Sem sair do trabalho

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Marcelo Ferreira da Silva, gerente de T&D do Grupo Hatch e responsável pelo programa de aulas in company: ele já experimentou convênios com escolas, cursos on-line, mas foi com o professor dentro da empresa que viu a melhoria do desempenho. “O brasileiro ainda não tem uma cultura autodidata e faz parte do seu comportamento ter um contato mais pessoal, de olho no olho”, diz, lembrando que a empresa

Acabou o expediente. O dia foi corrido, você entregou aquele relatório e tem um compromisso com seu último Programa de Desenvolvimento Individual (PDI), ganhar fluência em seu inglês. Afinal, os contatos com empresas estrangeiras aumentaram muito nos últimos anos, as viagens e conversas com prospects globais exigem de você desenvoltura para apresentar projetos, escrever e-mails e orçamentos. Mas há o trânsito, o cansaço, a vontade de chegar em casa… Você dá uma olhadinha pela janela, confere que às 18 horas o trânsito não está fácil e chegará à escola um tanto quanto atrasado, mas estica o corpo e deixa a preguiça de lado. “Let´s learning English!”

Se ter fluência em inglês sempre foi importante e um diferencial na carreira, a necessidade de dominar o idioma ganhou mais destaque nos últimos anos com a forte globalização da economia. O que era importante tornou-se urgente, para profissionais e empresas. Cursos on-line, convênios com boas escolas e o inglês dentro da empresa são algumas das apostas dos RHs para estimular o ensino. Mas a velocidade da internacionalização da economia brasileira nos últimos anos incrementou significativamente o investimento em executivos e times de primeiro e segundo escalões das empresas para uma fluência da língua, e pouca velocidade no caminho para chegar às escolas, por exemplo, aumentaram a demanda pelos cursos in company. Seja qual for o formato escolhido, uma coisa é certa: disciplina e deslocamento certamente vão determinar a persistência em falar a língua de Tio Sam.

E nesse aspecto, as aulas dentro da empresa saem na frente. Isso porque o desempenho do curso e as presenças são monitorados para manter o benefício. Os colegas da sua turma vão cobrar sua presença e até conversar em inglês com você pelos corredores. Não é preciso sofrer no trânsito ou pagar estacionamento, basta organizar-se. Mas é preciso muito comprometimento. Não só do aluno, mas também da empresa.

Segundo Olyanna Riccetti, que há 14 anos dá aulas in company, sempre em empresas globais e para profissionais do corpo especialista e gerencial para cima, se não houver esse compromisso de ambos os interessados, organização e profissional, o ganho na redução do deslocamento pode ser perdido por conta do excesso de proximidade do local de trabalho. “Muitas vezes, o aluno chega para a aula em seu horário, é pontual, mas recebe uma ligação chamando para resolver algum imprevisto. E como está a poucos andares, e, às vezes, até na própria sala, tem de se ausentar, prejudicando o aprendizado. Isso sem falar em smartphones ligados recebendo e-mails e mensagens on-line”, observa a professora.

Com foco em business english, Olyanna concorda que a demanda por fluência aumentou qualitativamente nos últimos anos. “Praticamente em todas as empresas globais as pessoas recebem muito mais e-mails, apresentações em PowerPoint e planos de negócios totalmente em inglês. E é um caminho sem volta, aprender esse idioma universal é realmente imprescindível”, destaca.  Não por acaso, segundo Olyanna, as metodologias de suas aulas estão focadas em situações vivenciais para mostrar a importância dessa nova realidade de internacionalização econômica no país.

Simulações ajudam
São simuladas situações que têm se tornado cada vez mais cotidianas nas empresas, tais como receber um estrangeiro na companhia, apresentar sua área de trabalho a ele, dizer o que faz sua equipe, quais são seus projetos. No dia a dia, em que e-mails tornaram-se documentos de negócios, a professora exercita a redação de negociação de prazos, valores, dando à escrita maior veracidade. Sempre com a orientação gramatical e toda estrutura idiomática, obviamente. Como se comportar em uma conference call e até mesmo em situações reais de exposição à língua é ensaiado durante as aulas, os chamados “role-play”.

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A analista de estudos energéticos da EDP, Livia Maria Pinheiro Gazzi, estuda inglês na hora do almoço, duas vezes por semana e acredita ser uma vantagem não ter de se deslocar na capital paulista para estudar o idioma. Sua turma, de três pessoas, foi selecionada pelo nível de fluência (no caso de Lívia, início do avançado). “Mas um dos benefícios que mais considero é o fato de utilizarmos expressões relacionadas em nossa área na linguagem de negócios, como gráficos e apresentações, uma vez que estamos todos inseridos no segmento de energia”, diz a analista. Para ela, dificilmente, por melhor que fosse a escola, ela teria essa facilidade de exercitar o inglês dentro das terminologias de negócios da EDP.

Subsídio
No caso de Lívia, a empresa financia uma parcela acima de 80% dos valores das aulas para quem quiser participar do curso in company. Mas as presenças e o desempenho são monitorados como forma de manter a motivação e evitar absenteísmo. “Além disso, temos dois anos de subsídio; depois, a empresa indica outras formas de manter o estudo do idioma por meio de convênio com escolas”, explica Lívia. Quem também oferece um subsídio na faixa de 80% para os colaboradores é o Grupo Hatch. Lá, as aulas são realizadas em turmas de três pessoas no máximo. “Esse é um ponto diferencial, melhor do que aulas individuais, porque você aprende a escutar o outro”, diz Marcelo Ferreira da Silva, gerente de treinamento e desenvolvimento do Grupo Hatch, e responsável pelo programa de aulas in company.

Acompanhar o rendimento e a presença do aluno, sem dúvida, contribui para que o RH possa mensurar os benefícios para seus colaboradores e, assim, justificar seus investimentos. No entanto, em algumas empresas, faltas por conta de viagens de negócios e reuniões de diretoria costumam ser “abonadas”, sem levar em conta o prejuízo no aprendizado. Uma conta que não pode ser ignorada, já que, ao contratar uma escola de inglês ou ainda um profissional autônomo, são definidas as metas de aprendizagem, fluência e mudanças de níveis de curso. É importante nesse caso, que as faltas, mesmo que justificadas pela empresa, sejam repostas, como forma de não penalizar o aluno pelo seu baixo desempenho.

“Acho estimulante chegar à empresa às 8 horas da manhã, sem problemas de estacionamento e fazer inglês com colegas de trabalho”, diz Pedro Rosa, analista de risco, também da EDP. O subsídio da companhia, aliado ao compromisso de comparecer às aulas e ter bom desempenho para manter o benefício, para ele, são diferenciais em relação às aulas particulares ou em escolas fora da empresa. “A questão financeira contribui muito. Também traz tranquilidade estar a poucos andares da minha mesa de trabalho. Isso proporciona melhor produtividade e atenção na aula porque sei que muito rapidamente estou em minha estação de trabalho”, avalia Rosa.

Conversa de corredor
Encontrar os colegas de diferentes áreas da empresa e dar aquela “conversadinha” em inglês no corredor é um dos diferenciais positivos na avaliação do gerente financeiro José Olimpio Storto, gerente administrativo e financeiro da indústria Rucker, para os cursos de inglês ministrados dentro do local de trabalho. Depois de cursar inglês por muitos anos em escolas, Olimpio considera que o aproveitamento das aulas na empresa é muito maior. “É muito mais dinâmico e descontraído ao mesmo tempo que dá um ritmo mais intenso ao aprendizado”, diz o gerente. Não pegar trânsito, não perder tempo procurando estacionamento e ser pontual também são outras vantagens apontadas por ele. Ter o inglês como a segunda língua é um dos entraves do Brasil em relação aos BRICs, especialmente a Índia, onde a fluência no idioma já a tornou um polo de outsourcing para call centers de países de língua inglesa. Por aqui, essa deficiência atinge do baixo ao mais alto escalão das empresas e com a expansão econômica a urgência ficou mais explícita. Mas além dos altos investimentos das organizações, é necessário que, do gestor ao estagiário, o compromisso e o respeito pelo horário de aula, tempo de estudo e reposição de aulas seja selado. Sem esse compromisso não há mágicas para avançar no domínio do inglês.

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Para não se enrolar na língua
Passos importantes que devem ser observados pelas empresas antes de contratar um curso de idioma in company
> Saiba quais são os objetivos da empresa
É fundamental que a companhia tenha em mente o motivo pelo qual ela está investindo (ou vai investir) num curso dessa natureza. Bem como saber quem irá participar dele.
> Avise sobre o início do treinamento a todos os gestores da empresa
Isso ajuda a garantir que os alunos aproveitem de fato aquele tempo que será dedicado ao treinamento e evita interrupções solicitadas pelo gestor.
> Identifique o nível de conhecimento dos participantes
Quem está muito à frente em fluência pode deixar de melhorar sua proficiência se compartilhar a aula com quem sabe menos – e este pode ficar desmotivado diante de alguém que saiba bem mais.
> Avalie o conteúdo, metodologia e as ferramentas do curso
É importante solicitar uma aula demonstrativa antes de contratar o curso para verificar se ele vai atender às necessidades da empresa.
> Defina o número de alunos por turma
Não há um consenso sobre o número máximo de alunos. Alguns cursos defendem que o ideal são cinco, enquanto outros trabalham com até cerca de 15 pessoas por turma.
> Preste atenção à carga horária e à periodicidade
Não existe milagre: falar um idioma de um dia para outro é uma promessa muito difícil de ser cumprida. Quem nunca teve contato com o idioma precisará de 80 a 100 horas para ter uma noção básica da língua.
> Escolha um local para a realização das aulas
Procure um local na companhia em que as interrupções (como chamadas telefônicas, por exemplo) não atrapalhem o bom andamento das aulas.
> Acompanhe o curso e calcule o retorno de investimento
A empresa deve acompanhar a evolução de seus colaboradores ao longo do curso – essa análise pode ser feita, por exemplo, com base em relatórios individuais enviados aos gestores pelas escolas.

Colaboraram nesta reportagem: Berlitz, Cel Lep, Cultura Inglesa, Flash! Idiomas e Mayfair Idiomas

 

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