranding realizou uma pesquisa para compreender a relação do jovem com o mundo do trabalho por meio de um mapeamento de suas percepções e opiniões sobre esse universo. “Buscamos entender seus sonhos e aspirações e também seus medos e angústias relativos à realização profissional e pessoal e o quanto, atualmente, um influencia o outro”, diz Luciane Paim, sócia diretora da Oito Endobranding. Confira, a seguir, alguns dos resultados desse estudo.

    Em linhas gerais, qual a principal percepção que esse levantamento traz?
    Vivemos em um caldeirão de possibilidades. Porém, inúmeras opções, tamanha liberdade e diferentes oportunidades ajudam a alimentar a fantasia de que exista realmente o “emprego dos sonhos”, o que torna ainda mais angustiante essa busca e mais frustrante o fato de não a encontrar. Há muitos desejos e contradições. Há muito interesse em conhecer e fazer algo em sintonia com os seus talentos, ao mesmo tempo um desejo de ter dinheiro suficiente para realizar seus sonhos, ser reconhecido pelo seu trabalho e, ao mesmo tempo, deixar algum legado para a sociedade. Entre os jovens pesquisados percebemos uma enorme vontade de fazer a diferença e impactar positivamente as pessoas a sua volta. Querem de alguma forma fazer parte da mudança e da evolução social, satisfazendo um anseio heroico de deixar a “sua própria marca” na sociedade. E esses são os jovens que fazem ou farão parte de nossas equipes. Não somente as de RH, mas os gestores em geral, e por isso é tão importante reestruturar modelos que se adequem à cultura de suas empresas e ao mesmo tempo propiciem espaços de busca e construção de identidade e reconhecimento para esses jovens.

    Os jovens parecem, ainda, ter medo de serem influenciados pelos passos dos pais, mais precisamente no que se refere à carreira?
    Sobre a real influência dos pais na profissão dos filhos, encontramos muita insegurança e contradições. De um lado, há o medo de seguir os passos dos pais e nunca encontrar seu próprio mérito ou perceber, mais tarde, que estão insatisfeitos com a escolha. Mas também encontramos jovens que mesmo com aptidões e interesses compatíveis com as de seus familiares acabam “negando” e optando por outros caminhos e muitas vezes, mais tarde, retornando e escolhendo “tardiamente” a mesma profissão dos pais. A única unanimidade entre os jovens é o desejo de nunca perder seus ideais e nunca se acomodar. Há um medo generalizado de entrar na roda-viva e, dessa forma, deixar de se questionar e refletir o que realmente querem da vida.

    Os jovens estão se reinventando?
    Não seria reinvenção, são mudanças decorrentes das mudanças da própria sociedade. O que percebemos é que esse jovem tem um grande desejo de se testar, de se conhecer, de buscar o que realmente é seu. Para eles, muitas vezes, menos importante do que o sucesso alcançado, o valor está na trajetória de vida, de se conhecer e buscar o melhor para si e, durante o caminho, sempre que necessário, adaptar para chegar cada vez mais perto do seu “eu ideal”.

    E os pais desses jovens, também estão procurando se reinventar?
    Sim, eles também estão em processo de transformação e isso afeta o processo de individuação dos jovens. Afinal, em um mundo pós-moderno, marcado por pluralidade e possibilidades, já não existem receitas prontas para seguir ou mesmo confrontar. Os pais também estão se questionando mais e querendo testar e conhecer seus vários “eus”, o que faz com que os jovens de hoje tenham de se constituir sem referenciais estáveis.

    #Q#

    Na adolescência, a regra é ser feliz. Em meio a tantas mudanças, os jovens têm conseguido isso?

    De modo geral, o que predomina é a cultura do contente, ser feliz virou praticamente uma obrigação: você tem de ser feliz, parecer feliz e postar uma foto nas redes sociais que comprove isso. Para o adolescente, isso é ainda mais forte, pois é um conceito moderno criado e idealizado por adultos. Os jovens atualmente parecem sentir uma pressão maior para que essa sensação não seja dinâmica e sim um estado constante de espírito, o que sabemos ser impossível. Por isso, há essa necessidade de buscar constantemente aquilo que os faz mais e mais felizes e nunca se acomodarem. Porém, é como uma roda-viva, tamanha expectativa faz com que se sintam eternamente insatisfeitos e em busca daquilo que está logo ali na frente e os deixará ainda mais felizes. (o que acaba não ocorrendo).

    Como o jovem encara a liberdade? E o que na visão deles pode interferir no mundo do trabalho?
    Como vimos em diferentes estudos sobre o jovem, o conceito atual de juventude está muito mais relacionado à liberdade de escolha do que à questão cronológica da idade. A liberdade está relacionada à autonomia. Os jovens de hoje querem ser os reais autores da sua vida, por isso há tanto receio de sofrer influências dos pais ou de qualquer outra pessoa que os coloque distantes daquilo que eles realmente querem para si.

    Quais os principais medos que eles têm?
    Esse jovem tem e assume seus vários medos. Um deles, e que foi consensual, é o medo de ter medo, ou seja, receio de não ter coragem para ir atrás das coisas que quer. Medo da solidão apareceu de forma muito significativa também, o que parece um contrassenso, pois as redes de conexões e interações são cada vez maiores. Nesse medo da solidão aparece um desejo de formar família, ter filhos, ter parceiros. Há também o medo de perder tempo e acabar se perdendo no caminho: estão ansiosos para descobrir seu verdadeiro potencial e serem reconhecidos por isso, de nunca encontrarem seu próprio caminho, de fracassar (não ser ninguém e ficar à margem do caminho escolhido), de ficar acomodado (entrar na roda-viva) e medo de não estar atualizado e se sentir desatualizado, enfim, a lista é bastante grande!

    O que os jovens pensam sobre ser bem-sucedido em termos de realização profissional?
    Querem se tornar alguém que contribua na melhoria da vida das pessoas que estão ao seu redor, querem realizar trabalhos que estejam ao mesmo tempo conectados aos seus talentos e façam essa diferença e ser motivo de orgulho dos pais e acolhidos pela sociedade. O sucesso apareceu relacionado a construir algo que faça a diferença. Realizar algo que gere orgulho, satisfação. O ser bem -sucedido está relacionado ao poder fazer e consumir as coisas que deseja, poder viver uma vida tranquila.

    O que eles deixam transparecer sobre o que pensam do mundo do trabalho e das escolas?
    A escola, para a maioria, é o lugar onde passaram boa parte da sua infância, fizeram seus amigos e criaram sua identidade e seus vínculos, porém é um lugar onde seu papel está mais próximo da criança do que do adulto. Nesse período, ainda se sentem controlados e doutrinados pela escola e pelos pais. A entrada na universidade simboliza um importante momento de evolução, em que ganham voz ativa. Para muitos, a universidade é um ambiente propício à expansão da mente. Onde querem desenvolver seu espírito crítico e ser valorizados pelas suas opiniões. Acreditam que a formação intelectual que a universidade pode proporcionar é muito mais abrangente do que a formação profissional. Já o trabalho para muitos deles pode ser o principal caminho para uma vida em movimento e conectada com os seus próprios valores. É pelo trabalho que descobrem quais são suas habilidades e o que realmente gostam de fazer. Destacam que a escolha do trabalho é definida por três importantes questões: atividade em si (o resultado daquilo que executa, o quanto o que faz é importante para si e para os outros e o quanto as pessoas e ele próprio estão comprometidos com o melhor resultado); ambiente (clima e as normas e regras do ambiente de trabalho; menos formalismo e exigências com horários e mais com resultados); e colegas (trabalhos colaborativos em que diferentes perfis de pessoas se conectam e aprendem um com o outro).

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