Reflexões pós-crise econômica

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    Neste segundo semestre, começam a aparecer sinais de que a crise econômica está arrefecendo. Neste artigo, propomos um olhar reflexivo sobre as ações tomadas em situação de pânico sobre a crise que seria idêntica à recessão de 1929. As manchetes no final do ano passado eram, de fato, aterradoras, levando a uma mudança na atuação dos governos, que acudiram com trilhões de dólares para aliviar as empresas. Sem sombra de dúvidas, essas rápidas providências dos governos impediram que a catástrofe anunciada tivesse maior tamanho. Mas será que a reação das empresas brasileiras foi adequada? As evidências trazidas pelos resultados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram um comportamento defensivo, de passar para adiante os problemas. A redução do número de vínculos de empregos formais (797.245, em novembro, dezembro e janeiro) ainda não foi compensada pelo saldo positivo dos meses de fevereiro a junho. Resta, ainda, uma diferença de 395.991 vínculos não repostos.

    As empresas mais modernas na gestão de pessoas adiaram ou evitaram as dispensas, com a concessão de férias coletivas, redução das horas extraordinárias e, em muitos casos, redução da jornada com redução do salário. Algum critério para as dispensas houve quando não se renovaram contratos de serviço temporário. Porém, os dispensados se tornaram, na expressão da OIT, “vítimas inocentes” do ajuste feito. Por pressão sindical, a primeira leva dos dispensados teve ampliado o número de parcelas do seguro desemprego.

    Parece que os ecos da crise da economia estadunidense e europeia anunciavam a iminência de grandes perdas, o que levou tanto à redução das atividades quanto à suspensão de novos investimentos. A consequência foi o aumento do desemprego, ainda não revertido. Perguntar-se-ia porque as empresas não anteciparam a possibilidade dessa recessão.
    Talvez pelo bom desempenho de seus negócios no Brasil. Mas o otimismo não resistiu à queda da Bolsa, à elevação da taxa cambial e à queda dos preços e das quantidades exportadas. Hoje, olhando para trás, talvez notemos que houve precipitação em muitos casos. Porém, algumas lições já podem ser tiradas:
    1) empresas que tinham passado por várias crises já incorporaram a possibilidade de, ao menos, adiar as piores consequências para seu pessoal, com a concessão de férias coletivas, banco de horas e, em casos excepcionais, acordos de redução de jornada. Essa tem sido a prática do setor industrial moderno e que precisa ser generalizada;
    2) as dispensas coletivas precisam ter um rito, que começa com as negociações com a representação dos trabalhadores. Já se falou em legislação a respeito. No entanto, se o tema não for previamente discutido, poderemos ter uma regulação inadequada;
    3) a despedida arbitrária necessita de uma lei complementar, segundo a Constituição.
    Esse é um tema que está sensibilizando o movimento sindical para o qual não se está dando a devida importância.
    Se a crise cessou, é preciso se preparar para a próxima. Se foi somente uma pausa, é hora de analisar nosso desempenho.

    Walter Barelli , economista, professor da Unicamp, é conselheiro da ABRH-SP

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