Roteiro original

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    Das iniciativas tomadas sem um diagnóstico prévio, sem um planejamento anterior, e que se revelam inócuas e sem necessidade para a empresa (ou até erradas), ao aprendizado com tais situações, passando pela descoberta do propósito de um trabalho e do papel que uma empresa ocupa na vida de uma pessoa. Essas são algumas das observações feitas por um time de profissionais convidados por MELHOR a partir do filme A missão do gerente de recursos humanos, do roteirista Noah Stollman e do diretor Eran Riklis, lançado recentemente em DVD pela distribuidora Imovision. Confira:






    Conciliar interesses


    “Uma das missões do RH é conhecer as diferentes perspectivas (da empresa e dos colaboradores) e, a partir disso, procurar construir a melhor solução – que concilie os interesses dessas duas partes, na medida do possível. Contudo, nem sempre é viável conciliar esses pontos e o gestor de RH deve ter a coragem para propor e defender uma solução que seja ética e justa.  O filme mostra, por meio de uma missão que é atribuída ao gerente de RH, que existe um risco ao se definir o que seria a melhor solução para um problema, sem escutar os envolvidos. Isso fica claro ao final, quando a decisão da empresa de levar o corpo da funcionária morta para sua cidade natal se mostra errada.  O processo de tomada de decisão sobre pessoas é complexo, e existem ocasiões em que o melhor a fazer é voltar atrás, ao reconhecer que a decisão tomada não foi a mais acertada. No filme, o gerente de RH foi forte o bastante para rever uma decisão, de modo a atender aos interesses dos envolvidos e fazer o que considerava correto”.


    Por Meiling Canizares, diretora de RH da GXS


    Defender o ponto de vista





    “O filme mostra, de maneira exagerada, a importância de a empresa zelar pelos seus funcionários por meio de um representante de RH. Retrata, também, como a área, muitas vezes, não é comunicada de ações tomadas pelos gestores e que têm impacto para a organização. Além disso, ressalta a importância do RH no momento de defender a companhia de uma exposição de mídia. Porém, a forma deveria ter sido diferente, mais racional e ética. Mesmo que a empresa e o RH tenham consciência de “zelo” com seus funcionários, há uma limitação de atuação.

    O gerente tem uma postura equivocada e o filme tenta mostrá-lo como um herói; no entanto, deve haver limites entre o papel do profissional e a causa pessoal. Além disso, ele não consegue impor suas opiniões frente Í  gestão maior da empresa (dona), nem em relação Í  imprensa e, por várias vezes, comete erros (por exemplo: suborno, falta de conhecimento do que acontece no dia a dia da panificadora, entre outros) que não poderiam acontecer. No decorrer do filme, ele se mostra engajado, mas não com a companhia (com a necessidade de resolver o problema e limpar a imagem da panificadora), mas, sim, porque ele se envolve com o problema da funcionária e o toma para si.
    Todo o filme, apesar de se apresentar de uma forma metafórica e exagerada, faz conexão com a realidade. Houve uma proatividade em levar o corpo da funcionária até sua cidade de origem, porém a família dela não foi consultada em nenhum momento – o que mais tarde foi entendido como uma ação precipitada. Com isso, podemos traçar um paralelo com a vida real quando vemos várias áreas de RH tendo iniciativas sem necessariamente ter um diagnóstico, um planejamento e priorização e, após meses de trabalho, chegam Í  conclusão de que essas ações não eram as necessárias ou prioritárias para suprir as demandas dos funcionários ou da empresa naquele momento. O profissional de RH no filme se submete Í s ordens da dona da panificadora, sem conseguir defender seu ponto de vista sobre sua atuação naquele caso específico, o que também é uma realidade vivenciada fora das telas”.


    Por Marcelo Santos, CEO da Doers


    Dramas humanos


    “Assistindo ao filme, só reforcei o meu conceito de que escolhemos uma importantíssima carreira – que lida com todos os dramas humanos no ambiente corporativo -, mas árdua, já que a alma humana é bastante complexa, e que, no final das contas, apesar de falarmos de RH estratégico, gestão de talentos, meritocracia, métricas, o grande público, e aí incluo nossos familiares e amigos, nos enxergam, Í s vezes, como juízes de futebol (que só são lembrados quando de um pênalti, uma falta é mal marcada, ou uma expulsão). No caso do filme, uma crise empresarial: a morte de uma imigrante, funcionária da empresa, que desencadeia uma grande jornada do profissional de RH. Aliás, interessante jornada, que retratou bem nosso dia a dia, em que procuramos equilibrar o distanciamento profissional, como o envolvimento com os dramas humanos, vivendo o dilema entre a ética pessoal e empresarial, na constante busca de fazer o que é certo. O que fará esse mundo melhor e diferente. Nisso acredito, e é o que me guia como profissional de RH”. 

    Por Antonio Salvador, vice-presidente de RH da HP Brasil






    Agentes de mudança


    “O filme apresenta de maneira bastante profunda o extremo envolvimento que uma pessoa passa a ter com sua atividade profissional a partir do momento em que lhe é dado um sentido maior para aquilo. Fica claro que o gerente de RH não escolheu aquela profissão como a que gostaria de encerrar sua carreira – pelo contrário, se mostrou bastante insatisfeito com a posição que ocupava e com o modelo de gestão praticado pela presidente da panificadora.
    Quando é demandado a preparar uma resposta Í s acusações feitas pelo jornalista, descobre que foi enganado e que sua imagem seria utilizada para desvincular a falta de conhecimento da morte de uma empregada Í  atuação pouco próxima e humana de uma área de
    recursos humanos. Existia pouco ou qualquer relacionamento entre o gerente e os demais gestores (supervisores) da panificadora no caso apresentado. Os envolvidos passaram a se conhecer pela necessidade de uma acareação do ocorrido, não por uma ação de desenvolvimento de líderes provocada de maneira corporativa. Mesmo assim, aquele homem que apresentou um comportamento pouco empático nas primeiras cenas demonstrou-se um excelente observador e astuto tomador de decisões ao longo dele.

    Foi necessário o envolvimento com a história da empregada, os motivos pelos quais ela aceitou aquele emprego, a família que tinha e abandonou em busca de um futuro melhor, o local onde morava e as relações que estabeleceu em um país com cultura totalmente diferente do seu de origem, para se envolver com a situação real e repensar, inclusive, a maneira com a qual lidava com sua própria vida.
    Tratou a causa da empregada assassinada como uma causa maior, trazendo Í  tona uma pergunta que me faço diariamente: qual o papel que uma organização ocupa na vida de um indivíduo? Até onde o RH e os gestores de uma companhia têm o poder de decidir a vida do outro no que tange ao seu futuro profissional? Será que praticamos responsabilidade social ao convidar um profissional para fazer parte do nosso time, fazendo com que deixe outra corporação?

    Nosso papel é muito maior que uma simples descrição de cargo ou de um formulário de missão e responsabilidade de uma área – somos agentes de mudança, somos influenciadores na tomada de decisão de vidas (afetamos profissionais e famílias, respectivamente) e devemos tratar cada atividade como algo sagrado, como experiências que, boas ou ruins, farão parte da história de vida de indivíduos cujo nome ou número de registro muitas vezes conhecemos, e, infelizmente, não conhecemos sua fisionomia”. 

    Por Daniela Risso, gerente de pessoas da Brasilprev


    Veja mais:


    > A crítica feita por Sérgio Rizzo

     

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