Carreira e Educação

Sala de aula no RH

Camila Mendonça
11 de Janeiro de 2013
Caio Mattos
Amantea, do Insper: mais conhecimento para nossos líderes

Carência de mão de obra, retenção de talentos, afinamento de competências comportamentais, qualificação, construção de lideranças e absorção da quantidade de informações disponibilizada pelo mercado. Esses são os principais desafios que as empresas devem enfrentar em 2013. E é nesse cenário que cresce a presença de instituições voltadas para educação corporativa nas áreas de recursos humanos. O intuito é fomentar conhecimento, disseminar melhores práticas, qualificar funcionários e ajudar as empresas a crescer.

Com as mudanças rápidas e significativas do mercado de trabalho, o papel dos programas de formação executiva na superação dos desafios das companhias tem ganhado cada vez mais destaque. Primeiro porque o entrave da falta de profissionais qualificados ainda não foi superado e as companhias já tomaram para si a tarefa de formar dentro de casa. Segundo porque, sozinhas, as empresas não conseguem capacitar a mão de obra necessária para atender suas necessidades.

Oferta de vagas
Os custos da rotatividade também interferem na demanda por formação. Em tempos de grande oferta de vagas, ou a empresa prepara os funcionários para atender ou troca o quadro. “O problema é que a troca nesse momento pode ser um risco e custará caro. Às vezes é melhor ficar com as pessoas e treiná-las, porque fica mais barato e, de qualquer forma, aumenta a performance”, afirma Armando Dal Colletto, diretor acadêmico da Business School São Paulo (BSP). Outro ponto que influencia o estreitamento de laços entre instituições de ensino e empresas é a percepção de que os cursos de graduação não dão mais conta do recado. “Temos notado que não existem profissionais com competências técnicas necessárias porque as universidades não formam líderes”, afirma Daniel Orlean, sócio-diretor da Affero, empresa que oferece soluções em gestão de pessoas. A instituição tem, em média, 650 turmas de cursos customizados por mês na modalidade presencial e aproximadamente 1,5 milhão de participantes por ano em todas as modalidades. Ao todo, a Affero atendeu 120 empresas neste ano.

Nessas parcerias, uma preocupação é pulsante e amarra a maior parte dos desafios das empresas: gestão, seja de processos ou pessoas. “Falamos de habilidades e competências comportamentais. As empresas têm dificuldade de encontrar pessoas que atendam aos requisitos mínimos e investem por conta própria”, ressalta Orlean. Para Olavo Henrique Furtado, coordenador de pós-graduação e MBA da Trevisan Escola de Negócios, de olho nas lideranças futuras, o mercado se preocupa cada vez mais com o perfil comportamental dos executivos. “As empresas querem profissionais com valores que estão de acordo com os valores delas”, afirma. “Um grande desafio é construir um pilar de liderança sólido”, completa Rodrigo Amantea, coordenador da educação executiva do Insper. “A falta de profissionais qualificados é uma realidade em todas as empresas e investimentos na área de gestão são fundamentais porque os nossos líderes são mais carentes de conhecimento do que os de outros países”, completa. 

Na instituição, cursos focados em gestão já fazem parte da grade. Contudo, a tendência é aumentar a presença do tema nos programas de MBA e por meio de cursos de curta duração. A preocupação com gestão e liderança não é à toa. Com falta de pessoal, as empresas elevam profissionais aos cargos mais estratégicos cada vez mais cedo. A falta de experiência na cadeira aumenta as chances de esse executivo cometer erros que impactam nos resultados e no time. Consequências: piora do clima corporativo e aumento da rotatividade. Como em um círculo vicioso, com a saída de funcionários insatisfeitos, outros, ainda mais inexperientes, começam a subir. “Dinheiro e aquela carreira tradicional não são mais os drivers das pessoas”, ressalta José Luiz Trinta, diretor de negócios do Grupo Ibmec. Para ele, se as companhias não souberem lidar com os novos anseios dos profissionais não conseguirá retê-los – dificultando ainda mais a tarefa de ter pessoas aptas no quadro. “As empresas ainda não estão com um olho afinado, mas elas precisam olhar aqueles que querem manter e promover”, diz Marina Heck, coordenadora do Global Executive MBA Program (One MBA) da FGV-Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas).

Transmissão
Se os desafios das empresas são muitos, os das escolas de formação executiva são ainda maiores. Encaradas como polos de transmissão de conhecimento até pouco tempo atrás, elas agora são encaradas como a salvação dos RHs e são procuradas para resolver os dilemas da qualificação. “O Brasil está passando por um momento de oportunidades de negócios e um dos problemas é a carência de mão de obra técnica, capacitada e gerencial. As empresas estão pensando em ter pessoas que pensem corporativamente. O desafio é formar líderes por meio de equipes”, explica Antônio Batista, diretor de mercado da Fundação Dom Cabral (FDC). “Nosso papel é responder o que a empresa quer, tirar uma foto do mercado, fazer análise e traçar cenários. É trazer as empresas para dentro da escola”, afirma Furtado, da Trevisan. É dessa forma que a oferta de cursos customizados por instituições de formação executiva tem crescido. E, para 2013, as principais instituições querem ampliar ainda mais esse leque. Uma delas é a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), segundo Victor Mirshawka, diretor da faculdade. “Em cinco anos, atenderemos mais ou menos 4 mil alunos nesse segmento”, diz. Em 2012, a instituição atendeu 30 empresas e formou 45 turmas customizadas, de cerca de 30 alunos. A expectativa, diz, acompanha a demanda, cada vez mais agressiva. “As companhias buscam a formação para melhorar o desempenho frente à competitividade”, conta o diretor.

O Projeto Pense Melhor da faculdade, programa de cursos customizados para as empresas, já tem quatro anos e entre os assuntos mais pedidos por elas estão gestão de pessoas, de talentos, de projetos, inovação, empreendedorismo, negociação e vendas. Para 2013, a instituição ainda aposta em gestão e sustentabilidade. O Ibmec preparou cursos para cerca de 100 empresas nos últimos dois anos e obteve, somente em 2012, um crescimento de 30% apenas nessa área. De acordo com Trinta, a preocupação em ampliar o portfólio é uma resposta do próprio mercado, cada vez mais preocupado com a formação dos executivos. “É difícil uma empresa contratar alguém para um cargo de liderança sem um curso executivo”, diz. Gestão também esteve presente nas mesas de conversas com as empresas e deve continuar norteando os trabalhos da instituição. E-learning também está na agenda do Ibmec, assim como a ampliação das parcerias internacionais, que hoje somam 34, entre universidades e instituições de negócios estrangeiras. 

Na Trevisan, as novidades estão direcionadas tanto para executivos mais seniores quanto para executivos menos experientes. “Nosso papel como escola é tornar o que é intangível para a qualificação profissional tão tangível quanto um objeto”, afirma Furtado. Essas também são as apostas do Insper, segundo Amantea. A instituição também concentrará os esforços em programas com módulos em outros países, reforçando as parcerias internacionais. “O Brasil desperta a atenção de investidores e empresas estrangeiras e até de executivos que querem atuar no país”, justifica.  A internacionalização também é tema a ser tratado pela BSP. Com a presença das empresas em outros países e com a vinda de companhias estrangeiras, as necessidades de ter profissionais com conhecimentos de regulações e normas internacionais são cada vez maiores. “As empresas precisam de gestores amplos porque nas empresas não se resolve um problema por vez”, diz Dal Colletto. Pensamento estratégico, sistemas e implantação de novas tecnologias e processos devem ser os assuntos mais demandados na Affero.

Riscos
A valorização pelo mercado desse tipo de formação pode gerar um possível problema para as companhias, acredita Marina, da FGV-Eaesp. “Já vemos certa banalização do MBA. O mercado precisa começar a fazer uma triagem”, alerta. Para ela, a preocupação das empresas com a formação e treinamento dos funcionários é cada vez maior – o que não exime o funcionário da responsabilidade pela própria formação. “As empresas precisam olhar aqueles que elas querem manter e promover, mas cabe ao próprio funcionário perceber que ele pode crescer e levar para a empresa aquilo que vai ajudá-lo nesse crescimento.”

 

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