Gestão

Rituais corporativos

Gazi Islam*
17 de dezembro de 2010

A análise de como as organizações atuam em determinadas situações, como procedimentos adotados em demissões, promoções e transferências de funcionários, revela o perfil dessas instituições ou dos diferentes grupos existentes dentro das empresas. Em uma avaliação superficial, as ações dos membros de uma instituição podem ser caracterizadas como maneiras de alcançar lucro, promoções e metas. Entretanto, essas mesmas ações podem demonstrar um forte simbolismo, expressando elementos pelos quais crenças, emoções e identidades podem ser formadas ou alteradas. Essa “persona organizacional” tem uma maneira própria de agir e adota procedimentos com grande caráter simbólico. São ações que afetam os indivíduos e desempenham papel importante na manutenção e reforço das relações sociais existentes, integrando os indivíduos em uma estrutura social mais ampla.

Por isso, compreender o simbolismo das ações possibilita uma adaptação mais fácil dos colaboradores. Para os gestores, nas situações de crise, conhecer o significado intrínseco dos procedimentos faz com que as estratégias adotadas sejam mais eficazes. Normalmente, nas pesquisas são considerados símbolos os objetos como os uniformes ou as logomarcas. No entanto, o modo de agir também pode ser considerado um símbolo funcional. Comportamentos – ocasionais frequentes – podem atuar como símbolos quando ocorrem em determinados contextos sociais. Dentro desse contexto, agrupei situações que têm grande impacto na estrutura social e nos conceitos e valores individuais dos seus funcionários. A maneira como as empresas lidam com esses acontecimentos tem um alto poder simbólico. Elas foram classificadas em seis diferentes “rituais corporativos”. Veja a seguir:

1 De passagem
Grandes mudanças na vida das pessoas, como casamento, a adolescência e até mesmo a morte, e as mudanças profissionais, como contratações, promoções e demissões, podem ser classificadas em termos de rituais sociais para marcar o fim de um período e a transição para a próxima fase. O ritual de passagem é composto por uma fase preliminar, na qual o indivíduo é removido de sua função anterior; uma fase de transição, em que a pessoa está entre dois papéis e fica temporariamente desprovida de uma identidade social que a identifica a um grupo; e última fase pós-liminar em que o indivíduo é incorporado no seu novo papel. Dentro das empresas, podemos citar uma situação comum de transição de um colaborador: contratação (preliminar); treinamento (transição); delegação de responsabilidade (pós-liminar). Rituais de passagem são normalmente identificados nas interfaces entre as organizações e suas áreas. Programas de treinamento e de estágio podem ser caracterizados como rituais de passagem. Isto é particularmente verificado quando os primeiros estágios do treinamento envolvem tarefas difíceis que os trainees devem realizar para alcançar as suas novas posições. Promoções são outras situações que envolvem cerimoniais elaborados para separar os indivíduos das suas funções anteriores e integrá-los às novas atribuições.

2 De valorização
Trata-se de cerimônias elaboradas para os membros da organização que executaram excepcionalmente bem suas funções ou que personificam os valores e atitudes da empresa. A importância dada a esses rituais afasta o caráter funcional da atuação do empregado dando maior destaque ao “modelo” de funcionário e mostrando como seu comportamento e suas atitudes levam ao reconhecimento público e valorização. Entre os ritos de valorização estão artigos nos jornais da empresa e relatórios anuais, oferta de placas e prêmios, e jantares e cerimônias de reconhecimento dos melhores funcionários.

3 De rebaixamento
As situações em que a pessoa tem alguma perda de status são as bases para os rituais de rebaixamento, que também podem estar associados ao fechamento de uma empresa. Esses rituais também são caracterizados por três estágios: separação; descrédito; e remaoção. Além de retirar membros de suas posições, esses rituais servem para construir coesão e consistência ao grupo. Para que essas situações criem a solidariedade da equipe, dois pontos devem ser verificados: o rebaixamento simbólico não deve envolver uma grande parte da equipe e deve ser baseado na restauração do bem-estar ou do equilíbrio do grupo. Os rituais de rebaixamento também podem ter o objetivo de afastar um indivíduo quando sua má reputação individual pode manchar a imagem da organização: executivos podem ser demitidos após um desempenho ruim da empresa sem que sua liderança individual seja questionada, por exemplo. Esta remoção simbólica serve para atribuir baixa performance ao indivíduo, deixando ilibada a organização.

4 De renovação
Esses rituais consistem em ações simbólicas periódicas realizadas para reforçar a predominância de determinados valores da organização e enfatizar os laços sociais dentro da companhia, lembrando a importância de cada pessoa no grupo social. Festas anuais de fim de ano são uma boa ilustração desse tipo ritual. Além disso, conferências anuais ou encontros comerciais têm significados ritualísticos em termos de identidade profissional. Também podem ser enquadradas nessa classificação atividades motivacionais e de desenvolvimento organizacional, como feedback de programas e workshops em grupo. Essas atividades renovam aspectos como se estivessem voltadas para reafirmar as estruturas existentes, muito mais do que promover a mudança real do sistema.

5 De redução de conflito
Rituais de redução de conflito consistem em tentativas públicas de resolver conflitos ou tratar de questões importantes para demonstrar que “algo está sendo feito”. Exemplos disso incluem negociações coletivas, que dão a impressão de negociação cooperativa de interesses e criação de comitês que estabelecem um grupo simbólico que se reúne para resolver problemas. Estes rituais são usados para dissipar emoções negativas e restabelecer laços sociais. Assim, discutir conflitos em comitês especiais pode dar ao grupo a sensação de que todas as vozes estão sendo ouvidas e que isso, simbolicamente, reduz as ameaças ao grupo.

6 De integração
Esses rituais tentam juntar diferentes grupos da organização que, normalmente, não interagiriam. Festa de fim de ano ou de Natal são exemplos desse tipo de situação. Isso é comum em cenários de fusões e aquisições, nos quais duas companhias com identidades diferentes precisam se unir para criar uma nova imagem. Essas situações são inerentemente ameaçadoras, já que as pessoas podem estar emocionalmente envoltas por suas atribuições anteriores. Desta forma, os rituais podem ser usados para enfatizar os pontos comuns entre as duas companhias ou demonstrar como uma nova e maior empresa é digna de identificação pelo seu tamanho e importância.

* Gazi Islam é pesquisador do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper)

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