Sem valor real

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    Nos dias atuais, uma das queixas mais ouvidas pelos profissionais no ambiente de trabalho é que eles não têm tempo suficiente para realizar tudo o que a empresa exige. Para o presidente da Gutemberg Consultores, Gutemberg de Macedo, estar ocupado nem sempre significa exercer um trabalho produtivo, já que muitos profissionais se limitam a fazer apenas o operacional, deixando de empreender atividades consideradas estratégicas para o negócio. Para o consultor, esse trabalho improdutivo é chamado fake work , expressão utilizada pelos norte-americanos que indica trabalho que não agrega valor – e que certamente gera custos para as empresas.

    “Muitos profissionais trabalham mais de 12 horas por dia e, mesmo assim, reclamam que o trabalho não rende e não agrega valor. Eles não sentem que fazem a diferença. E o pior: essas pessoas não têm tempo para si e, muito menos, para a família”, explica. Gutemberg acredita que as pessoas adiam viver a vida e fazer uma contribuição verdadeira na esperança de amanhã poder empreender as coisas que são verdadeiramente importantes. “Infelizmente, esse tempo nunca chega para a maioria dos profissionais. O resultado dessa realidade é a sensação de que o tempo passou e não se tirou proveito dele. É um paradoxo, já que se permanece mais tempo nas organizações. Essa sensação, além de angustiante, é frustrante”, garante.

    Segundo o presidente da Gutemberg Consultores, é fácil identificar o fake work : reuniões cansativas e improdutivas que não contribuem em absolutamente nada para o crescimento das pessoas e dos negócios; solicitação de mais informações aos subordinados quando sabem de antemão que eles não tomarão nenhuma decisão sobre o assunto e estão apenas enganando e se autossabotando; conversas longas ao telefone e sem qualquer objetivo relevante; viagens desnecessárias e feitas apenas porque desejam fugir da rotina ou dos problemas no ambiente de trabalho, entre outros.

     

    Valorizar o tempo

    “O fake work é uma realidade que mina e destrói organizações e carreiras”, avalia Macedo. Para se ter uma ideia disso, ele lembra os dados de uma pesquisa realizada pela Gallup Consulting, que ouviu mais de 1 000 empregados em diferentes organizações.

    Segundo esse levantamento, 61% dos profissionais se mostraram desengajados e 17% foram considerados ativamente desengajados. “Isso significa que além de trabalhar no piloto automático, sem motivação, alegria e comprometimento, entre outras questões vitais, essas pessoas contaminam o ambiente de trabalho. O custo desse desengajamento no Brasil é de 48 bilhões de dólares. Essa é uma cifra assustadora sob qualquer ângulo que analisemos”, diz.

    Para ele, o papel dos gestores de RH quando o assunto é combater o fake work , é essencial por várias razões:

    1 Os gestores de RH devem estar atentos sobre essa situação, combatê-la e desenvolver programas eficazes que despertem a atenção de todos. “Ninguém deve ficar de fora – do presidente ao mais humilde dos colaboradores.”

    2 Devem avaliar de maneira crítica e criteriosa o que verdadeiramente os colaboradores estão fazendo. “Afinal, de nada vale uma descrição de cargo bem feita se ela não é executada de maneira produtiva e se não há compatibilidade com a estratégia da empresa. É pura burocracia. Em outras palavras: fake work.”

    3 Devem conscientizar os colaboradores sobre a importância da realização de trabalhos que agreguem valor à organização e à própria carreira. Isso significa dizer: eliminar reuniões desnecessárias, longas e improdutivas; evitar as interrupções frequentes – telefone, internet, e-mails, visitas inesperadas, paradas longas para o cafezinho, entre tantas outras. “Está comprovado que um indivíduo que permanece concentrado na execução de seu trabalho, se interrompido, necessitará de 25 minutos para voltar a se concentrar novamente no que estava fazendo.”

    4 “A comunicação objetiva e clara sobre os objetivos estratégicos da organização é um must “, diz. Todos os colaboradores devem saber quais são eles e qual é o seu papel. Caso contrário, não se sentirá parte do processo e não valorizará seu trabalho. “Além disso, seu trabalho se transformará em fake work – matar as horas. São eles os escravos do relógio de ponto.”

    5 A avaliação do desempenho deve ser conduzida de maneira honesta e séria. “Infelizmente, o que se observa em muitas organizações é o descaso dos gestores – tudo é feito de maneira superficial, mecânica e burocrática. Ninguém desenvolve ninguém. Não há verdade na sua comunicação. É simplesmente vergonhoso.”

    6 Ênfase na administração do tempo como “valor” e não como um princípio mecânico. “Respeito ao tempo alheio, crítica construtiva ao profissional que precisa refazer seu trabalho constantemente, que se comunica de maneira ambivalente etc.”

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