Gestão

Risadas para espantar o machismo

Karin Hetschko
5 de Março de 2015
Dorothéa Werneck / Crédito: Divulgação
Crédito da foto: Portal da Secretaria de Estado do Planejamento de Minas Gerais

Achar uma representante do sexo feminino no topo das organizações é difícil, mas o cenário no setor público para as mulheres é ainda mais desalentador. No Brasil, apesar da chefe do executivo ser uma mulher, elas representam apenas 9% das cadeiras no Congresso Nacional. E esse número cresceu nos últimos anos, no início da década de 90, a representatividade delas na Casa era de 4%.

Escavar espaços em locais antes nunca dantes navegados por uma mulher em Brasília (DF) é uma das especialidades de Dorothéa Werneck. A economista foi a segunda ministra mulher no Brasil, comandou os ministérios do Trabalho, de 1982 a 1990, e da Indústria e do Comércio, de 1995 a 1996. Ela ainda acumulou passagens no Ministério do Turismo, na Agência de Promoçãe e Exportação e encerrou~em 2014 sua atuação como Secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais.

Na entrevista concedida à Melhor, Dorothéa fala sobre sua trajetória, gestão de pessoas no setor público e avisa que nunca se sentiu incomodado com o machisto. “Não cumprimentar porque acha que você é apenas uma secretária. É bom porque eu olho e morro de rir”, brinca.

Como é atuar por quase 40 anos no setor público?
A espinha dorsal do meu trabalho é o setor público, é a minha paixão, mas também tive uma pequena experiência no setor privado, numa consultoria e num banco. Muitas pessoas me perguntam, mas como você aguenta isso? É paixão, somos movidos por ideais, respondo. Eu fui a segunda ministra mulher no Brasil, isso em 89; a primeira foi a Esther Ferraz, em 82.

Como foi ser uma das primeiras mulheres a frequentar um espaço tipicamente masculino e logo após o fim da ditadura militar?
Ninguém sabia como tratar as mulheres à frente do comando na época. Existe uma regra do protocolo que a ordem de entrada é ditada pela antiguidade do ministério e, como eu era mulher, resolveram me passar na frente, eu ria, achava ótimo. Outro susto: eu sempre tive esse meu jeito de rir, alegre saia beijando todo mundo. Eu era a beijoqueira, era o jeito gostoso de trabalhar, sair cumprimentar todo mundo.

#Q#
Qual é o principal desafio da mulher na gestão pública?
Eu tendo a dizer às pessoas o seguinte: você tem uma palavra que é técnico profissional, ela não tem masculino ou feminino. Sendo profissional você tem 90% do caminho andado; as bobagens que às vezes acontecem, que o povo se surpreende porque nos somos mulher eu morro de rir (rsrs). Não cumprimentar porque acha que você é apenas uma secretária. É bom porque eu olho e morro de rir.

Como é o seu estilo de gestão?
Meu estilo de gestão é compartilhar, dividir e ouvir muito. Acho que a principal responsabilidade do chefe é criar as condições para que todos consigam alcançar seu potencial. Eu delego, converso e tenho uma característica que me ajuda muito, que é o poder da síntese. Quando eu delego, eu peço prazos também. Quanto tempo você precisa? Duas semanas, ok. Mas se em duas semanas não está pronto, pergunto qual é o problema e avaliou um segundo prazo. Se nesse segundo prazo, o problema não é resolvido, eu vou lá e faço. Eu descobri que as pessoas se assustam com isso.

Você acredita que seu estilo de gestão lhe concede uma equipe que lhe entrega resultados?
Isso atrai bons talentos. Somos loucos da mesma ordem, mas frequentamos a mesma enfermaria, brinco. Na hora que você começa a imprimir seu estilo, as pessoas tendem a procurar pessoas que tem um estilo semelhante, então, minhas equipes são bárbaras. A vida inteira eu trabalhei com equipe pequena. As grandes maluquices que a gente fez na vida não passávamos de dez pessoas.

Mesmo que o candidato chegue despreparado ao mercado de trabalho, há como a corporação prepará-lo?
Eu acredito no autodidata, se as pessoas querem, elas buscam conhecimento, e o resto da equipe pode ajudar, pode orientar, responder às perguntas do colega, mas a iniciativa tem que ser da pessoa. Se a pessoa está atrás e busca, estamos lá para apoiar.

Com o envelhecimento da população ativa, há um debate de trazer os aposentados de volta ao mercado de trabalho, o que a senhora acha do tema?
Eu acho essa história de envelhecimento é algo trágico. Veja o exemplo do Ministro Ayres Britto do STF, ele teve de se aposentar no auge de sua capacidade e experiência. Eu tenho muita resistência a isso; tem de dar abertura e oportunidade às pessoas que estão cansadas e querem se aposentar, mas não vinculo de forma alguma a idade aquela obrigatoriedade que acontece em muitas empresas, chegou acima de 65 tem de aposentar para dar lugar aos mais jovens.

O que você diria às mulheres que tem medo de seguir seus sonhos na carreira?
Digo: se surgir a oportunidade, por que não? Talvez uma grande diferença nossa, da mulher para o homem, é que a gente tem muita coragem e a principal coragem que a gente tem é de errar, se errou conserta, se não deu para consertar vamos trabalhar para dar outra solução. Eu odeio problema, mas sou fascinada por solução.

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