Resultados da Gestão

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Gustavo Morita
Leyla, da ABRH-Nacional: balanço de três anos da primeira gestão comandada por uma mulher

Desde que começou o curso de pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Leyla Nascimento percebeu a importância de trabalhar o tema educação nas empresas. Se a ideia de que por meio da formação e capacitação das pessoas é possível ampliar a competitividade do país e melhorar a condição de vida do trabalhador fazia todo o sentido para a então futura pedagoga em meados dos anos 70, hoje ela merece destaque especial em um período de escassez de talentos em um mercado cada vez mais competitivo. Primeira mulher a presidir a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), Leyla não mede esforços para difundir ainda mais a importância da educação para o país e o papel do profissional de RH nesse processo. Para tanto, em sua gestão, investiu no fortalecimento da instituição dentro e fora do país, destacando o que temos de melhor em gestão de pessoas. Na entrevista a seguir, ela faz um balanço do trabalho dos últimos três anos de sua gestão.

Quais os maiores desafios para a área de RH?
A escassez de mão de obra é um desafio que acompanha o RH há algum tempo e que tem se acentuado. As condições favoráveis da economia, impulsionada até pela realização em breve de grandes eventos esportivos, têm feito com que a competitividade por talentos, em um mercado aquecido, seja mais intensa. Desse desafio, podemos vislumbrar outros. Se, por um lado, atrair talentos tem sido uma tarefa hercúlea, cuidar para que eles permaneçam na organização é outra ação que demanda muito esforço e criatividade do RH na hora de criar condições para que a empresa seja um ambiente ao mesmo tempo acolhedor e desafiador. A criação de oportunidades de desenvolvimento, incluídas as ações de capacitação, tende a ser um caminho para reter os profissionais e também para prepará-los para superar outros obstáculos.

E os desafios para a ABRH nos próximos anos?
A nossa associação conquistou, nesses últimos três anos, um grande destaque internacional e reforçou sua atuação nos Estados em que possui seccionais. Fortalecer o papel do RH no mundo empresarial e, por que não, também fora dele, mostrando a contribuição que esse profissional pode levar para as empresas e para a sociedade é sempre um desafio nobre. E, para isso, é fundamental que aprimoremos ainda mais nossos serviços a esses públicos, buscando dar o exemplo de como ser criativo e inovador.

Uma das preocupações da atual gestão foi o posicionamento internacional da ABRH. Qual o objetivo dessa ação?
É preciso fazer com que mais e mais parceiros conheçam o nosso trabalho e as melhores práticas das empresas brasileiras em gestão de recursos humanos. Assim, há dois anos, por exemplo, criamos a Confederação dos Profissionais de Recursos Humanos dos Países de Língua Portuguesa (CRHLP), em parceria com a Associação Portuguesa de Gestores e Técnicos de Recursos Humanos (APG). No âmbito interamericano, passamos a integrar a vice-presidência da região Sul da Fidagh, com a atribuição de integrar, alinhar, mobilizar e promover as associações de gestão de pessoas no bloco composto pelo Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile e pela Argentina.

E houve também a aproximação com a Organização das Nações Unidas (ONU).
Isso mesmo. Em abril, a partir de uma parceria nossa com o Instituto Humanitare, estive em Nova York (EUA), em reuniões com diretores de departamentos ligados diretamente ao secretariado geral da ONU. A viagem representou um avanço expressivo nas relações da associação com as Nações Unidas, que se traduz em uma colaboração inédita da área de RH nas questões que integram a agenda da ONU.

Poderia citar uma ação decorrente dessa parceria?
A primeira ação nessa direção aconteceu dois meses depois. Durante a Conferência Rio+20, em conjunto com o Instituto Humanitare, integramos a programação do evento. Fomos responsáveis pela realização da Cúpula Mundial Green Jobs, parte integrante da Rio+20 & Você. Durante dois dias, 14 e 15 de junho, foram apresentados painéis com uma discussão profunda sobre carreira e emprego verde a partir do olhar dos gestores de RH. Educadores, jovens, pensadores, lideranças de empresas e representantes de organismos de representação internacional, como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), debateram os diferentes aspectos do tema. Além disso, a ONU iniciou um diálogo conosco para a criação de um comitê permanente sobre emprego verde, com a finalidade de estimular e ampliar a discussão sobre a relação entre emprego, trabalho, carreira e a sustentabilidade do planeta.

Que outra iniciativa a senhora destacaria?
Durante a Conferência e Exposição Anual da Society for Human Resource Management (SHRM), realizada este ano em Atlanta (EUA), conversamos longamente com o presidente daquela entidade, Hank Jackson. Aliás, foi desse encontro que surgiu o convite para ele vir pela primeira vez no Brasil, especialmente para participar da palestra de abertura do CONARH 2012. Desse contato, criamos também uma parceria para criar, por aqui, a certificação profissional em recursos humanos – a exemplo do que já acontece por lá. O objetivo da certificação, que está prestes a ser implementada para os brasileiros, é ser uma ferramenta de atualização e reconhecimento dos profissionais da área.

Algumas parcerias também alavancaram a associação a partir de um tema global, como foi o caso da discussão sobre os países do BRIC. 
Por meio de nossas parcerias nacionais e internacionais, colocamos a área de RH no centro dos debates sobre os grandes desafios globais da atualidade. No ano passado, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), e com apoio da Câmara Oficial de Comércio e Indústria Brasil-Rússia, da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China e do Great Place to Work Institute, realizamos o inédito Seminário de Recursos Humanos dos Países do BRIC. Pioneira no mundo, a iniciativa nasceu do entendimento de que a educação e a qualificação profissional são vitais para o crescimento dos países emergentes e que, com vistas ao desenvolvimento sustentável dessas nações nos próximos 10 anos, RH tem papel estratégico para garantir às organizações suprir tal demanda.

Uma de suas preocupações ao assumir a presidência era fortalecer as seccionais. O que foi feito nesse sentido?
No triênio 2010-2012, a gestão de pessoas ganhou ênfase nas diferentes regiões do Brasil com a movimentação das seccionais no cumprimento de uma agenda nacional, composta por grandes eventos: Encontros de Líderes, para que dirigentes empresariais debatessem o papel do RH na realidade de suas organizações; ABRH na Praça, para levar à população serviços gratuitos em recursos humanos; Prêmio Ser Humano, em reconhecimento aos que se dedicam a inovar e desenvolver a gestão de pessoas no país; e os Congressos e Fóruns estaduais. Estes últimos obtiveram adesão expressiva, tendo sido realizados por 19 seccionais em 2010, 21 em 2011 e, novamente, 19 em 2012. Como resultado, as seccionais incrementaram seus quadros associativos em 29,98%: saltaram de 6.097 associados no final de 2010 para 7.925 em setembro de 2012. Considerando-se que neste universo estão incluídas pessoas físicas e jurídicas, o número de beneficiados ultrapassa 12 mil.

E o que mais foi feito?
Em 2010, foi iniciado o Diagnóstico Nacional, finalizado um ano mais tarde, para traçar planos de suporte às seccionais. O intuito foi promover maior integração e alinhamento do trabalho das entidades estaduais, a partir da identificação de suas necessidades e seus potenciais. Também criamos um plano de fortalecimento dos produtos e serviços entregues pelas seccionais aos seus associados e ao público em geral.

Outro aspecto para fortalecer as seccionais foi a aproximação com outras entidades, não?
Sem dúvida. Procuramos ajudar as nossas seccionais a consolidar acordos estratégicos locais com organizações representativas, públicas e privadas. Assim, por exemplo, foi assinada uma parceria com a Confederação Nacional das Indústrias visando à integração das ABRHs com as entidades empresariais (federações das indústrias e associações comerciais) de seus Estados. Dessa aproximação organizamos o workshop O Desafio da Qualificação, realizado entre 2011 e 2012, para contribuir com informação, conscientização e mobilização das empresas da indústria na formação de seus profissionais. Esse evento foi realizado em Curitiba (PR), no Rio de Janeiro (RJ) e em Fortaleza (CE).

Em sua gestão algumas mudanças foram feitas no CONARH. Quais foram?
Ele passou por um acentuado processo de mudanças para dar suporte ao status de maior evento de gestão de pessoas da América Latina e segundo do mundo. A partir de 2010, criamos uma nova concepção para a planta do evento. Layout e design foram inovados para proporcionar aos congressistas e expositores um ambiente de maior fluxo e interação dos participantes: criação de espaços de convivência, corredores ampliados para permitir melhor circulação do público, aprimoramento da estrutura, do serviço e do conceito tanto da praça de alimentação quanto do restaurante oficial. Também intensificamos a participação de personagens de expressão no cenário nacional. Um marco dessa nova postura foi a realização, em 2010, do Encontro com Presidenciáveis, que reuniu dois dos três principais candidatos à presidência da República – José Serra e Marina Silva -, com a participação ativa da plateia. Neste ano, oito líderes empresariais participaram das palestras, entre eles Jorge Gerdau Johannpeter, que, atualmente, é presidente da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade do governo federal.

Na sua opinião, qual foi o marco do CONARH?
Foi em 2004, no Rio de Janeiro, quando o evento foi realizado simultaneamente ao 10º Congresso Mundial de Recursos Humanos, promovido a cada dois anos pela World Federation of People Management Associations (WFPMA). O Mundial aconteceu pela primeira vez no Brasil a partir de uma parceria com a ABRH-Nacional, à época liderada por Luiz Carlos Campos, e teve a ABRH-RJ, então presidida por mim, como anfitriã. Realizada para mais de 4,2 mil congressistas no Riocentro, a edição brasileira se consolidou como a maior da história da Federação.

A ABRH, nesses três anos, ganhou novas diretorias. Poderia citar algumas?
Uma delas foi a de Educação, tema que foi um dos pilares da nossa gestão. Além disso, a gestão dos procedimentos internos foi fortalecida com a reformulação da diretoria de Tecnologia. E no fim do ano passado, foi implementada a diretoria de Pesquisa, cujo objetivo é municiar empresas, profissionais, poder público, imprensa e sociedade com informações confiáveis sobre a área de RH e gestão de pessoas.

E por falar em pesquisas, o que tem sido feito?
Fizemos um levantamento, em parceria com a consultoria Empreenda, para conhecer com profundidade os anseios e as preocupações que movem os profissionais de RH. Outro levantamento, este em parceria com a Fundação Instituto de Administração (FIA), buscou evidenciar quais são os fatores que despertam o comprometimento da geração Y com o trabalho. Temos um estudo em andamento, também com a FIA, que trata dos fatores para retenção de talentos. Em âmbito internacional, a SHRM realizou uma pesquisa mundial para conhecer as competências dos profissionais de RH. No Brasil, o levantamento ficou a cargo da ABRH-Nacional. Os resultados deverão ser divulgados no início de 2013.

Uma das questões que mais afligem o RH é a ausência de indicadores. O que a ABRH tem feito em relação a esse tema?
Depois de seis meses de teste, realizado por meio de um projeto piloto com empresas de Santa Catarina, lançamos na edição do CONARH deste ano o Sistema de Indicadores de Gestão (SIGABRH). A ferramenta, inédita na área, irá proporcionar indicadores de desempenho às empresas e, dessa forma, contribuir para o aperfeiçoamento das práticas de gestão de pessoas. Ela tem acesso via plataforma web e visa criar um banco de dados com abrangência nacional sobre indicadores de gestão. As empresas participantes cadastram mensalmente no sistema seus indicadores, para serem incorporados à base de dados. A informação é tratada de forma sigilosa em ambiente seguro e controlado, em que nem mesmo o administrador do sistema terá acesso aos dados de cada empresa individualmente. Os usuários terão acesso ao conteúdo do banco de dados, que conterá informações estatísticas sobre os indicadores.

 

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Gumae Carvalho é editor de MELHOR – Gestão de Pessoas, revista oficial da ABRH. Antes, também trabalhou nas revistas Educação e Ensino Superior. Foi professor na Faculdade Cásper Líbero (onde se formou em 1993), assessor de imprensa, consultor editorial e um dos criadores do fanzine (e depois revista) Panacea.
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