Selecionando vidas

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Escolher o candidato ideal para contratação é uma das tarefas mais difíceis de um profissional de RH. Ao contrário do que se pensa, não é apenas a questão da oferta e da procura que pesa na tarefa. São os sonhos de ambos os lados, empresa e candidatos, que estão em jogo. Estes constroem desde o primeiro contato uma expectativa em relação ao novo trabalho. Já se veem na empresa, imaginam como será o transporte para aquele local, idealizam uma nova rotina em suas vidas.

Alguns, que estão desempregados ou insatisfeitos no emprego atual, enxergam na oportunidade a solução de todos os seus problemas. No entanto, para cada vaga as empresas acessam pelo menos dez currículos, entrevistam cerca de três pessoas e o ciclo continua até se encontrar a que mais se aproxima do perfil desejado. Alguém vai ficar de fora. Por outro lado, quem contrata também cria expectativas. Querem alguém parecido com o antecessor, ou totalmente diferente; que combine com a equipe existente, ou que a instigue. Repensam a estrutura, reformulam os requisitos e até desistem. Vagas também são fechadas, seleções adiadas, devido a movimentos internos e externos.

São os fatores subjetivos, mais do que a descrição do cargo, que acabam decidindo a contratação. Por isso, são inócuas as tentativas de um candidato preterido entender as razões de não ter sido o escolhido. Muitas vezes, são situações que ocorrem dentro das organizações, fora do alcance dos envolvidos, que afetam a decisão: uma mudança de diretoria, um cliente perdido e até mesmo acontecimentos com a equipe que já trabalha na empresa podem afetar a posição em aberto. De nada adianta o candidato tentar influir no processo, buscando indicações, cobrando um retorno. Não há como eliminar a ansiedade natural do candidato pela resposta, mas ela só virá no tempo da empresa que está selecionando. Tempo que pode parecer uma eternidade para quem espera. Por tudo isso, selecionar é uma grande responsabilidade.

Cabe ao RH tornar o processo o mais transparente e humano possível, respeitando a todos. Muitas vezes, o volume de candidatos e a rapidez do turnover sobrecarregam as áreas e consultorias de RH, que nem sempre conseguem dar o retorno e o tratamento adequados a todos os candidatos. Enquanto a relação ainda é distante, analisando currículos ou pesquisando perfis, a responsabilidade do selecionador é intangível, mas, a partir do momento em que se torna pessoal, não há como fugir do comprometimento. O selecionador absorve toda a energia das dezenas de pessoas com quem faz contato. E elas projetam nele suas esperanças. Com o mercado aquecido, a balança pode se inverter. São os candidatos que desistem de última hora, escolhendo outra alternativa. Pesam qualidade de vida mais do que o salário e são influenciados pela empatia e valores dos possíveis contratantes. Quem se frustra nesse caso é a empresa, que vai reiniciar toda a busca. Como tudo na vida, ingressar num novo trabalho envolve escolhas, a decisão e o sentimento de pessoas e um pouco de sorte, para a convergência de todos esses fatores.

*Lucia Madeira Moraes é gerente de RH da Fundação Roberto Marinho

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